domingo, 24 de novembro de 2013

Volto a dois mil e seis. Pezinhos encardidos passeando pelo assoalho, tropeçando nas quinas dos móveis. Volto ao quarto bagunçado, meio do avesso, paredes cor-de-rosa decoradas com fotos de pessoas que ainda vivem. Triste, não é? Idolatrar quem vive. Quem ainda tem uma casa, uma cama, um cachorro pra cuidar e uma vida pra chamar de sua. Quem não deixou saudades e nem uma lápide pra enfeitar. Parece fútil idolatrar quem ainda dá pra alcançar.

Meu cabelo ainda arma na chuva, ainda acorda bagunçado e eu ainda nem me importo com os cachos dourados que se desfazem durante a noite. Ainda nem me importo com as olheiras, com as espinhas. Nem me importo se meus peitos estão crescendo e tenho que usar sutiã... Nem me importo com muita coisa além daquelas pessoas na parede, todas com olhares vazios na minha direção.

Volto àqueles sonhos de tardes chuvosas, onde as pessoas na parede na verdade podiam me ver e eram elas que me idolatravam. Os pezinhos, ainda encardidos, estão parados. Sem dança. Só o coração que bate forte junto com a batida da música sem significado... Tão sem significado que significava tudo pra mim, que não tinha nada.

Saudade daqueles dentes separados, meio amarelos; daquele cabelo bagunçado de cor indefinida; daquelas olheiras escuras; daquelas pernas finas sem cicatrizes, dos pulsos limpos, sem relevos. Saudade daquela garota meio desengonçada, o patinho feio da turma, que ainda nem sabia que podia crescer...

Parece tão idiota olhar pra trás e ver que tudo é na verdade enfeite. Mas me dói pensar que eu não sou mais aquela garota de pezinhos encardidos... que meus pés cresceram, comecei a usar minhas máscaras e hoje sou só uma forma estranha, uma silhueta estranha atrás do vidro, sem vida, mas que ainda vive...

Morta, porém sonhando? 

Um comentário:

  1. É uma infelicidade ter que revestir-se com mil e uma máscaras para poder encarar a realidade que se segue depois que perdemos a inocência. Uma triste verdade.

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