Olho para a imensidão azul em minha frente, tomada pela sensação de liberdade, sentindo o frio percorrer lentamente minha espinha. Estou sozinha, sentindo o vento bagunçar meus cabelos. A água toca a ponta dos meus dedos, engole meus pés descalços, sobe por minhas canelas trêmulas e faz com que meu corpo balance levemente.
Conto até três mentalmente. Olho para trás uma última vez, vendo a mochila, carregada de bilhetes de despedida e objetos que eu gostaria que estivessem junto comigo neste momento. Sempre fui muito materialista, era o que diziam. Sempre fui muito sensível também... Uma pena que ninguém tivesse notado. Gostaria de ter experimentado algumas últimas sensações. Gostaria de ter abraçado pela última vez a única pessoa que me importava; gostaria de ter chorado de verdade, só para aliviar um pouco o peso dos ombros.
A água está agora em minhas coxas e as pedras em meus bolsos praticamente não pesam mais. Começo a imaginar o que as pessoas vão dizer... Será que alguém vai notar todos os sinais que eu dei? Será que alguém não notou? Gostaria que alguém tivesse me salvado se pudesse. Fechando os olhos novamente, consigo imaginar, como em meus últimos momentos, uma mão me puxando pelo braço e me sacudindo forte. “O que diabos você tinha na cabeça?”, ele diz, enquanto me aperta contra seu peito e beija minha testa molhada. Gostaria de sentir seus lábios uma última vez.
Não posso resistir à correnteza... Sinto a água invadindo rapidamente meus ouvidos e sinto o desespero dar as caras pela primeira vez em muito tempo. Estou reagindo. Inutilmente prendo a respiração, talvez num último movimento involuntário antes de ser tomada completamente pela água. Os olhos fechados. Estou com medo de abri-los. Tenho medo do que posso encontrar. Medo de que seja apenas mais escuridão, mais desespero. Posso me sentir afundando cada vez mais. Drowning slowly.
Tento me mover, mas não consigo. Perdendo os sentidos, peço para o desespero dar lugar para a paz. O silêncio toma conta de tudo. A água invade minhas narinas e minha boca se abre. O desespero já se foi.
Tudo já se foi.
Sem medo, abro os olhos. Acima de mim, a luz trêmula da lua. Abaixo, o vazio, a escuridão, e mais nada...
Não sei ao certo, mas você me pareceu tão fascinada pela morte quanto eu sou. Eu, sem dúvidas, gostaria de acordar um dia imersa pelo vazio e a escuridão. Eu posso sentir a paz só de falar, de imaginar. A Morte é bela, amiga e apaziguadora... A morte tem seu tempo, e é exatamente por respeitá-la tanto que eu jamais o adiantaria.
ResponderExcluirSabe o que me conforta? Saber que podemos morrer todos os dias, e acordarmos renovados - tanto em sentido figurativo, quanto participando de uma experiência extra-corpórea. E a Entidade Morte nos dá paz - estejamos vivos ou não.
Seu conto é maravilhoso! Gostei demais do seu estilo de escrita. Caramba! Meus parabéns!
(PS: Até já tinha escrito um textículo nesse meu outro blog à respeito do assunto 'morte'
>>>>> http://meusolnegro.blogspot.com.br/2013/01/xiii-arcano.html)
É, passei por um período difícil e acabei aprendendo a ver as coisas além do que é óbvio: o sofrimento nem sempre é tão ruim quanto parece e nem sempre nos traz só coisas ruins. O vazio pode nos ensinar coisas que jamais aprenderíamos num dia como outro qualquer. A ideia de deixar o mundo (ou ele nos deixar) acaba fascinando e acho que é por isso que a escuridão pode ser um conforto... Estar em constante contato com os seus demônios e aprender a conviver com eles... Acho toda a ideia fascinante e a cada dia me interesso mais pelo que tenho por dentro. Acabei me tornando muito reservada nesse sentido e muitas vezes o que as outras pessoas vêem não é nada além de uma garota "normal". Por isso uso o blog para me confessar pra mim mesma e para os que por um acaso o encontram. Me sinto feliz em saber que você se identificou com meu estilo de escrita e gostou do texto. Muito obrigada pelo comentário, mesmo!
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