quinta-feira, 31 de outubro de 2013

There are wounds that are not meant to heal at all

A luz do sol quase não iluminava mais a mesa no canto do quarto, decorada discretamente por lâminas, seu brilho prateado refletido levemente nos olhos da garota. Tinha dividido todas por tamanho e marca, pois era assim que gostava que ficassem. Lâminas pequenas nunca se misturavam com as grandes, grossas nunca com as finas, de barbeador nunca com as de estilete. Respirava profundamente, os dedos finos ensaiando o primeiro toque nas amigas de longa data.

Por muito tempo havia esquecido sua pequena coleção, guardada sob as roupas na gaveta que ninguém abria. Os dias estavam mais quentes e as pessoas mais desconfiadas e, afinal, era desconfortável andar sempre com roupas de frio. Queria sentir o vento batendo em seus braços, em suas pernas, queria se sentir parte daquilo tudo, ter uma vida sem segredos, e não se importar com marcas avermelhadas embaixo de mangas grossas.

Os dias estavam mais coloridos, também, agora que os problemas tinham dado uma trégua, agora que seu cabelo e maquiagem pretos nem combinavam tanto assim com seu humor, meio de bem com a vida, meio esquecida do mundo. Embora se sentisse meio diferente, desanimada, não se permitia chorar e nem pensar por muito tempo. Só sobrevivia, ali no meio das pessoas, sem querer pensar e nem agir diferente. Não queria mais ser ela mesma, e por isso, não era mais nada. Era apenas uma garota com cicatrizes espalhadas pelo corpo. Não respondia quando perguntavam, dizia que era uma longa história, e vivia como se elas não estivessem ali, embora vez ou outra se pegasse analisando os relevos estranhos nos braços.

Tinha até vergonha às vezes, coisa que nunca sentira antes, quando resolveu que não esconderia mais nada. Vergonha por parecer fútil aos olhos dos outros, como se as marcas fossem um pedido desesperado de atenção, coisa que nunca foram. Eram apenas a forma que conseguiu de marcar em si mesma seus problemas e frustrações, transportando-os de dentro pra fora. Melhor sentir na pele que no peito. Melhor sangrar que perder a cabeça de vez. Alívio.

Os dedos, a centímetros das lâminas, tremiam. Sua respiração, ainda profunda, não denunciava o nervosismo que sentia. Seu coração batia forte contra o peito, como se pedisse aos céus que ela tomasse logo a coragem para tocá-las. Pouco tempo depois a ponta de seu dedo tocou a primeira lâmina e um arrepio passou rapidamente por sua espinha. Um sorriso se formou num dos cantos de seus lábios e seus olhos se encheram se lágrimas. Céus, como sentia falta daquilo!

Sentia falta de quando, no chão do banheiro, seus dedos trêmulos pressionavam com força aquela coisinha pequena, prateada, fácil de quebrar, fácil de esconder, contra a pele e com rapidez faziam um pequeno ou grande corte, dependendo do humor, dependendo da situação e da necessidade. Sentia falta de olhar pra dentro do corte, vê-lo se encher aos poucos daquele sangue tão vermelho, tão puro... Sentia falta de levantar ou abaixar o braço para controlar seu curso; de vê-lo pingar no chão; de tampar a ferida com uma blusa velha. A sensação que tinha agora, ao tocar naquilo, era tão angustiante quanto foi na primeira vez.

Já sabia tudo o que podia fazer, já tinha testado seus limites e desistido de ultrapassá-los. Nunca quis dar adeus à dor, afinal. Queria senti-la o máximo que podia e acabar com parte dela abrindo os pulsos e braços e ombros e coxas e canelas. Precisava daquilo, mais do que da paz, da afeição, da honestidade dos outros. Precisava daquilo e só daquilo. Era o que queria sentir antes de morrer. Pena que o paradoxo não a permitia ir além.

Sentada ali, na frente da mesa, se sentia tão pequena quanto sempre foi. O coração batia forte contra o peito, mas parecia oco, leve demais para fazer alguma diferença. Sentia-se como um pássaro, ínfimo, inútil, facilmente substituível por qualquer outro com o mesmo canto. Pensava que seria diferente a sensação de encarar aquilo tudo de novo. Pensava que ao tocar aquelas lâminas sentiria saudades, mas não vontade de voltar ao passado e sentir tudo de novo... Pensava que sentiria pena de si mesma, por ter sido tão miserável, e sentiria orgulho de ser como era agora, livre de medos e angústias. Não sabia se devia se sentir decepcionada ou indiferente, afinal, era o que era agora: indiferente a todo e qualquer sentimento além do orgulho.

Seus olhos se encheram de lágrimas e ela levantou a cabeça para impedi-las de cair. Não queria admitir a derrota e nem parecer fraca, embora ninguém pudesse vê-la. Não queria admitir para si mesma, isso sim. Queria continuar fingindo que era forte, que conseguiria sem ajuda, que não precisava de ninguém, como nunca precisou; que poderia muito bem se virar sozinha, sendo com lâminas ou com comprimidos ou com a porra da indiferença que resolvia todo problema ou frescura. Pra que depender dos outros, afinal? Ninguém nunca servira para nada.

O medo a impediu de abrir os pulsos dessa vez. Não o medo da morte, mas o do julgamento errôneo das pessoas ignorantes que veriam o resultado tempos depois. Queria cobrir as cicatrizes, maquiá-las, tatuá-las, escondê-las dos olhos estúpidos que a veriam. Eram dela, eram o segredo que guardou para si mesma e embora o mundo soubesse, ainda era só dela.

Largou a pequena lâmina sobre a mesa, sem se importar se estava perto ou não das lâminas grandes. Olhou para seu próprio corpo, para as próprias marcas espalhadas por ele. Acariciou lentamente cada cicatriz, grande ou não, e lembrou-se de cada uma delas. Eram dela e de mais ninguém. Ninguém nunca saberia o que elas tinham para dizer e nem o que elas significavam. Eram só dela.

A luz do sol já tinha se extinguido totalmente do quarto e uma luz pálida, estranha, começava a iluminar o piso escuro. Já não era possível ver a mesa decorada pelas lâminas de diversos tamanhos e nem a caixa onde ficavam guardadas. Visível mesmo, apenas uma garota, cabelos cacheados cobrindo o rosto, acariciando os próprios pulsos, lágrimas caindo sobre suas coxas.

As cicatrizes contavam uma só história, como se cantassem calmamente em seu ouvido, consolando seu choro silencioso.


Ela não precisava de ninguém, pois tinha a elas. 

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