Os
dedos levemente bronzeados seguravam firmemente a caneta contra o papel fino da
agenda desgastada enquanto a garota, sentada na superfície de mármore, olhava
para o chão. Queria chorar. Queria se jogar no chão e chorar até morrer, mas
sentia os minutos passarem sem que nada disso acontecesse – nem a coragem, nem
as lágrimas. Sentia algo crescendo em sua garganta, como uma criaturinha pronta
para rasgar-lhe de dentro pra fora, mas nada mudava seu estado de espírito.
Sentada ali, esperava que qualquer coisa acontecesse.
Era
uma daquelas tardes insuportavelmente ensolaradas, onde tudo parecia muito
quente e desgastante e a garota sentia o suor escorrendo pelas laterais de seu
rosto, mas pouco se importava. Na verdade, há pouco rabiscara no caderno o
quanto era estranho ter um corpo e ser responsável pelo mesmo quando sua alma
pairava logo acima da sua cabeça, como uma nuvem escura. E era exatamente assim
que se sentia: observando seu corpo de longe.
Poderia
passar o dia inteiro sentada na lápide do pai, como fazia algumas vezes. Sentia
que pelo menos ali, na cidade dos mortos, tinha alguma companhia. As palavras
para ele eram poucas, apenas cumprimentos comuns, como na época em que ele é quem ia visitá-la. Procurava, no entanto,
não falar nada além do rotineiro para não se lembrar de todos os erros e voltar
a se arrepender.
O
sol parecia cada vez mais forte e ela, finalmente, sentiu sua alma voltar ao
corpo. Olhou ao seu redor e foi então que o viu. Como um espectro, ele a
observava por entre os anjos de expressões vazias. Seu coração
parou por um segundo antes que um calafrio percorresse sua espinha. Os olhos
fixos naquele rosto estranho procuravam algum indício de que ele era de
verdade. Algo lhe dizia para não desviar o olhar.
Era
um rapaz moreno, feições duras e um olhar tão expressivo quanto os de algumas
esculturas que o cercavam. Transmitiam angústia, enquanto seus lábios,
comprimidos numa linha fina, lhe davam uma aparência maligna. Seus cabelos compridos e negros balançavam levemente como se os mortos assoprassem perto de seu rosto, e a garota sentiu o coração bater mais forte contra o peito quando ele desviou o
olhar do dela.
Sentia
vontade de levantar e correr, mas sabia que não queria fugir dele. Queria
passar o resto do dia encarando-o de longe, e sentia que se ela não se movesse,
ele tampouco se moveria. O tempo, assim como seu coração, parecia estar quase
parado, e quando o garoto voltou a fixar o olhar em seu rosto, ela teve a
certeza de que tinha encontrado uma companhia que escutava a melodia que o vento soprava:
I dreamed a dream in time gone by...
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