domingo, 21 de julho de 2013

Julho IV

Minha inspiração morreu. Deu seu último suspiro quando eu fechei o portão na sua cara e me escondi embaixo dos travesseiros para chorar sozinha. Antes disso, embora cambaleante, ela se erguia quase todas as manhãs junto com essas tuas pálpebras oleosas e cílios compridos. Ficava radiante e borbulhava na minha cabeça quando você sorria sem mostrar os dentes. Era quase como uma adolescente apaixonada, se encantando com qualquer demonstração de afeto, colorindo as folhas em branco da minha mente e decorando-as com palavras bonitas.

Era uma criança mimada, na verdade. Acostumou-se com suas migalhas de atenção, decidiu que seria só tua. “Há males que vêm para o bem”, ela me dizia ao ouvir as suas palavras duras ou verdades dolorosas, e me levantava da cama para me fazer colocar meus sentimentos em parágrafos mal divididos que ninguém lia.

Acostumada a te ter sempre por perto, mesmo que do outro lado do mundo, nunca levou muito a sério as brigas e desencontros, por isso se negava a dizer adeus. “Dessa vez é sério”, eu confessei baixinho entre os travesseiros, enquanto meu queixo tremia e esses teus olhos me encaravam suplicantes, e ela quase não acreditou. Teve que acreditar, no entanto, quando meus olhos encararam a calçada ao invés dos seus, e o que tinha de você dentro de mim foi arrancado pelas minhas mãos frias e unhas malfeitas. Foi aí que ela suspirou uma última vez e decidiu se agarrar naqueles fios de esperança que saíam do meu peito.

Agora estou sozinha, o peito vazio e a escuridão ao lado. Não me sobrou nada de ti (nem dela), nem mesmo as palavras.

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