O
vento batia forte em seu rosto enquanto a garota corria descalça pela areia
suja. Seus pés doíam devido aos tropeços repentinos. A respiração ofegante
permitia que a areia entrasse em sua boca, junto com um gosto amargo que não
sabia decifrar. Atrás de si, uma luz amarelada cada vez mais próxima. Não sabia
de onde vinha, mas sabia que tinha que escapar... Escapar... Como a areia fina entre
os dedos esbranquiçados. Como a vida, breve, entre os suspiros desesperados
de...
O homem tossiu alto, sua tosse seca ecoando
pelo quarto e morrendo nos ouvidos despreparados da garota debruçada na cama.
Ela acordou assustada, como se a tosse fosse o último susto de um sonho ruim.
Esfregou os olhos numa tentativa de enxergar melhor o que se passava e percebeu
que já havia anoitecido.
As horas passavam rápido naqueles tempos,
como se o mundo girasse em um ritmo diferente. Perguntou-se se tudo aquilo era
sonho ou realidade, enquanto se levantava para olhar pela janela. Nada viu além
do brilho pálido da lua iluminando as árvores. Suspirou. Seu corpo doía, os pés
estalando de forma incômoda enquanto ela voltava em passos curtos para a
cadeira ao lado da cama. Olhou brevemente para o homem deitado, ainda dormindo,
como se todas as preocupações recentes fossem apenas assuntos sem importância.
O rosto marcado pela idade lhe parecia tão
calmo que ela se obrigou a observá-lo por mais alguns instantes, sem se
importar com o quanto forçava a visão para fazê-lo. Suspirou novamente, mas
dessa vez trazia no suspiro um ar cansado, mas inspirado, quase sonhador.
Gostava da imagem do homem deitado na cama, face calma, preso nos sonhos que
talvez lhe dessem minutos de paz num mundo diferente daquele. Queria que
houvesse uma chance de salva-lo, fosse como fosse.
Sentou-se na cadeira, demorando a achar uma
posição confortável que a permitisse olhá-lo e encostar-se à cama ao mesmo
tempo. Antes que pudesse fechar os olhos para voltar a dormir, uma tosse forte,
como aquela que a acordara, invadiu o quarto. Olhou preocupada para o homem,
somente para encontrá-lo a encarando com seus olhos cinzentos.
“Não sabia que estava acordado”, disse. A
voz baixa soava rouca. “Como você está se sentindo?”
“Isso é irrelevante”, respondeu o homem, a
voz grave, severa, como sempre. O olhar parecia mais pesado que antes, como se
tivesse acordado de um pesadelo e determinado a fazer algo a respeito.
Respirava com dificuldade, puxando o ar com força e não demorando a devolvê-lo.
Levou a mão até a mão da garota e a deixou lá. Os dois se olhavam, ambos presos
em realidades diferentes, mas dividindo as mesmas angústias.
A garota sentia o coração pesar no peito,
batendo quase que culpado. Seus olhos se apertavam para enxergar melhor
enquanto o homem desviava o rosto para a janela. A respiração cada vez mais
difícil denunciava os pulmões cansados. Fechou os olhos por um breve instante e
ao abri-los novamente, virou-se bruscamente para a menina.
“Está ouvindo?” perguntou, a excitação quase
disfarçando por completo a falta de ar. “Ele está vindo”. Seus olhos brilhavam
no escuro do quarto e a menina não soube interpretar o que queriam lhe dizer.
Optou pela angústia, ansiedade. Chegou a abrir a boca para perguntar sobre o
que ele estava falando. “Ele está vindo”
“Quem?”
“O meu trem, Susie” o homem respondeu
vagamente, apertando a mão da garota com força. Olhava fixamente para a parede,
como se estivesse esperando por um som a mais. “Ela está vindo me buscar”
“Pai, do que você está falando?” estava
nitidamente preocupada, quase tomando coragem de puxar o rosto enrugado do
homem em sua direção e obrigá-lo a dizer algo que fizesse sentido.
“Susie... Olhe...” levantou o dedo com
dificuldade, apontando para a janela. Uma luz amarelada surgia ao longe. “Ela
está vindo” fechou os olhos e pôde ver nitidamente a estação antiga, presa no
tempo de sua memória, e pessoas andando apressadamente pela plataforma
estreita. No meio da multidão, uma mulher esperava por ele. Parecia preocupada,
mas disfarçava bem enquanto sorria e acenava de batom vermelho e vestido
acinturado. Trazia consigo um brilho inocente no olhar.
Seu coração batia tão rápido que seus pés
quase não o acompanhavam. O trem chegou junto com ele, o barulho dos trilhos
atrapalhando o cumprimento dos dois. Ao fim, bastou que se olhassem por um
instante. Ela subiu os degraus depressa, a mala na mão parecendo tão leve
quanto seu coração de andorinha, batendo forte contra o peito na esperança de
voltar a vê-lo. Virou-se para se despedir e encontrou os olhos cinzentos do
homem, marejados, e seus lábios, quentes, esperando pela despedida apropriada.
Abriu os olhos apenas para encontrar mais
uma vez o quarto, antes escuro, iluminado pela luz amarelada. A garota ao seu
lado – que nunca deixaria de ser uma garota aos seus olhos - levantava o rosto
na direção da janela, a mesma expressão curiosa da mãe, o mesmo olhar confuso.
O trem apitou e ele pôde sentir mais uma vez seu perfume antes de olhar
diretamente para a luz que o levaria de volta para ela.
O barulho se afastou aos poucos e a garota,
perplexa, ainda encarava a janela. Passou a mão pelos cabelos oleosos e prendeu
uma mecha atrás da orelha. Começou a falar enquanto se virava para o pai: “Como
isso é possi... Pai?”
Os olhos sem brilho encaravam o teto.
Lágrimas caíram logo em seguida em seu rosto impassível, mãos tocaram seus
braços, seu peito e, por fim, seus olhos. As pálpebras foram fechadas com delicadeza...
O barulho não fazia mais diferença, e a vida seguiu seu curso; trem sem
paradas.
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apenas uma visão diferente do curta dele; obrigada pela ideia, pelos sonhos e pela esperança de uma coisa melhor pra nós dois. estamos aqui e vivemos, superamos nossos medos e mudamos a cada dia. espero (e sempre esperei) fazer parte da tua vida tanto quanto você faz da minha... espero que possamos pegar esse trem juntos.
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