Ainda era possível ser ouvido o lamento
terrível dos cães, transportado pelo vento frio da noite, quando eu, sozinha,
atravessei os velhos portões do cemitério da cidade. Protegida somente pela
blusa de tecido fino e pelos meus próprios braços sobre os ombros, sentia o
vento chicotear impiedosamente meu corpo. Sentia-me apavorada, perguntando a
mim mesma se aquilo não tinha sido uma estupidez. Começava a me arrepender de
ser tão teimosa, mas, ao mesmo tempo, não pretendia interromper a viagem.
Meu rosto virava-se quase que
automaticamente para os lados e sem saber exatamente por que, eu procurava – e
temia – por algo – ou alguém – desconhecido. Meus pés estavam cansados e
doloridos e eu sentia uma enorme vontade de descansar. Se fosse possível, o
faria naquele momento. E, estava decidida a fazê-lo para sempre, logo depois
que encontrasse o que procurava.
As lágrimas corriam livremente por meu rosto
e, embora eu o soubesse, não as sentia. Parecia quase como um evento externo,
como água caindo em mim. Eu não as sentia como minhas, mas como de alguma outra
pessoa. Percebi que estava em uma estranha espécie de transe, talvez pelo
nervosismo e medo de estar cercada por trevas – e pelo desconhecido. Parei aos
poucos de andar e ao avistar, iluminada pela luz pálida da lua, uma grande
pedra lisa, decidi me sentar.
“Que grande besteira você fez vindo aqui tão
tarde da noite!”, dizia minha consciência. “Não aguentaria esperar até o
amanhecer, não é? Pois agora terá de ficar no completo escuro, na companhia dos
mortos, até ter condições de achar o caminho de volta”, e eu aquiescia em
silêncio, abaixando cada vez mais a cabeça e aceitando minha humilhante
condição de pirralha teimosa que merecia um belo castigo.
A verdade é que, exatamente por não me
sentir mais como uma menina que precisa obedecer a ordens, é que decidi fazer o
que era minha vontade há tempos. Eu não sabia realmente o que faria, mas sabia
que precisava fazê-lo. Fui proibida, por meu próprio medo de aceitar a verdade,
de visitar seu túmulo, e agora, felizmente ou não, era hora de me livrar dessas
velhas correntes. Meu coração pesava no peito como se em seu lugar estivesse um
pedregulho quando me levantei, decidida a cumprir minha ideia inicial.
Começara a chover há pouco e meus pés, protegidos
apenas por aquelas poucas tiras de tecido vagabundo que eu ousava chamar de
sapatos, afundavam na lama, tornando ainda mais difícil a caminhada. Guiada
somente pela luz da lua, mal enxergava um palmo a minha frente. A chuva só
piorara tudo, fazendo com que eu não fosse capaz de enxergar nem mesmo meu
próprio nariz. E foi assim que me senti forçada a parar de andar pela segunda
vez na noite. Permaneci daquela forma, parada, quieta como um gato, por um
longo tempo, somente sentindo a chuva em minha fronte, os cabelos pingando e o
barulho constante da água batendo nas folhas das árvores. Comecei a cogitar a
ideia de permanecer afundando na lama até o amanhecer, quando esta estivesse em
minhas canelas, mas meus pensamentos foram interrompidos abruptamente pelo
barulho de um galho quebrando logo atrás de mim.
Virei o corpo naquela direção no mesmo
instante, sentindo o coração bater de forma assustadoramente rápida contra o
peito. O barulho se repetiu e eu tive vontade de correr e de gritar, mas como que
tomada por uma força sobrenatural, permaneci, como uma estátua, no mesmo lugar.
- Quem está aí? – perguntei, gaguejando,
ofegante, após longos segundos de luta interna e silêncio absoluto. Tive medo
da resposta. Medo de que ela viesse acompanhada de grandes olhos vermelhos,
como nas histórias que ouvia quando criança; e também medo de que ela não
viesse.
Por longos minutos a segunda opção pareceu
se confirmar como verdadeira, mas, de repente o barulho se repetiu e eu pude
distinguir, por entre as sombras, uma silhueta masculina. “Ora pois, que
fantasma mais indiscreto”, pensei, permitindo-me um pouco de humor para aquecer
de leve meu pobre coração congelado pelo medo.
- Quem está aí? – repeti a pergunta, dessa
vez com a voz mais firme, e apertei os olhos para enxergar melhor.
Não teria sido necessário que eu forçasse
minha visão, pois no momento em que o fiz, o homem deu um grande passo para
frente e a luz do luar iluminou completa e perfeitamente seu rosto pálido. Oh
céus! Que sensação horrível tive ao reconhecê-lo! Era ele. Era meu amado! Meu amado, que estava a seis pés abaixo da
terra!
Meus joelhos, antes já trêmulos, cederam e
eu caí, como uma fruta madura, ao chão, diante de sua imagem fria e firme como
um reflexo num espelho. Estava eu prostrada diante daquela aparição como um
fiel o faz a um santo. E era o que ele era para mim, meu leitor, um santo: uma imagem intocável, impassível,
inexistente.
Fechei os olhos com força, mas ao abri-los
novamente lá estava ele, ainda me encarando. Convenci-me da veracidade de sua
imagem quando, com um suspiro de grande sofrimento, ele se lançou ao chão junto
a mim, pegando minhas mãos e apertando-as contra seu peito de pedra. Seu toque
era macio como sempre fora, e ao sentir seu coração batendo contra a palma de
minha mão trêmula, deixei que tudo o que eu sentia se transmitisse através de
lágrimas e soluços desesperados, que ele tentou a todo custo cessar. Obviamente,
não obteve sucesso.
- Meu amor... Minha querida, por favor, não
chore. – e, tocando meu rosto com a ponta dos dedos, suspirou. – Eu estou aqui
agora, meu amor.
Apertou-me contra seu peito, beijando o topo
de minha cabeça como um pai beija o filho para desejar-lhe boa noite. Depois,
ergueu gentilmente meu rosto e, olhando para mim com seus profundos olhos
castanhos, pediu para que eu me acalmasse e parasse de chorar. Obedeci com
dificuldade, demorando a conseguir me controlar. Quando o fiz, agarrei-me à sua
cintura para me certificar de que ele não iria embora. Ele me olhou tristonho.
- Não se vá. Não me abandone novamente! Por
favor, não me deixe sozinha. – seus olhos estavam agora umedecidos por quentes
lágrimas que não tardaram a correr por seu rosto. Fiz questão de beijá-las, uma
a uma, até que em meus lábios não houvesse mais nenhuma além das minhas
próprias, que me lavavam o rosto.
Ele me apertou novamente contra seu peito e
pressionou seus lábios nos meus. Ao abrir os olhos, pude ver os seus, brilhantes,
me dizendo adeus. Depois disso de nada me lembro. Nada me lembro a não ser de
ter acordado em uma das camas de minha casa, com uma criada ao meu lado, me
olhando espantada. Pelo que fui informada depois, dormira durante cinco dias
desde que, numa sombria manhã de sábado, fora encontrada desacordada no
cemitério da cidade, diante da lápide de meu falecido noivo, abraçando meu
próprio corpo.
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Abril de 2012
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