quarta-feira, 25 de abril de 2012

Undying love


Ainda era possível ser ouvido o lamento terrível dos cães, transportado pelo vento frio da noite, quando eu, sozinha, atravessei os velhos portões do cemitério da cidade. Protegida somente pela blusa de tecido fino e pelos meus próprios braços sobre os ombros, sentia o vento chicotear impiedosamente meu corpo. Sentia-me apavorada, perguntando a mim mesma se aquilo não tinha sido uma estupidez. Começava a me arrepender de ser tão teimosa, mas, ao mesmo tempo, não pretendia interromper a viagem.

Meu rosto virava-se quase que automaticamente para os lados e sem saber exatamente por que, eu procurava – e temia – por algo – ou alguém – desconhecido. Meus pés estavam cansados e doloridos e eu sentia uma enorme vontade de descansar. Se fosse possível, o faria naquele momento. E, estava decidida a fazê-lo para sempre, logo depois que encontrasse o que procurava.

As lágrimas corriam livremente por meu rosto e, embora eu o soubesse, não as sentia. Parecia quase como um evento externo, como água caindo em mim. Eu não as sentia como minhas, mas como de alguma outra pessoa. Percebi que estava em uma estranha espécie de transe, talvez pelo nervosismo e medo de estar cercada por trevas – e pelo desconhecido. Parei aos poucos de andar e ao avistar, iluminada pela luz pálida da lua, uma grande pedra lisa, decidi me sentar.

“Que grande besteira você fez vindo aqui tão tarde da noite!”, dizia minha consciência. “Não aguentaria esperar até o amanhecer, não é? Pois agora terá de ficar no completo escuro, na companhia dos mortos, até ter condições de achar o caminho de volta”, e eu aquiescia em silêncio, abaixando cada vez mais a cabeça e aceitando minha humilhante condição de pirralha teimosa que merecia um belo castigo.

A verdade é que, exatamente por não me sentir mais como uma menina que precisa obedecer a ordens, é que decidi fazer o que era minha vontade há tempos. Eu não sabia realmente o que faria, mas sabia que precisava fazê-lo. Fui proibida, por meu próprio medo de aceitar a verdade, de visitar seu túmulo, e agora, felizmente ou não, era hora de me livrar dessas velhas correntes. Meu coração pesava no peito como se em seu lugar estivesse um pedregulho quando me levantei, decidida a cumprir minha ideia inicial.

Começara a chover há pouco e meus pés, protegidos apenas por aquelas poucas tiras de tecido vagabundo que eu ousava chamar de sapatos, afundavam na lama, tornando ainda mais difícil a caminhada. Guiada somente pela luz da lua, mal enxergava um palmo a minha frente. A chuva só piorara tudo, fazendo com que eu não fosse capaz de enxergar nem mesmo meu próprio nariz. E foi assim que me senti forçada a parar de andar pela segunda vez na noite. Permaneci daquela forma, parada, quieta como um gato, por um longo tempo, somente sentindo a chuva em minha fronte, os cabelos pingando e o barulho constante da água batendo nas folhas das árvores. Comecei a cogitar a ideia de permanecer afundando na lama até o amanhecer, quando esta estivesse em minhas canelas, mas meus pensamentos foram interrompidos abruptamente pelo barulho de um galho quebrando logo atrás de mim.

Virei o corpo naquela direção no mesmo instante, sentindo o coração bater de forma assustadoramente rápida contra o peito. O barulho se repetiu e eu tive vontade de correr e de gritar, mas como que tomada por uma força sobrenatural, permaneci, como uma estátua, no mesmo lugar.

- Quem está aí? – perguntei, gaguejando, ofegante, após longos segundos de luta interna e silêncio absoluto. Tive medo da resposta. Medo de que ela viesse acompanhada de grandes olhos vermelhos, como nas histórias que ouvia quando criança; e também medo de que ela não viesse.

Por longos minutos a segunda opção pareceu se confirmar como verdadeira, mas, de repente o barulho se repetiu e eu pude distinguir, por entre as sombras, uma silhueta masculina. “Ora pois, que fantasma mais indiscreto”, pensei, permitindo-me um pouco de humor para aquecer de leve meu pobre coração congelado pelo medo.

- Quem está aí? – repeti a pergunta, dessa vez com a voz mais firme, e apertei os olhos para enxergar melhor.

Não teria sido necessário que eu forçasse minha visão, pois no momento em que o fiz, o homem deu um grande passo para frente e a luz do luar iluminou completa e perfeitamente seu rosto pálido. Oh céus! Que sensação horrível tive ao reconhecê-lo! Era ele. Era meu amado! Meu amado, que estava a seis pés abaixo da terra!

Meus joelhos, antes já trêmulos, cederam e eu caí, como uma fruta madura, ao chão, diante de sua imagem fria e firme como um reflexo num espelho. Estava eu prostrada diante daquela aparição como um fiel o faz a um santo. E era o que ele era para mim, meu leitor, um santo: uma imagem intocável, impassível, inexistente.

Fechei os olhos com força, mas ao abri-los novamente lá estava ele, ainda me encarando. Convenci-me da veracidade de sua imagem quando, com um suspiro de grande sofrimento, ele se lançou ao chão junto a mim, pegando minhas mãos e apertando-as contra seu peito de pedra. Seu toque era macio como sempre fora, e ao sentir seu coração batendo contra a palma de minha mão trêmula, deixei que tudo o que eu sentia se transmitisse através de lágrimas e soluços desesperados, que ele tentou a todo custo cessar. Obviamente, não obteve sucesso.

- Meu amor... Minha querida, por favor, não chore. – e, tocando meu rosto com a ponta dos dedos, suspirou. – Eu estou aqui agora, meu amor.

Apertou-me contra seu peito, beijando o topo de minha cabeça como um pai beija o filho para desejar-lhe boa noite. Depois, ergueu gentilmente meu rosto e, olhando para mim com seus profundos olhos castanhos, pediu para que eu me acalmasse e parasse de chorar. Obedeci com dificuldade, demorando a conseguir me controlar. Quando o fiz, agarrei-me à sua cintura para me certificar de que ele não iria embora. Ele me olhou tristonho.

- Não se vá. Não me abandone novamente! Por favor, não me deixe sozinha. – seus olhos estavam agora umedecidos por quentes lágrimas que não tardaram a correr por seu rosto. Fiz questão de beijá-las, uma a uma, até que em meus lábios não houvesse mais nenhuma além das minhas próprias, que me lavavam o rosto.

Ele me apertou novamente contra seu peito e pressionou seus lábios nos meus. Ao abrir os olhos, pude ver os seus, brilhantes, me dizendo adeus. Depois disso de nada me lembro. Nada me lembro a não ser de ter acordado em uma das camas de minha casa, com uma criada ao meu lado, me olhando espantada. Pelo que fui informada depois, dormira durante cinco dias desde que, numa sombria manhã de sábado, fora encontrada desacordada no cemitério da cidade, diante da lápide de meu falecido noivo, abraçando meu próprio corpo.


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Abril de 2012

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