Os olhos marejados encaravam as nuvens
escuras lá fora, enquanto o vento sussurrava palavras tristes em seus ouvidos.
Não trazia muito peso nos ombros e pensava consigo mesma nas vantagens de ter
deixado pra trás a vida, como um casulo, grudada num muro qualquer. O vento,
cada vez mais frio, lhe dizia o quanto suas marcas pareciam amenizadas, o
quanto as linhas da testa eram suaves e a vermelhidão das bochechas não
denunciavam nenhum sofrimento profundo. Está tudo na sua alma, era o que lhe
dizia. Você é Dorian e sua alma o retrato.
E o que é você, se não o vento, e apenas
ele?, ela perguntava, as lágrimas molhando o lençol sujo, borrando a maquiagem.
Em delírio, via a si mesma escrita por Wilde.
A noite chegava e com ela o silêncio da
cidade. Assemelhava-se ao silêncio dos mortos, para ela, semimorta na cama. O
vento tinha cessado, mas dentro dela a tempestade ainda se formava.
Pendura,
se for preciso, minha alma na parede!
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