A luz do sol quase não iluminava mais a mesa
no canto do quarto, decorada discretamente por lâminas, seu brilho prateado refletido
levemente nos olhos da garota. Tinha dividido todas por tamanho e marca, pois
era assim que gostava que ficassem. Lâminas pequenas nunca se misturavam com as
grandes, grossas nunca com as finas, de barbeador nunca com as de estilete.
Respirava profundamente, os dedos finos ensaiando o primeiro toque nas amigas
de longa data.
Por muito tempo havia esquecido sua pequena
coleção, guardada sob as roupas na gaveta que ninguém abria. Os dias estavam
mais quentes e as pessoas mais desconfiadas e, afinal, era desconfortável andar
sempre com roupas de frio. Queria sentir o vento batendo em seus braços, em
suas pernas, queria se sentir parte daquilo tudo, ter uma vida sem segredos, e
não se importar com marcas avermelhadas embaixo de mangas grossas.
Os dias estavam mais coloridos, também,
agora que os problemas tinham dado uma trégua, agora que seu cabelo e maquiagem
pretos nem combinavam tanto assim com seu humor, meio de bem com a vida, meio
esquecida do mundo. Embora se sentisse meio diferente, desanimada, não se
permitia chorar e nem pensar por muito tempo. Só sobrevivia, ali no meio das
pessoas, sem querer pensar e nem agir diferente. Não queria mais ser ela mesma,
e por isso, não era mais nada. Era apenas uma garota com
cicatrizes espalhadas pelo corpo. Não respondia quando perguntavam, dizia que
era uma longa história, e vivia como se elas não estivessem ali, embora vez ou
outra se pegasse analisando os relevos estranhos nos braços.
Tinha até vergonha às vezes, coisa que nunca
sentira antes, quando resolveu que não esconderia mais nada. Vergonha por
parecer fútil aos olhos dos outros, como se as marcas fossem um pedido
desesperado de atenção, coisa que nunca foram. Eram apenas a forma que
conseguiu de marcar em si mesma seus problemas e frustrações, transportando-os
de dentro pra fora. Melhor sentir na pele que no peito. Melhor sangrar que
perder a cabeça de vez. Alívio.
Os dedos, a centímetros das lâminas,
tremiam. Sua respiração, ainda profunda, não denunciava o nervosismo que
sentia. Seu coração batia forte contra o peito, como se pedisse aos céus que
ela tomasse logo a coragem para tocá-las. Pouco tempo depois a ponta de seu
dedo tocou a primeira lâmina e um arrepio passou rapidamente por sua espinha.
Um sorriso se formou num dos cantos de seus lábios e seus olhos se encheram se
lágrimas. Céus, como sentia falta daquilo!
Sentia falta de quando, no chão do banheiro,
seus dedos trêmulos pressionavam com força aquela coisinha pequena, prateada,
fácil de quebrar, fácil de esconder, contra a pele e com rapidez faziam um
pequeno ou grande corte, dependendo do humor, dependendo da situação e da
necessidade. Sentia falta de olhar pra dentro do corte, vê-lo se encher aos
poucos daquele sangue tão vermelho, tão puro... Sentia falta de levantar ou
abaixar o braço para controlar seu curso; de vê-lo pingar no chão; de tampar a
ferida com uma blusa velha. A sensação que tinha agora, ao tocar naquilo, era
tão angustiante quanto foi na primeira vez.
Já sabia tudo o que podia fazer, já tinha
testado seus limites e desistido de ultrapassá-los. Nunca quis dar adeus à dor,
afinal. Queria senti-la o máximo que podia e acabar com parte dela abrindo os
pulsos e braços e ombros e coxas e canelas. Precisava daquilo, mais do que da
paz, da afeição, da honestidade dos outros. Precisava daquilo e só daquilo. Era
o que queria sentir antes de morrer. Pena que o paradoxo não a permitia ir
além.
Sentada ali, na frente da mesa, se sentia
tão pequena quanto sempre foi. O coração batia forte contra o peito, mas
parecia oco, leve demais para fazer alguma diferença. Sentia-se como um
pássaro, ínfimo, inútil, facilmente substituível por qualquer outro com o mesmo
canto. Pensava que seria diferente a sensação de encarar aquilo tudo de novo.
Pensava que ao tocar aquelas lâminas sentiria saudades, mas não vontade de
voltar ao passado e sentir tudo de novo... Pensava que sentiria pena de si
mesma, por ter sido tão miserável, e sentiria orgulho de ser como era agora, livre
de medos e angústias. Não sabia se devia se sentir decepcionada ou indiferente,
afinal, era o que era agora: indiferente a todo e qualquer sentimento além do
orgulho.
Seus olhos se encheram de lágrimas e ela
levantou a cabeça para impedi-las de cair. Não queria admitir a derrota e nem
parecer fraca, embora ninguém pudesse vê-la. Não queria admitir para si mesma,
isso sim. Queria continuar fingindo que era forte, que conseguiria sem ajuda,
que não precisava de ninguém, como nunca precisou; que poderia muito bem se
virar sozinha, sendo com lâminas ou com comprimidos ou com a porra da
indiferença que resolvia todo problema ou frescura. Pra que depender dos
outros, afinal? Ninguém nunca servira para nada.
O medo a impediu de abrir os pulsos dessa
vez. Não o medo da morte, mas o do julgamento errôneo das pessoas ignorantes
que veriam o resultado tempos depois. Queria cobrir as cicatrizes, maquiá-las,
tatuá-las, escondê-las dos olhos estúpidos que a veriam. Eram dela, eram o
segredo que guardou para si mesma e embora o mundo soubesse, ainda era só dela.
Largou a pequena lâmina sobre a mesa, sem se
importar se estava perto ou não das lâminas grandes. Olhou para seu próprio
corpo, para as próprias marcas espalhadas por ele. Acariciou lentamente cada
cicatriz, grande ou não, e lembrou-se de cada uma delas. Eram dela e de
mais ninguém. Ninguém nunca saberia o que elas tinham para dizer e nem o que
elas significavam. Eram só dela.
A luz do sol já tinha se extinguido
totalmente do quarto e uma luz pálida, estranha, começava a iluminar o piso
escuro. Já não era possível ver a mesa decorada pelas lâminas de diversos
tamanhos e nem a caixa onde ficavam guardadas. Visível mesmo, apenas uma
garota, cabelos cacheados cobrindo o rosto, acariciando os próprios pulsos,
lágrimas caindo sobre suas coxas.
As cicatrizes contavam uma só história, como
se cantassem calmamente em seu ouvido, consolando seu choro silencioso.
Ela não precisava de ninguém, pois tinha a
elas.
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