segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Seu olhar brilha diferente sob a luz do bar, fazendo com que seus olhos pareçam mais escuros do que são, e eu não consigo pensar em outra coisa enquanto reparo nisso: é você. É você desde o segundo dia, quando você se abriu comigo sobre coisas que eu mesma fazia questão de manter escondidas, e me fez sentir menos sozinha.
A solidão, inclusive, é algo que deixou de fazer parte dos meus dias desde que você chegou de mansinho perto de mim, com medo de acordar minha amiga bêbada, dando um sorriso envergonhado enquanto se sentava do meu lado, com as costas contra o sol e o rosto virado para mim. Eu me lembro do seu cabelo, reflexos dourados no sol das 15h, preso num coque mal feito, com alguns fios brigando com o vento; lembro do seu sorriso, os dentes escondidos sob lábios avermelhados que se moviam rápido enquanto você falava do seu dia; e me lembro da sua voz, calma e suave, oscilando o tom em momentos animados.
Momentos tipo esse, em que eu vejo seus olhos, mais escuros do que eles são, focados em mim enquanto você compartilha comigo algo que te interessa tanto que automaticamente se torna meu interesse também. E embora eu queira ouvir o que você tem pra me dizer, só consigo pensar, enquanto te observo, que o que eu sinto é tão grande que quase não cabe no peito. 

sábado, 18 de junho de 2016

Que seja

É solitário demais ser a pessoa que sempre fica pra trás. Talvez seja mesmo minha culpa, mas o que eu posso fazer por mim além de ser eu mesma?

Eu queria que você pagasse pra ver que esse meu jeito bobo é só minha forma de me proteger do mundo todo, que sempre me deixa de lado quando o assunto é ser feliz. Eu queria que esses teus olhos azuis me enxergassem além da minha camada de medo e autodefesa.

É solitário lutar sozinha, embora eu saiba que é sozinha que eu devo lutar contra a minha resistência idiota ao mundo real.

No mundo real teus olhos azuis estão focados em outro alguém. Outras mãos passeiam pelos teus cabelos ruivos. Outras pessoas aproveitam as oportunidades que eu perdi ao deixar minha mão longe da tua, meu olhar no chão, meu coração fechado demais para quem quisesse entrar.

A culpa é minha. Eu sei. Eu assumo. Mas é difícil mudar quando os rostos e as vozes e beijos mudam, mas o resultado é sempre o mesmo: eu aqui, vocês todos indo embora.

domingo, 1 de maio de 2016

Estar apaixonada não é como eu me lembrava: acho que as borboletas no estômago deixam de bater as asas com tanta vontade depois de um tempo. Talvez seja comigo o problema, talvez eu tenha endurecido um pouco. A ideia era não perder a ternura jamais, mas depois de algumas decepções acho que a gente se permite sentir menos. Ainda que esse "sentir menos" para mim ainda seja sentir demais.

Eu ainda idealizo demais, sonho demais, desejo demais. E isso, sim, é exatamente como eu me lembrava. A sensação de gostar de alguém mudou, não me causa mais aquela euforia toda, mas acho que minha vontade de ficar nunca vai mudar.

Antes, me doía pensar na despedida. Hoje ainda dói, mas eu aprendi a balancear essa dor com o prazer de estar deitada ao seu lado, com a mão perdida no seu cabelo, enquanto você, concentrado no filme, me faz um carinho meio desajeitado. Aprendi a apreciar as oportunidades que vez ou outra a vida me dá de te ter por perto.

Ainda não sei muito, mas agora acho que estar apaixonada é muito mais que pensar: é sentir, na pele (assim tão real, tão na superfície), um calor bom ao te ver sorrir, ainda mais quando você sorri para mim. É uma dorzinha boa, lá no fundo do peito, que me dá ao observar seu rosto de perto e perceber que o seu olhar busca em mim algum motivo pra ficar.

E eu te dou. Dou esses motivos numa risada, num abraço apertado, num beijo entre todos os outros beijos. Pode ficar. Meu coração te espera como quem espera um trem de volta pra casa: cheio de saudade e uma certa angústia por estar tão longe.

- 04/04/16

Coisas que não posso te dizer ao pé do ouvido

Ah, se você soubesse... É tão puro o que eu sinto por você, e por esse teu riso frouxo, de dentes perfeitinhos. São coisas que eu ainda não posso te dizer, mas que eu sinto a necessidade de registrar, porque assim eu não me esqueço. Assim, eu posso viver de novo esse sensação de te ter comigo, sua cabeça descansando na minha perna enquanto eu te observo na intenção de decorar os detalhes do seu rosto, como esse sinal perto da sua boca...
Eu queria te dizer, qualquer dia desses, enquanto a gente estivesse deitado na cama, você tentando chamar minha atenção, eu tentando não sorrir para cada olhar teu... Eu queria te dizer, poder te dizer, assim, ao pé do ouvido, o quanto eu gosto de você, e desses sorrisos bobos que você me dá, e da sua voz me mandando parar de te fazer cócegas, e dessa sua mania de morder o lábio, e desse seu cabelo sempre arrumadinho, e dessas bochechas rosadas, e até desse teu pé pequeno.
Eu adoro você, garoto, e adoro a forma como meu coração bate diante da ideia de te ver, como a minha mão encaixa com a tua, como o meu riso é fácil quando você está rindo também.

- Solta esse cabelo, para de botar ele pro lado... Tira essa unha da boca, presta atenção em mim. Eu deixei de cortar o cabelo por sua causa, mas isso é segredo. Tudo acima também.

Março 2016

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Tenho que ir

"Eu não quero morrer, só quero deixar de existir por um tempo."

É a definição que eu encontrei para essa minha necessidade de ir embora. Eu não aguento mais. A faculdade, o estágio, meu quarto bagunçado, meus amores fracassados. Me disseram que é assim mesmo, que quando a gente cresce a rotina começa a esmagar a gente. Mas eu não quero sentir esse peso cada vez maior no peito sem poder fazer nada.

Eu prometi pra mim que eu iria escrever sobre as coisas que eu sinto, porque talvez isso ajudasse a aliviar um pouco dessa angústia. Mas a verdade é que não importa o quanto eu escreva... Eu ainda chego em casa todos os dias com a sensação de que não cabe mais nada em mim, mas que ainda assim me falta alguma coisa.

Eu tento, juro que tento. Tento manter a cabeça levantada, o sorriso no rosto, as lâminas velhas bem longe dos meus pulsos. Eu tento. Tento pensar que é assim mesmo, que isso é só aquele período de luto do qual falam os psiquiatras, que uma hora vai passar, como sempre passa.

Por mais que eu tente, e por mais que eu saiba que vai passar, eu não consigo deixar de pensar que ainda virão outros. Virão outros como o Natan, o Eduardo, o Matheus, o Gabriel, o Roberto...

Outros virão e eu vou ficar, porque eu sempre fico. Sempre fico... e cada vez com menos de mim.

Só que eu não quero mais ficar, não quero.
Não posso.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Já passou tanto tempo, loirinho...

Minha vida poderia ser diferente.
Era o que repetia incessantemente, sentada na frente da televisão. Os olhos focavam o nada, perdidos há muito nas possibilidades que sequer deram a ela a chance de alcançá-las. Tudo passou muito depressa, eu sei, pequena. Parece que foi ontem que você pisou na faculdade pela primeira vez, suas pernas tremendo enquanto você entrava na sala de aula. Quem diria que hoje você teria que crescer? É assim mesmo, meu bem, a vida passa e quando a gente percebe a gente já não pode mais assistir desenho o dia inteiro.
Do que vai adiantar você cobiçar a vida de quem está do outro lado do corredor, se o seu caminho já está quase completo? Resta um pedaço de papel no seu caderninho de decepções para aquilo que você de fato queria fazer da sua vida.
Se...
Se...
Se... Se tivesse acontecido talvez você não fosse tão sozinha agora; talvez ele pudesse ter gostado de você; talvez tudo seria diferente.
Eu sei que dói, mas é assim mesmo. A gente vai colhendo mágoas e colecionando cicatrizes.

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Janeiro de 2015, achei perdido no bloco de notas

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dia 7

Demorei tanto pra escolher uma roupa que cheguei atrasada. Saí do carro com aquela sensação estranha de não estar vendo nada ao meu redor, andando com pressa na direção da escada rolante. Na cabeça um milhão de coisas, no peito outras mil.

Acho que pensei demais, planejei demais, e subindo a escada rolante e falando com qualquer pessoa no celular só pra parecer despreocupada, eu percebi o quanto eu estava ansiosa. Pra vê-lo. Pra conhecer o cara por trás daquela tela, daquelas palavras, daqueles planos todos. Depois de tanto tempo sozinha - quantos meses, seis, sete? - era até difícil de acreditar que eu finalmente tinha me permitido uma coisa boba dessas. Conhecer um cara. Um cara novo, da internet, que incrivelmente mora a duas ruas da minha casa - "e a gente nunca se viu?!" "pois é, que coisa louca". Ainda mais depois de me fechar tão bem para tudo e todos. 

Ali estava eu, andando meio perdida pelo shopping, procurando o cinema, indo encontrar um cara que eu tinha conhecido há dez dias, numa noite tediosa, e tinha depositado todas as minhas fichas e piadinhas pra quebrar o gelo e esperanças e medos e sentimentos guardados há muito no fundo do armário.

A cada passo meu coração batia mais forte, com a ideia de que uma hora teria que parar de andar e encarar um rosto que talvez não fosse o que eu imaginava - fotos sempre enganam, não é? -, mas acima dessa, a ideia de que aquele cara estaria ali, provavelmente tão nervoso quanto eu, depois de termos compartilhado tantas palavras e risadas e planos.

Era uma ideia boba, a de que aquilo era o início de algo, mas era uma ideia tão certa naquele momento, que eu só me preocupava em parecer legal, fazer as piadas certas, não ser tão esquisita, rir dos comentários bobos, segurar o medo e seguir em frente.

De frente pro cinema eu me sentia uma idiota, nervosa por uma coisa tão normal quanto encontrar um cara. É a coisa mais normal do mundo, não tem motivo pra ficar tão ansiosa, para de tremer, merda, meu rosto ta ficando quente, eu devo estar toda vermelha, merda, cadê ele?

Os olhos grudados no celular, na esperança de que não denunciassem meu nervosismo, me impediram de vê-lo chegando. Foi ele que me viu primeiro. Foi ele que avisou que estava logo atrás de mim. Fui eu que tive que me virar pra encontrar ele. Esse não era meu plano. Meu plano era chegar de fininho, ver tudo de longe, e depois me aproximar com um sorrisinho e dizer que ele tinha chegado muito cedo. Mas fui eu que tive que virar, com o coração batendo a mil, pra ver o tal rosto, todo vermelho, me olhando a distância. Era diferente da foto, mas eu gostei. Gostei porque era ele, afinal. Gostei porque já gostava, porque já esperava o "bom dia" todos os dias de manhã, porque já contava com o "Lari, vou dormir" pra poder dormir também.

A verdade, eu acho, é que eu já tinha me entregado muito antes daquilo. Acho que me entreguei quando respondi o elogio sobre o meu cabelo... Ou quando perguntei se ele tinha alergia a gatos.

Ele veio andando devagarinho, com uma carinha estranha, as bochechas muito vermelhas, e eu não tenho ideia da cara que eu estava fazendo, mas acho que estava sorrindo. E nervosa como sempre, dei um oi frouxo, evitando a qualquer custo olhar pra cima, encarar aqueles olhos que me analisavam, porque odeio me sentir observada, odeio primeiros encontros, odeio não superar as expectativas, odeio ficar com manchas vermelhas no colo, odeio não saber o que fazer com as mãos. Ele também não sabia o que fazer com as mãos, nem comigo, nem com ele mesmo.

A gente parecia muito diferente, ele nerdzinho carente e eu toda explosiva, reclamona, mas naquele momento nós dois éramos dois adolescentes envergonhados, que não sabíamos pra onde ir e nem o que falar.

Fico triste sempre que lembro disso. Porque eu lembro que não o recebi com um abraço apertado, que recusei um beijo no cinema, que fiquei tão nervosa que fui fria em alguns momentos, quando na verdade tudo o que eu queria era mergulhar de cabeça em alguém que também quisesse mergulhar de cabeça em mim.

Mas também me pego sorrindo quando lembro dele olhando pro meu pescoço, perguntando se eu estava com alergia e rindo ao me ouvir dizer que eu fico vermelha quando estou nervosa, mas que ele não podia rir de mim porque estava vermelho também.

Sempre me rende um suspiro lembrar da sua voz, naquele tom baixinho, me perguntando porque eu estava nervosa, pedindo desculpas por ter comprado os ingressos pro filme errado - "falei pro meu amigo que ia ver Hitman...", "você ia ver o que?", "Hitman...", "mas não é Hitman! é Missão Impossível, por causa do Simon Pegg!", "ta de sacanagem? meu deus, desculpa... mas você tava comigo, você não viu na tela?", "não, eu tava muito nervosa e não consegui ler o que tava escrito!", "meu deus, e agora? desculpa desculpa desculpa" -, me agradecendo por encostar no seu ombro...

Meu coração sempre pula uma batida quando eu lembro do beijo no canto da boca, ou quando releio a parte em que, depois de me deixar em casa, ele diz que meu cheiro ficou na camisa dele e que ele queria que tivesse ficado mais... mais do cheiro e mais de mim.

Eu também queria que tivesse ficado mais dele.