quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Morning Glory


A luz do sol iluminava suavemente o corpo do rapaz sentado na beira da cama, olhando fixamente para o chão como se tivesse perdido um objeto muito pequeno e soubesse que para encontrá-lo não adiantaria ficar rondando pelo quarto. Seu peito subia e descia conforme o ar entrava e saía de seus pulmões, cada vez num ritmo mais lento, mais calmo. Ele estava pensativo como nunca tinha estado antes.

Levou as mãos ao cabelo bagunçado, deslizando-as por ele despreocupadamente, como se também soubesse que para arrumá-lo não bastaria um simples passar de mãos. Rolou os olhos pelo quarto mal iluminado, vendo suas roupas no chão, misturadas com as roupas da garota deitada na cama.

Seu peito subiu com um pouco mais de rapidez, mas demorou um pouco mais a descer, como se ele estivesse tentando suspirar fortemente sem fazer nenhum barulho. Estava apenas respirando fundo, refletindo profundamente nas escolhas que tinha feito até ali. Teve vontade de fechar as cortinas, para que luz nenhuma atrapalhasse aquele momento e muito menos acordasse a menina, uma vez que queria poder admirá-la um pouco enquanto dormia.

Era uma coisa relaxante, de certa forma. Sentia o peito se esvaziar de um monte de preocupações e mágoas e todas as outras coisas que o deixavam confuso ao olhar para seu rosto calmo. Vez ou outra passava as pontas dos dedos por suas bochechas levemente coradas, colocava seus cabelos desgrenhados atrás de sua orelha, deixava que seus dedos deslizassem por seu pescoço quente e em seguida voltavam ao seu rosto. Gostava de vê-la dormir, de senti-la dormir, de ver o quanto seu corpo descansava calmamente enquanto ele estava ali, observando-a.

Mas ele ainda estava sentado na beirada da cama, lembrando-se de todos aqueles momentos de paz, de sossego, e imaginando quanto tempo ainda teria para aproveitá-los. Respirou fundo mais uma vez, sentindo o peito se esvaziar um pouco, como se fosse uma bexiga de festa com um pequeno furo. Levantou a cabeça, olhando atentamente para a parede creme que estava na sua frente, como se nela também houvesse um pequeno objeto perdido.
              
Levou um susto quando sentiu duas mãos pequenas, macias e quentes envolvendo seus ombros e puxando-o um pouco para trás. Piscou algumas vezes, inclinando a cabeça um pouco para o lado para poder olhar a garota que estava debruçada sobre ele, sorrindo com seus olhos azuis. Era engraçado como ela sorria. Não mostrava os dentes, não movia um músculo, nem mesmo curvava os lábios para cima como algumas pessoas faziam. Ela sorria com os olhos.

- Por que levantou tão cedo? – sua voz macia deslizou calmamente pelo ar, como um pequeno sussurro que procurava um ouvido para se enfiar. Encontrou os do garoto, que apenas fez que não com a cabeça e respirou fundo mais uma vez. Não queria falar, não queria abrir a boca e perceber que todo aquele momento de reflexão foi apenas mais um momento de reflexão. Porque era isso o que acontecia com ele quando ouvia sua própria voz, rouca, estranha, invadindo aquele lugar que lhe era tão relaxante, que parecia tão calmo. Era como se a sua voz tirasse toda a magia das coisas.

Talvez a garota soubesse disso, pois também não falou mais nada. Apenas continuou com os braços magros ao redor dos ombros também magros do garoto, deslizando as mãos quentes por seu peito frio que subia e descia calmamente. Esfregou a ponta do nariz por seu pescoço, depositando pequenos beijos estalados hora ou outra. Sabia que ele gostava disso, sabia que ele gostava daquele contato físico que quase não podia ser chamado de contato físico.

De alguma forma ela sentia que os dois estavam conectados por algo além dos corpos nus jogados sobre a cama desarrumada. Era como se eles estivessem conectados pelo coração, pela alma. Era incrível como eles poderiam ficar um dia inteiro em silêncio, somente sentados daquela forma, somente sentindo um ao outro como se não houvesse mais nada e mais ninguém no mundo.

O garoto abaixou novamente a cabeça, voltando a fixar o olhar no chão, como fazia antes, e a garota apenas levou as mãos até seus cabelos escuros, deslizando-as por eles, bagunçando-os um pouco mais. Sentia os fios macios passando por entre seus dedos e respirava fundo toda vez que percebia o quanto ele se sentia bem ao saber que ela estava ali. Não era como se ele falasse qualquer coisa, porque ele não falava. Na verdade, ela nem se recordava da última vez que ouviu alguma coisa do gênero vinda dele, mas não se importava. Ela simplesmente sabia, sentia, percebia. Mais uma vez, era como se eles estivessem conectados por algo além dos corpos. E era isso o que a fazia passar as mãos por aqueles cabelos escuros, era isso o que a permitia deslizar as mãos por aquela nuca, por aqueles ombros, por aquelas costas, sem se importar se iria ou não ouvir alguma coisa como um “eu te amo” ou apenas um “continue fazendo isso, é bom”. Sabia que amava, sabia que era bom, sabia que devia continuar.

Ele deixou que um pequeno sorriso curvasse levemente seus lábios para cima, como sempre fazia quando sentia que os dois eram mais do que apenas dois amantes deitados sobre uma cama desarrumada. Deixou que aquele sorriso continuasse ali por mais alguns segundos, antes de segurar as pequenas e macias mãos da garota e se virar para poder encará-la. Ela parecia surpresa. Seus olhos azuis estavam com um brilho estranho, como se ela estivesse prestes a chorar, mas não fosse fazer isso de forma alguma. Eles não estavam sorrindo como antes, como sempre, mas ele não se preocupou com isso, porque sabia que em alguns segundos eles estariam sorrindo de novo.

Ficaram assim por um longo tempo, enquanto a luz do sol iluminava cada vez mais o quarto e fazia com que a magia daquele momento se esvaísse junto com a fina neblina da manhã*. Somente eles dois, se olhando, se encarando, se sentindo. Sentindo um ao outro, como sempre fizeram. Os olhos castanhos do garoto estavam tão fixos nos olhos azuis da garota que ele sentia que a qualquer momento poderia invadi-la e descobrir tudo o que estava pensando. Seus medos, seus desejos, suas lembranças, tudo. Parecia que a qualquer momento todos os segredos que ainda existiam entre os dois seriam desvendados.

Ela deixou que sua boca se abrisse um pouco, se preparando para falar. O garoto podia sentir sua garganta arranhando e suas cordas vocais vibrando enquanto ela fazia isso. Ele sabia que a qualquer momento a luz do sol iluminaria completamente o quarto e a voz macia da garota, que sempre parecia sussurrar, invadiria seus ouvidos mais uma vez, então não se preocupou com o fato de que toda a magia do momento, toda a calma, todas as outras coisas iriam acabar. Ele não se preocuparia nem se o mundo estivesse acabando.

- Você vai estar sempre aqui? – foi o que os lábios rosados e rachados perguntaram com um tanto de preocupação e medo que o garoto sempre soube que estiveram ali, mas nunca achou que fossem ser confessados. Mais uma vez deixou que o sorriso curvasse seus lábios um pouco para cima. Não mostrou os dentes, quase nunca fazia isso. Sentiu vontade de congelar aquele momento, aquele cenário, aquela expressão de medo que ainda estava no rosto amassado da garota, aquele cheiro de manhã ensolarada*. Queria que aquilo tudo fosse pra sempre. Aquela conexão, aqueles olhos risonhos, aqueles corpos nus sobre a cama desarrumada. Até sentiu vontade de rir. Só rir. Sem motivo, sem graça. Apenas abrir a boca e soltar uma risada, porque sabia que nenhum momento podia ser congelado, nem ficar preso no tempo como desejava que fosse possível, mas sabia que eles dois eram para sempre. Acontecesse o que acontecesse.

Ainda não queria estragar nada com sua voz rouca, estranha até mesmo para ele, mas, ainda que houvesse aquela conexão que tornava desnecessário o uso das palavras, sabia que tinha que responder a pergunta. Sabia que só veria aqueles olhos azuis sorrindo mais uma vez se respondesse a pergunta que ainda passeava calmamente pelo quarto, batendo nas paredes e nunca saindo pela janela. A luz do sol agora iluminava os cabelos desgrenhados da garota, fazendo com que eles brilhassem muito mais do que brilhavam com a simples luz da lâmpada que estava acesa antes de os dois dormirem. Respirou fundo mais uma vez, ainda olhando fixamente dentro daqueles olhos aflitos que ainda poderiam desvendar todos os segredos que ele não queria descobrir – simplesmente por não sentir necessidade, não por medo. E então abriu a boca, deixando que uma simples palavra saísse por seus lábios feios e ressecados:

- Sempre.  

Os olhos azuis suspiraram aliviados, sorrindo e se aproximando lentamente dos seus olhos castanhos. A garota envolveu seu pescoço com os braços magros, deixando que seu corpo suado e grudento se unisse ao corpo suado e grudento do rapaz que ainda estava sentado na beirada da cama, como se tivesse acabado de acordar e olhasse para o chão fixamente, procurando um pequeno objeto perdido no chão. A luz do sol iluminava todo o quarto, finalmente, mas ele não sentiu a magia do momento indo embora.

Deixou que os seus lábios feios e ressecados se unissem aos lábios rosados e rachados da garota, como se, por mais que estivessem conectados por coração e alma, ainda precisassem estar conectados através dos corpos, como se fossem apenas amantes numa manhã ensolarada em cima de uma cama desarrumada. Como se fossem apenas eles dois para sempre. 

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Outubro de 2010

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