Volto a dois mil e seis. Pezinhos encardidos
passeando pelo assoalho, tropeçando nas quinas dos móveis. Volto ao quarto
bagunçado, meio do avesso, paredes cor-de-rosa decoradas com fotos de pessoas
que ainda vivem. Triste, não é? Idolatrar quem vive. Quem ainda tem uma casa,
uma cama, um cachorro pra cuidar e uma vida pra chamar de sua. Quem não deixou
saudades e nem uma lápide pra enfeitar. Parece fútil idolatrar quem ainda dá
pra alcançar.
Meu cabelo ainda arma na chuva, ainda acorda
bagunçado e eu ainda nem me importo com os cachos dourados que se desfazem
durante a noite. Ainda nem me importo com as olheiras, com as espinhas. Nem me
importo se meus peitos estão crescendo e tenho que usar sutiã... Nem me importo
com muita coisa além daquelas pessoas na parede, todas com olhares vazios na
minha direção.
Volto àqueles sonhos de tardes chuvosas,
onde as pessoas na parede na verdade podiam me ver e eram elas que me
idolatravam. Os pezinhos, ainda encardidos, estão parados. Sem dança. Só o coração
que bate forte junto com a batida da música sem significado... Tão sem
significado que significava tudo pra mim, que não tinha nada.
Saudade daqueles dentes separados, meio
amarelos; daquele cabelo bagunçado de cor indefinida; daquelas olheiras escuras;
daquelas pernas finas sem cicatrizes, dos pulsos limpos, sem relevos. Saudade
daquela garota meio desengonçada, o patinho feio da turma, que ainda nem sabia
que podia crescer...
Parece tão idiota olhar pra trás e ver que
tudo é na verdade enfeite. Mas me dói pensar que eu não sou mais aquela garota
de pezinhos encardidos... que meus pés cresceram, comecei a usar minhas
máscaras e hoje sou só uma forma estranha, uma silhueta estranha atrás do
vidro, sem vida, mas que ainda vive...
Morta, porém sonhando?
É uma infelicidade ter que revestir-se com mil e uma máscaras para poder encarar a realidade que se segue depois que perdemos a inocência. Uma triste verdade.
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