sábado, 21 de janeiro de 2012

Poe



"Durante quinze anos, vagueamos, de mãos dadas, pelo vale, eu e Eleonora, antes que o Amor penetrasse em nossos corações. Foi tarde, numa tarde, no fim do terceiro lustro de sua vida e no quarto da minha, em que nos achávamos sentados sob as árvores serpentinas, estreitamente abraçados e contemplávamos nossos rostos dentro da água do rio do Silêncio. Nem uma palavra dissemos durante o resto daquele dia suave, e mesmo no dia seguinte nossas palavras eram roucas e trêmulas. Tínhamos arrancado daquelas águas o deus Eros e agora sentíamos que ele inflamara, dentro de nós, as almas ardentes de nossos antepassados. As paixões que durante séculos haviam distinguido nossa raça vieram em turbilhão com as fantasias pelas quais tinham sido igualmente notáveis e juntas sopraram uma delirante felicidade sobre o vale das Relvas Multicores. Todas as coisas se transformaram.  

Flores estranhas e brilhantes, em forma de estrelas, brotaram nas árvores onde antes nunca haviam sido vistas. Os matizes do verde tapete ficaram mais intensos, e, quando uma a uma, as brancas margaridas desapareceram, e floriram dezenas e dezenas de rúbidas abróteas. E a vida despertou nas nossas veredas, porque o alto flamingo, até então invisível, como todos os alegres pássaros resplendentes, ostentou para nós a plumagem escarlate. Peixes de ouro e prata encheram o rio, de cujo seio irrompeu, pouco a pouco, um murmúrio que foi crescendo, afinal, para se tornar uma melodia embaladora mais divina a da harpa de Éolo, mais doce do que tudo, exceto a voz de Eleonora.

E então, uma nuvem imensa, que há muito observávamos nas regiões de Vésper, veio flutuando, toda rebrilhante de carmim e ouro, e pairou tranqüila sobre nós, descendo,dia a dia, cada vez mais baixo, até que suas extremidades descansaram sobre o cume das montanhas, transformando-lhes o negror em magnificência e encerrando-nos, como que para sempre, dentro de uma mágica prisão de grandeza e de glória."




(Trecho do conto Eleonora)

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