A luz do sol iluminava suavemente o corpo do
rapaz sentado na beira da cama, olhando fixamente para o chão como se tivesse
perdido um objeto muito pequeno e soubesse que para encontrá-lo não adiantaria
ficar rondando pelo quarto. Seu peito subia e descia conforme o ar entrava e
saía de seus pulmões, cada vez num ritmo mais lento, mais calmo. Ele estava
pensativo como nunca tinha estado antes.
Levou as mãos ao cabelo bagunçado,
deslizando-as por ele despreocupadamente, como se também soubesse que para arrumá-lo
não bastaria um simples passar de mãos. Rolou os olhos pelo quarto mal
iluminado, vendo suas roupas no chão, misturadas com as roupas da garota
deitada na cama.
Seu peito subiu com um pouco mais de
rapidez, mas demorou um pouco mais a descer, como se ele estivesse tentando
suspirar fortemente sem fazer nenhum barulho. Estava apenas respirando fundo,
refletindo profundamente nas escolhas que tinha feito até ali. Teve vontade de
fechar as cortinas, para que luz nenhuma atrapalhasse aquele momento e muito
menos acordasse a menina, uma vez que queria poder admirá-la um pouco enquanto
dormia.
Era uma coisa relaxante, de certa forma.
Sentia o peito se esvaziar de um monte de preocupações e mágoas e todas as
outras coisas que o deixavam confuso ao olhar para seu rosto calmo. Vez ou
outra passava as pontas dos dedos por suas bochechas levemente coradas,
colocava seus cabelos desgrenhados atrás de sua orelha, deixava que seus dedos
deslizassem por seu pescoço quente e em seguida voltavam ao seu rosto. Gostava
de vê-la dormir, de senti-la dormir, de ver o quanto seu corpo descansava
calmamente enquanto ele estava ali, observando-a.
Mas ele ainda estava sentado na beirada da
cama, lembrando-se de todos aqueles momentos de paz, de sossego, e imaginando
quanto tempo ainda teria para aproveitá-los. Respirou fundo mais uma vez,
sentindo o peito se esvaziar um pouco, como se fosse uma bexiga de festa com um
pequeno furo. Levantou a cabeça, olhando atentamente para a parede creme que
estava na sua frente, como se nela também houvesse um pequeno objeto perdido.
Levou um susto quando sentiu duas mãos
pequenas, macias e quentes envolvendo seus ombros e puxando-o um pouco para
trás. Piscou algumas vezes, inclinando a cabeça um pouco para o lado para poder
olhar a garota que estava debruçada sobre ele, sorrindo com seus olhos azuis.
Era engraçado como ela sorria. Não mostrava os dentes, não movia um músculo,
nem mesmo curvava os lábios para cima como algumas pessoas faziam. Ela sorria
com os olhos.
- Por que levantou tão cedo? – sua voz macia
deslizou calmamente pelo ar, como um pequeno sussurro que procurava um ouvido
para se enfiar. Encontrou os do garoto, que apenas fez que não com a cabeça e
respirou fundo mais uma vez. Não queria falar, não queria abrir a boca e perceber
que todo aquele momento de reflexão foi apenas mais um momento de reflexão.
Porque era isso o que acontecia com ele quando ouvia sua própria voz, rouca,
estranha, invadindo aquele lugar que lhe era tão relaxante, que parecia tão
calmo. Era como se a sua voz tirasse toda a magia das coisas.
Talvez a garota soubesse disso, pois também
não falou mais nada. Apenas continuou com os braços magros ao redor dos ombros
também magros do garoto, deslizando as mãos quentes por seu peito frio que
subia e descia calmamente. Esfregou a ponta do nariz por seu pescoço,
depositando pequenos beijos estalados hora ou outra. Sabia que ele gostava
disso, sabia que ele gostava daquele contato físico que quase não podia ser
chamado de contato físico.
De alguma forma ela sentia que os dois
estavam conectados por algo além dos corpos nus jogados sobre a cama
desarrumada. Era como se eles estivessem conectados pelo coração, pela alma.
Era incrível como eles poderiam ficar um dia inteiro em silêncio, somente
sentados daquela forma, somente sentindo um ao outro como se não houvesse mais
nada e mais ninguém no mundo.
O garoto abaixou novamente a cabeça,
voltando a fixar o olhar no chão, como fazia antes, e a garota apenas levou as
mãos até seus cabelos escuros, deslizando-as por eles, bagunçando-os um pouco
mais. Sentia os fios macios passando por entre seus dedos e respirava fundo
toda vez que percebia o quanto ele se sentia bem ao saber que ela estava ali.
Não era como se ele falasse qualquer coisa, porque ele não falava. Na verdade,
ela nem se recordava da última vez que ouviu alguma coisa do gênero vinda dele,
mas não se importava. Ela simplesmente sabia, sentia, percebia. Mais uma vez,
era como se eles estivessem conectados por algo além dos corpos. E era isso o
que a fazia passar as mãos por aqueles cabelos escuros, era isso o que a
permitia deslizar as mãos por aquela nuca, por aqueles ombros, por aquelas
costas, sem se importar se iria ou não ouvir alguma coisa como um “eu te amo”
ou apenas um “continue fazendo isso, é bom”. Sabia que amava, sabia que era
bom, sabia que devia continuar.
Ele deixou que um pequeno sorriso curvasse
levemente seus lábios para cima, como sempre fazia quando sentia que os dois
eram mais do que apenas dois amantes deitados sobre uma cama desarrumada.
Deixou que aquele sorriso continuasse ali por mais alguns segundos, antes de
segurar as pequenas e macias mãos da garota e se virar para poder encará-la.
Ela parecia surpresa. Seus olhos azuis estavam com um brilho estranho, como se
ela estivesse prestes a chorar, mas não fosse fazer isso de forma alguma. Eles
não estavam sorrindo como antes, como sempre, mas ele não se preocupou com
isso, porque sabia que em alguns segundos eles estariam sorrindo de novo.
Ficaram assim por um longo tempo, enquanto a
luz do sol iluminava cada vez mais o quarto e fazia com que a magia daquele
momento se esvaísse junto com a fina neblina da manhã*. Somente eles dois, se
olhando, se encarando, se sentindo. Sentindo um ao outro, como sempre fizeram.
Os olhos castanhos do garoto estavam tão fixos nos olhos azuis da garota que
ele sentia que a qualquer momento poderia invadi-la e descobrir tudo o que
estava pensando. Seus medos, seus desejos, suas lembranças, tudo. Parecia que a
qualquer momento todos os segredos que ainda existiam entre os dois seriam
desvendados.
Ela deixou que sua boca se abrisse um pouco,
se preparando para falar. O garoto podia sentir sua garganta arranhando e suas
cordas vocais vibrando enquanto ela fazia isso. Ele sabia que a qualquer
momento a luz do sol iluminaria completamente o quarto e a voz macia da garota,
que sempre parecia sussurrar, invadiria seus ouvidos mais uma vez, então não se
preocupou com o fato de que toda a magia do momento, toda a calma, todas as
outras coisas iriam acabar. Ele não se preocuparia nem se o mundo estivesse
acabando.
- Você vai estar sempre aqui? – foi o que os
lábios rosados e rachados perguntaram com um tanto de preocupação e medo que o
garoto sempre soube que estiveram ali, mas nunca achou que fossem ser confessados.
Mais uma vez deixou que o sorriso curvasse seus lábios um pouco para cima. Não
mostrou os dentes, quase nunca fazia isso. Sentiu vontade de congelar aquele
momento, aquele cenário, aquela expressão de medo que ainda estava no rosto amassado
da garota, aquele cheiro de manhã ensolarada*. Queria que aquilo tudo fosse pra
sempre. Aquela conexão, aqueles olhos risonhos, aqueles corpos nus sobre a cama
desarrumada. Até sentiu vontade de rir. Só rir. Sem motivo, sem graça. Apenas
abrir a boca e soltar uma risada, porque sabia que nenhum momento podia ser
congelado, nem ficar preso no tempo como desejava que fosse possível, mas sabia
que eles dois eram para sempre. Acontecesse o que acontecesse.
Ainda não queria estragar nada com sua voz
rouca, estranha até mesmo para ele, mas, ainda que houvesse aquela conexão que
tornava desnecessário o uso das palavras, sabia que tinha que responder a
pergunta. Sabia que só veria aqueles olhos azuis sorrindo mais uma vez se
respondesse a pergunta que ainda passeava calmamente pelo quarto, batendo nas
paredes e nunca saindo pela janela. A luz do sol agora iluminava os cabelos
desgrenhados da garota, fazendo com que eles brilhassem muito mais do que
brilhavam com a simples luz da lâmpada que estava acesa antes de os dois
dormirem. Respirou fundo mais uma vez, ainda olhando fixamente dentro daqueles
olhos aflitos que ainda poderiam desvendar todos os segredos que ele não queria
descobrir – simplesmente por não sentir necessidade, não por medo. E então
abriu a boca, deixando que uma simples palavra saísse por seus lábios feios e
ressecados:
- Sempre.
Os olhos azuis suspiraram aliviados,
sorrindo e se aproximando lentamente dos seus olhos castanhos. A garota envolveu
seu pescoço com os braços magros, deixando que seu corpo suado e grudento se
unisse ao corpo suado e grudento do rapaz que ainda estava sentado na beirada
da cama, como se tivesse acabado de acordar e olhasse para o chão fixamente,
procurando um pequeno objeto perdido no chão. A luz do sol iluminava todo o
quarto, finalmente, mas ele não sentiu a magia do momento indo embora.
Deixou que os seus lábios feios e ressecados
se unissem aos lábios rosados e rachados da garota, como se, por mais que
estivessem conectados por coração e alma, ainda precisassem estar conectados
através dos corpos, como se fossem apenas amantes numa manhã ensolarada em cima
de uma cama desarrumada. Como se fossem apenas eles dois para sempre.
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Outubro de 2010
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Outubro de 2010
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