quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Mr Sandman



“People think dreams aren’t real just because they aren’t made of matter, of particles.
Dreams are real.
But they are made of viewpoints, of images, of memories and puns and lost hopes.”
Preludes & Nocturnes, Sandman

  
Seu suspiro soou cansado e triste, quase como um murmúrio. Seus pés afundavam no chão macio, revestido de sonhos perdidos. Seus olhos estavam fixos no chão, e observavam cada imagem como se fosse a primeira vez que as captava. O cheiro de algodão-doce ficava mais forte durante os sonhos infantis, enquanto nos da adolescência, o que prevalecia era o de sangue. E o dele.

O cheiro dele era exatamente como ela se lembrava: perfume adocicado misturado com cheiro de roupa limpa. Seu coração batia mais forte toda vez que seus olhos escuros e cílios longos apareciam, timidamente ou não, sobre seus pés.

A garota vagou por tanto tempo pelo mundo dos sonhos que já tinha se esquecido como sair de lá. Sentia o estômago embrulhado e a cabeça girando, mas não parava de andar. Queria chegar a alguma coisa. Sabia que estava lá... Sempre esteve.

Não teve mais sonhos quando cresceu. A fase adulta era representada por nada mais que uma sala branca. Seus sapatos escuros contrastavam com o chão branco de sua maturidade. Ela queria que houvesse algum sonho, que não fosse só aquilo. Só o nada. O fim de tudo.

“Tem alguém aí? Alguma coisa?” perguntou baixo, olhando para o chão. Repetiu as perguntas mais vezes, mas não obteve resposta alguma.

Estava quase decidida a acordar quando um puxão na perna a fez abrir os olhos. Desviou o olhar para o chão e encontrou dois olhos escuros, delineados por longos cílios negros. Ele sorria e o brilho em seus olhos lhe disse que aquilo era verdade. O coração da garota batia com força contra o peito quando a mão dele saiu do chão, estendida para ela.

“Vem”, ele sibilou. Ela ajoelhou-se no chão, olhando para aqueles olhos escuros que tinham roubado seus sonhos. Aproximou sua mão da dele lentamente, sentindo-se apreensiva. “Vem. Por favor.”

Ela segurou sua mão. E soube que aquilo não era um sonho, que era seu mundo, mais verdadeiro que qualquer realidade que já tinha vivido. Ele a puxou para baixo, para o verdadeiro mundo de seus sonhos; o mundo abaixo de seus pés.

O chão era sólido, sem nenhuma projeção ou sonho perdido. Estava dentro de uma apartamento com vista para o mar. Dois gatos brincavam no tapete da sala de estar.

“O que é isso?”, ela perguntou, seus olhos castanhos arregalados.

“Sinto muito pelos seus sonhos dos últimos anos. Eu tive que pegá-los para construir os nossos.”

“Nossos?”

“Esse é o meu mundo. Dentro do seu” – ele disse e um sorriso bobo brincou em seus lábios. Aproximou-se da garota, esperando um gesto ou qualquer outra coisa que dissesse que poderia tocá-la. Nada aconteceu.

“Eu não entendo”, ela disse, o cenho franzido, coração batendo na garganta. Seus olhos continuavam com o mesmo brilho de sempre, como um garoto que se esqueceu de crescer. Seu garoto. Seu garoto que a abandonou por aventuras que nunca viveu e nem se importava tanto assim em viver.

Os gatos brincavam no tapete da sala e o mar cintilava diante de seus olhos enquanto o garoto lhe mostrava os sonhos que haviam se tornado reais. Uma gaiola de hamsters. Uma biblioteca no porão. Uma cama grande e confortável. Ninguém no mundo a não ser os dois.

“Eu senti sua falta” ela disse, sentindo os olhos arderem a cada palavra que pronunciava e sorriso que recebia como resposta. Finalmente o abraçou, sentiu seu corpo contra o dela. “Esperei tanto tempo para sentir isso de novo” soluçou, escondendo a cabeça na curva quente de seu pescoço. Ele acariciou sua cintura.

“Eu estava só esperando por você.”

“E eu por você.”

“Só confundimos os mundos.” Silêncio.

“Não vai embora de novo, por favor” pediu entre soluços, apertando-o com força contra si.

Ele não disse nada. Ao invés disso, puxou-a pela mão até o grande quarto que tinha construído para os dois e deitou-se na cama, forçando-a a fazer o mesmo. Beijou sua testa, sua bochecha, seus lábios. E seu toque queimava como se fossem brasa. As lágrimas corriam livremente pelo rosto pálido da garota enquanto ele se limitava a sorrir e tirar pacientemente cada peça de roupa que ela usava.

Esse mundo era o que ela havia sonhado, e era nesse mundo que ela gostaria de viver. Ali, com ele, para sempre. Como eles sonharam um dia, como podia ser realidade agora. E ela podia escolher. O senhor dos sonhos a deu a opção.

Um sorriso curvou seus lábios para cima enquanto ela apertava o seu garoto contra ela, sentindo seu cheiro invadir suas narinas, seu calor se misturar com o seu, seus corpos se tornarem um só. E então seus olhos se fecharam e ela dormiu. E nunca mais acordou.

Não no nosso mundo.

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