Às margens do rio das minhas memórias, uma
lembrança solitária se sentou e chorou. Trazia consigo, nos braços curtos, um
sentimento há muito esquecido. Ele, quase morto, olhava na direção das águas
turvas da minha mente, quase que numa prece silenciosa para se afogar em suas
cenas podres e desgastadas, arrastadas lentamente pela fraca correnteza.
Eu observava ao longe enquanto a lembrança,
melancólica, torcia a barra do vestido branco. Sem rosto, ela ainda chorava.
Era uma mistura de tristeza com alívio, revestida por angústia, vestida de
branco para simbolizar a paz que nunca significou. Uma lembrança ruim, e nada
mais.
A lembrança às margens do rio das minhas
memórias era parte de mim que não queria morrer e nem deixar que o sentimento
atrelado a ela se fosse: o agarrava com força, cravando as unhas em suas
costelas para não o perder de vista, como se pudesse salvar aos dois de uma
vez. Ela, sem rosto, sem nome, tão apegada à vida, não sabia a hora de dizer
adeus. E chorava, chorava...
Quando despertou minha atenção, pude ouvir
sua voz, ou a voz que ela reproduzia, o som que coube a ela guardar com zelo
para que não se confundisse com nenhum outro. O som que ela lutou para garantir
que fosse ouvido nitidamente quando fosse preciso. Um choro baixo, sem
soluços.
Ela me olhou, sem olhos, e eu a desvendei.
Ela era a noite fria, sem chuva, no fim de julho, onde eu, deitada na cama,
sentia pena e medo de mim mesma. O som, o choro baixo sem soluços, escapava da
minha boca entreaberta e ecoava nas paredes sujas do quarto. O sentimento,
quase morto em seu colo, enchia meu peito de algo que eu não sei descrever. E
por isso, por ser indescritível, ela o segurava com tanta força, para que eu o
sentisse mais uma vez, mais uma única vez, antes que ele se fosse para sempre.
Eu sorri para ela, enquanto seus braços
curtos erguiam seu protegido e o soltavam, para que ele cumprisse seu
propósito. E quando isso aconteceu, eu soube que ela também tinha cumprido o
seu. Ela, ali nas margens do rio, ficaria marcada como uma noite fria de julho
em que eu me senti completa: finalmente havia encontrado a mim mesma, vagando
por ali, nos tais rios e campos desconhecidos da minha mente.
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