segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Dorian

Os olhos marejados encaravam as nuvens escuras lá fora, enquanto o vento sussurrava palavras tristes em seus ouvidos. Não trazia muito peso nos ombros e pensava consigo mesma nas vantagens de ter deixado pra trás a vida, como um casulo, grudada num muro qualquer. O vento, cada vez mais frio, lhe dizia o quanto suas marcas pareciam amenizadas, o quanto as linhas da testa eram suaves e a vermelhidão das bochechas não denunciavam nenhum sofrimento profundo. Está tudo na sua alma, era o que lhe dizia. Você é Dorian e sua alma o retrato.
E o que é você, se não o vento, e apenas ele?, ela perguntava, as lágrimas molhando o lençol sujo, borrando a maquiagem. Em delírio, via a si mesma escrita por Wilde.

A noite chegava e com ela o silêncio da cidade. Assemelhava-se ao silêncio dos mortos, para ela, semimorta na cama. O vento tinha cessado, mas dentro dela a tempestade ainda se formava.


Pendura, se for preciso, minha alma na parede!

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