Minha inspiração morreu. Deu seu último
suspiro quando eu fechei o portão na sua cara e me escondi embaixo dos
travesseiros para chorar sozinha. Antes disso, embora cambaleante, ela se
erguia quase todas as manhãs junto com essas tuas pálpebras oleosas e cílios
compridos. Ficava radiante e borbulhava na minha cabeça quando você sorria sem
mostrar os dentes. Era quase como uma adolescente apaixonada, se encantando com
qualquer demonstração de afeto, colorindo as folhas em branco da minha mente e
decorando-as com palavras bonitas.
Era uma criança mimada, na verdade. Acostumou-se
com suas migalhas de atenção, decidiu que seria só tua. “Há males que vêm para
o bem”, ela me dizia ao ouvir as suas palavras duras ou verdades dolorosas, e
me levantava da cama para me fazer colocar meus sentimentos em parágrafos mal
divididos que ninguém lia.
Acostumada a te ter sempre por perto, mesmo
que do outro lado do mundo, nunca levou muito a sério as brigas e desencontros,
por isso se negava a dizer adeus. “Dessa vez é sério”, eu confessei baixinho
entre os travesseiros, enquanto meu queixo tremia e esses teus olhos me
encaravam suplicantes, e ela quase não acreditou. Teve que acreditar, no
entanto, quando meus olhos encararam a calçada ao invés dos seus, e o que tinha
de você dentro de mim foi arrancado pelas minhas mãos frias e unhas malfeitas.
Foi aí que ela suspirou uma última vez e decidiu se agarrar naqueles fios de
esperança que saíam do meu peito.
Agora estou sozinha, o peito vazio e a
escuridão ao lado. Não me sobrou nada de ti
(nem dela), nem mesmo as palavras.
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