“Cheguei à conclusão de que nunca tinha visto o céu tão azul. Ando perceptiva, você sabe. É que eu quero ter algumas boas lembranças para passarem diante dos meus olhos naquilo que dizem que acontece quando se está perto da morte. Como naquele dia em que a gente acordou abraçado, você se lembra? Estava nublado e a gente nem lembrava que horas tinha caído no sono, mas sabia que a noite tinha sido boa.
Talvez você ache bobeira minha ficar escrevendo sobre isso quando se tem tanto para escrever, mas eu não ligo. Tenho todo tempo que eu quiser. A porta está trancada e todos acham que eu estou bem.
Resolvi parar com os remédios. Já tinha te dito que ia fazê-lo, mas só agora tomei coragem. Confesso que estava com medo do que ia invadir a minha mente, mas isso passou, assim como todo o resto. Sei que isso te faz mal; que te fez mal desde o início, mas eu não posso evitar. Não é como se eu quisesse me controlar.
Está tudo tão silencioso que sinto meus ouvidos doerem cada vez que meu coração bate com força em meu peito. Queria que você estivesse aqui. Para me impedir, talvez.”
A garota respirou profundamente, sentindo o medo transbordar em seus olhos através de lágrimas que logo correram por seu rosto marcado. Fechou os olhos, sentindo a fria lâmina em suas mãos trêmulas. Sabia que depois que fizesse o que planejava não teria como voltar atrás e era exatamente isso o que a impedia de ir em frente.
Pela primeira vez na vida sentia medo do que era capaz de fazer consigo mesma. Sentia-se como um monstro que ao invés de destruir os outros destruía a si mesmo. Tudo o que ela queria era que alguém arrombasse a porta do quarto e a impedisse, por mais que soubesse que isso não ia acontecer.
Tinha disfarçado bem demais para alguém pensar que havia alguma coisa errada. Sempre forçava um sorriso ao entrar pela porta da cozinha, perguntando aos outros moradores da casa como tinha sido o dia e se estava tudo bem. Assim como sempre ia às consultas com o psiquiatra e comprava todos os remédios e fingia tomá-los, mas os jogava na privada.
Queria, também, que alguém tivesse sido capaz de salvá-la do ódio e da autodestruição. Alguns tentaram, mas para a garota, parecia que não tinham tentado o suficiente. Às vezes se sentia mal por culpá-los por seus problemas, sabendo que tudo não passava da sua mania de não aceitar que estava errada e que precisava mudar.
“Prefiro morrer a viver com a morte em mim”, repetia várias vezes na frente do espelho, tentando se convencer de que não havia outra saída. Sabia que havia. Sabia que podia ouvir o que o psicólogo dizia; que podia tomar os remédios; que podia encontrar novos amigos e ocupar o maldito tempo livre que a permitia pensar demais. Sempre chegava à conclusão de que era inútil demais para fazer algo por si mesma e acabava sentada no chão do banheiro, observando o sangue correr por sua pele.
E era praticamente assim que estava nesse momento. Sentada no chão, com a lâmina fina nas mãos trêmulas e uma enorme quantidade de bebida alcoólica e comprimidos em sua frente. Fechou os olhos com força, lembrando-se do que sentiu ao conhecer aquele para quem o bilhete era destinado. Gostava de saber que o fim de sua vida tinha começado com uma cena bonita, nem que esta fosse só para compensar as ruins que estavam por vir.
Tomou alguns goles da garrafa, sentindo a garganta queimar e o rosto enrubescer no mesmo instante. Esperou alguns segundos até começar a tomar os comprimidos, perdendo a conta de quantos conseguiu engolir antes de começar a sentir um nó crescente na garganta. Bebeu mais um pouco e respirou fundo ao sentir o resultado da pressão que exercia na lâmina. A visão que teve ao abrir a mão foi o suficiente para que ela tivesse que começar a respirar mais rápido para não perder a consciência. A visão escurecia mais a cada segundo e o desespero passou a ser a única coisa que conseguia sentir. O tempo estava se esgotando. “Rápido demais”, pensou.
Esticou o braço, enxergando com dificuldade as veias esverdeadas no antebraço. Tinha que ser rápida e precisa. Encostou a lâmina na pele e a deslizou com toda a força e rapidez que conseguiu encontrar no corpo trêmulo. A pele se abriu como nunca antes e o sangue começou a correr com uma rapidez impressionante. Sabia que tinha rompido uma veia, coisa que sempre temeu.
Logo as lágrimas de arrependimento chegaram, fazendo-a engasgar com a própria saliva e sufocar com a falta de ar. Os soluços se tornaram cada vez mais altos, até o ponto de que ela não conseguia mais ouvir nada além do próprio desespero transformado em sons estranhos e murmúrios indecifráveis. Os olhos começaram a se fechar involuntariamente e o seu desespero aumentou, transformando-se em gritos de horror. Sentia um formigamento estranho que começou pela ponta dos pés e logo estava na boca do estômago, não demorando muito para alcançar o peito e logo depois a garganta.
O frio não tardou a chegar, fazendo-a fraquejar e quase fechar os olhos por um instante. Ainda conseguia ouvir os próprios soluços, que agora pareciam simples sussurros. Algo estranho, que ela pôde jurar não ser daquele mundo só e simplesmente pela sua presença, invadiu o quarto e ela soube que era hora. Permitiu-se sussurrar a palavra que tanto quis que tivesse saído de sua boca na hora certa (“perdão”) e finalmente fechou os olhos, encontrando os expressivos olhos castanhos que pareciam tê-la esperado a noite toda. Os olhos do homem que logo seria acordado com a notícia de que ela finalmente tinha cumprido sua promessa.
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Janeiro de 2012
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