“Eu vou morrer logo.
Mas os últimos vinte
minutos foram os melhores anos da minha vida.”
Golias – Neil Gaiman
Meus olhos se abrem, os cílios grudados uns
nos outros, a visão embaçada, me impedindo de ver o que tenho em minha frente.
A luz do sol entra timidamente no quarto, iluminando velhos e novos objetos com
seu brilho dourado. A janela está fechada, o vidro azulado dando um reflexo
estranho para as coisas. Tudo parece frio, como se estivéssemos congelados no
tempo, mortos. Aperto os olhos, coçando vagarosamente as pálpebras oleosas.
Tornando a abri-los, posso te distinguir no meio de todas as outras formas. Você
dorme, a expressão tranquila como sempre. Vulnerável, permito-me observar seu
peito subindo e descendo, permito-me entrelaçar meus dedos em seus pelos... e
me aproximo. Vejo todos os quilômetros que nos separavam tornando-se nada
enquanto meus olhos se fecham e se abrem de novo.
Dessa vez, eles encontram os seus, tão
castanhos como eu me lembrava. Posso ver todos os traçados de suas íris, embora
deseje ver todos os traçados de sua alma. Permaneço calada, ouvindo sua
respiração e a sentindo contra minha bochecha.
Você
vem ao meu encontro, um sorriso bobo nos lábios, e me abraça forte, beijando meu
pescoço. Temos todo o tempo do mundo. Podemos ser tão felizes quando sempre
sonhei. Sinto seu cheiro, enquanto as outras pessoas no aeroporto sentem o peso
de suas malas, cheias de lembranças e saudades, como já te vi fazer outras
vezes.
Seu braço se aperta em minha cintura e eu
sorrio, sem mostrar os dentes; sorrio, mais com os olhos que com a boca, e
espero que você consiga lê-los. Minha mão sobe e desce junto com seu peito...
Deitamos
na cama, finalmente, depois de todos os problemas da noite, e posso sentir seu
corpo junto ao meu. Meu cabelo cheira e cigarro e você cheira a bebida, mas não
nos importamos. Estamos sozinhos em um apartamento pequeno, longe de casa, mas
temos um ao outro. De todas as formas. Eu me viro para você e encontro seus
olhos, brilhantes sob a luz fraca da rua que invade o cômodo.
... E você me retribui o sorriso, chegando
mais perto e pressionando minha cabeça contra seu coração. Posso ouvi-lo dizer que
sentiu minha falta, enquanto bate rápido contra seu peito.
Sinto-me tão segura.
Como se nada pudesse nos separar. Nem mesmo
todos os quilômetros, nem mesmo todas as festas e bebidas e garotas e
problemas.
Mas eles podem...
Meus olhos ardem e meu coração se fecha mais
uma vez, como sempre se fecha ao te ver partir. Você me deixa sozinha, visão
embaçada, tocando o lado ainda quente da cama. Aperto os olhos, ouvindo as
batidas do meu próprio coração.
Dessa vez não te peço para que não me
esqueça, mas para que pelo menos se
lembre de mim.
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