quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Dying Song


- Por que ele?

Era essa a questão. E amor não era a resposta. Tantos outros sentimentos estavam ali, misturando-se uns aos outros, que era injusto que um tivesse privilégios. Queria colocá-los para fora, da forma que fosse, pois não agüentava mais acordar todos os dias com aquela sensação de desgaste que era trazida pela amargura crescente em que se encontrava. Queria pintá-los, desenhá-los, cantá-los, descrevê-los, cuspi-los... Queria que saíssem; que não voltassem nunca mais, nem como lembrança pelos velhos tempos de depressão. Sabia que não era fácil assim; que nenhum conflito se resolvia com um simples desabafo feito para as paredes do quarto.

Fechou os olhos com força e gritou contra o travesseiro. Gritou todos aqueles malditos sentimentos que enchiam seu peito e a impediam de respirar; expulsou todos os demônios que a impediam de seguir em frente. Por mais doloroso que fosse perder uma parte de si mesma, não podia continuar com aquilo. Gritou até que a garganta arranhasse e algo quente invadisse sua boca. Levantou o rosto e viu o sangue no travesseiro.

Tossiu, sentindo a garganta queimar e o sangue respingar nas mãos trêmulas. O rosto, pálido, emoldurado pelos cachos negros, era agora um misto de expressões. As lágrimas, quentes, não tardaram a chegar, acompanhadas de soluços roucos e dolorosos, que a faziam lembrar de todo o sofrimento a que se sujeitara por um minuto de felicidade. Não se sentia mais leve... Sentia-se vazia, como um pássaro morto.

Parada agora em frente à janela olhava para o céu escuro como uma criança para o presente de aniversário. Esticou as mãos, fechando os olhos enquanto imaginava tocá-lo. Via a si mesma correndo por entre bosques, enquanto sentia a leve brisa batendo contra seu rosto corado pela corrida e por uma sensação de estar viva que nunca tinha experimentado antes. Gostaria de permanecer ali, sentindo o cheiro das flores e apreciando a sombra das árvores enquanto o sol se punha. Nada poderia alcançá-la.

Ouvia o barulho das águas, agitadas como se simbolizassem o que ela era. E simbolizariam, se ela quisesse. Poderia ter tudo; ser tudo.

Era o rio.

Era o vento.

Era si mesma, de novo, sorrindo enquanto o céu negro vinha de encontro a ela.

- Acorda, por favor.

O vento tornou-se mais frio e o bosque, mais escuro. A borboleta que voava ao seu redor despedaçou-se aos poucos. Sentiu o chão desfazer-se sobre seus pés, enquanto tudo era tomado pela escuridão. Gritou, caindo no nada que havia se tornado seu mundo.

Um barulho estranho e constante, quase como um bip, a fez tampar os ouvidos com força. Queria voltar para o seu bosque; ainda tinha que ler os livros que tinha encontrado; ainda tinha que brincar com as lebres e cantar com os pássaros.

- Meu amor...

Ela destampou os ouvidos, limitando-se a virar-se na direção da voz, que agora lhe parecia estranhamente familiar. Permaneceu assim por longos minutos, esperando ouvi-la de novo. Queria chamar pelo dono da voz, mas nada saía de sua boca por mais que se esforçasse. O desespero começou a tomar conta de si, fazendo-a engasgar com a própria saliva na tentativa de pedir ajuda.

- Ela não vai morrer, não é?

Viu uma luz fraca se acender e decidiu segui-la, sentindo o vento frio bater cada vez com mais força contra seu rosto. Os olhos ardiam pelas lágrimas que, como sempre, nunca se atrasavam. Permaneceu caminhando na escuridão, sendo guiada pela luz trêmula pelo que lhe pareceram incontáveis minutos, até que o vento parou. O bip voltara.

Fechou os olhos com força e quando tornou a abri-los encontrou um quarto de hospital e dois olhos castanhos a encarando. O rapaz, agora debruçado sobre a cama, não conseguiu conter uma lágrima que escorreu rapidamente por seu rosto e tomou a menina nos braços, apertando-a contra si com força. Ela pôde ouvir seu coração bater com força e fechou os olhos para se concentrar somente naquele barulho que soava como música para seus ouvidos.

Ela se lembrava daquela música.

Era a que estava tocando enquanto ela tomava os comprimidos...

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Janeiro de 2012

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