Eu vejo um homem. Cabelos escuros, barba malfeita. Seu rosto magro não contrasta de forma alguma com o corpo esquelético. Suas roupas são tão largas que parecem emprestadas. Seus olhos, também escuros, estão escondidos em cavidades tão profundas e negras que a impressão que tenho é a de um corpo sem vida apodrecendo diante de meus olhos.
A água da chuva bate contra sua pele, tão fina como uma folha de papel, e se junta em suas saboneteiras, tão fundas quanto seus olhos tristes
e suas bochechas; os ossos tão proeminentes quanto os das maçãs do rosto parecem prestes a rasgar a fina camada que os protege.
Eu o observo de longe, quase escondida. O grande anjo, estátua pálida de face serena, me protege de sua visão com suas grandes asas que um dia foram brancas. Hoje, assim como todas as outras, têm uma tonalidade cinza-chumbo, resultado do tempo e de sua capacidade de destruir coisas belas. Ele já foi belo um dia. Ao contrário de agora, não parecia um fantasma. Tudo mudou, ou começou a mudar, a apodrecer, quando ela se matou.
Foi há dez anos. Ela tinha dezessete. Dezessete anos e, cansada de sofrer por tudo e todos, decidiu, num momento egoísta, acabar com aquilo de uma vez por todas, sem chance de voltar atrás. “Espero que sofram por mim”, foi o que disse no bilhete, escrito em letras trêmulas em um antigo cartão de aniversário. Desejou que sofressem, mas todos sabiam que aquilo era endereçado somente a ele.
“Gostaria que ela tivesse me dado mais uma chance”, foi o que ele disse, há exatos dez anos, quando a viu dentro do caixão, as narinas tampadas, o rosto calmo, quase feliz, o corpo coberto de flores. Ela já o tinha dado muitas chances.
A chuva cai e eu vejo suas saboneteiras se encherem e transbordarem e se encherem de novo enquanto ele, corpo sem alma, apodrecendo diante de meus olhos, segura com suas mãos frias, esqueléticas, trêmulas, três rosas vermelhas. Encharcadas, elas se desfazem aos poucos, afogando-se no rio de lágrimas que caem do céu naquela tarde de quarta-feira, misturadas com as lágrimas quentes que saltam daqueles olhos fundos. Seus dedos finos seguram as flores com tanta força, num gesto quase paranoico, frenético, doentio, que seus espinhos perfuram sua pele de papel e seu sangue suja o mármore claro da lápide daquela que um dia deu seu sangue por ele.
Solitário, ele curva seu corpo de graveto e deixa que as rosas caiam exatamente onde caíram dez anos atrás. Acho bonito... O gesto. Gosto de pensar que quando for minha vez alguém também vai se importar mesmo depois de tanto tempo, alguém não vai me abandonar como todos os outros o fazem, julgando ser inevitável esquecer.
A chuva lava o sangue de suas mãos e as lágrimas de seu rosto e enche suas saboneteiras, enquanto ele permanece ali, parado, pensando no quanto é injusto que as coisas nem sempre possam ser controladas. Parado ali, pensando no quanto teria agido diferente se soubesse o final da própria história, se soubesse que, por mais que se tente, não se pode trazer alguém de volta, não se pode juntar seus pedaços que ficaram pelo caminho.

Nossa, Larissa... Que texto incrível, que conto maravilhoso. Eu poderia dizer que senti a dor desse homem.
ResponderExcluirPuxa, e que assunto difícil. É como você mesma disse: as pessoas colocam nos outros a responsabilidade pela própria felicidade. Quem sabe, se 'ela' não tivesse feito isso, poderia estar viva, amadurecida e cicatrizada pelo tempo. Quem sabe ainda pudesse dar a ele a chance da qual precisava... Como uma atitude impensada pode causar sofrimento...
De nossa parte, tenha certeza de que alguém irá lembrar e se importar quando nos formos - caso façamos diferença na vida de alguém; e é para isso que estamos aqui.
Belíssimo texto. Mesmo.
Pois é, é um assunto muito difícil. Muitas vezes a gente precisa aprender a lidar com o sofrimento pra ver que ele faz parte da vida: não podemos esperar a perfeição de ninguém. É difícil enxergar... Assim como é difícil aprender com as coisas que nos fazem mal. Mas é algo necessário para aprender a viver bem consigo mesmo e não depender dos outros para ser feliz.
ExcluirInfelizmente precisamos passar, às vezes, por situações muito difíceis para enxergamos além da dor.
Obrigada pelo comentário e pelos elogios! :3