quinta-feira, 18 de julho de 2013

Julho II

Às margens do rio das minhas memórias, uma lembrança solitária se sentou e chorou. Trazia consigo, nos braços curtos, um sentimento há muito esquecido. Ele, quase morto, olhava na direção das águas turvas da minha mente, quase que numa prece silenciosa para se afogar em suas cenas podres e desgastadas, arrastadas lentamente pela fraca correnteza.

Eu observava ao longe enquanto a lembrança, melancólica, torcia a barra do vestido branco. Sem rosto, ela ainda chorava. Era uma mistura de tristeza com alívio, revestida por angústia, vestida de branco para simbolizar a paz que nunca significou. Uma lembrança ruim, e nada mais.

A lembrança às margens do rio das minhas memórias era parte de mim que não queria morrer e nem deixar que o sentimento atrelado a ela se fosse: o agarrava com força, cravando as unhas em suas costelas para não o perder de vista, como se pudesse salvar aos dois de uma vez. Ela, sem rosto, sem nome, tão apegada à vida, não sabia a hora de dizer adeus. E chorava, chorava...

Quando despertou minha atenção, pude ouvir sua voz, ou a voz que ela reproduzia, o som que coube a ela guardar com zelo para que não se confundisse com nenhum outro. O som que ela lutou para garantir que fosse ouvido nitidamente quando fosse preciso. Um choro baixo, sem soluços.

Ela me olhou, sem olhos, e eu a desvendei. Ela era a noite fria, sem chuva, no fim de julho, onde eu, deitada na cama, sentia pena e medo de mim mesma. O som, o choro baixo sem soluços, escapava da minha boca entreaberta e ecoava nas paredes sujas do quarto. O sentimento, quase morto em seu colo, enchia meu peito de algo que eu não sei descrever. E por isso, por ser indescritível, ela o segurava com tanta força, para que eu o sentisse mais uma vez, mais uma única vez, antes que ele se fosse para sempre.

Eu sorri para ela, enquanto seus braços curtos erguiam seu protegido e o soltavam, para que ele cumprisse seu propósito. E quando isso aconteceu, eu soube que ela também tinha cumprido o seu. Ela, ali nas margens do rio, ficaria marcada como uma noite fria de julho em que eu me senti completa: finalmente havia encontrado a mim mesma, vagando por ali, nos tais rios e campos desconhecidos da minha mente.

E ali, nas margens daquele rio, a noite fria de julho chorava e deixava a água cobrir seu corpo aos poucos, enquanto me dizia com sua voz triste que também não se esqueceria de mim.

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