segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Losing Control

Olhei para ela e vi a resposta em seus olhos. “Sem chance”, era o que diziam. Respirei fundo, fingindo não ter reparado sua descrença em minha melhora. E de pensar que eu queria ser que nem ela há algum tempo. Agora eu podia ver – e entender – o quanto aquilo tudo era inútil e frustrante. Você sabe, ficar ali, atrás daquela mesa, ouvindo gente doente falando de seus problemas e de suas vidinhas medíocres. Gente que não acredita em si mesma e muito menos no que ela tinha para dizer. Aliás, nem ela mesma acreditava, tanto que todas as palavras que saíam de sua boca pareciam retiradas de um script. Algo que eu não duvidava nada, uma vez que, estando ali o dia inteiro ouvindo esse tipo de coisa, essas frases deveriam mesmo serem decoradas.

Tinha vontade de perguntar o que fazer, mas sabia que o que ia ouvir não ia me agradas, então fiquei quieta, pensando nas minhas opções e percebendo, em pouco tempo, que não eram muitas. Eu não queria parar, na verdade, mas sabia que em algum momento isso ia ter que acontecer, por bem ou por mal. Afinal, eu praticamente não tinha mais nenhuma área “escondível” no meu corpo. Se eu não quisesse ser descoberta, teria que aprender a me controlar. Não que eu não soubesse, mas me controlar mais.

De qualquer forma, aquilo não ia me levar a lugar nenhum. A terapia, eu digo. Era mais uma consulta que cada uma fazia consigo mesma, onde tentávamos nos convencer de que estávamos no caminho certo e, apesar dos obstáculos, um dia iríamos encontrar “a luz”, do que efetivamente uma consulta “profissional-paciente”. Meu dinheiro estava indo para o ralo.

“Sua vida está indo para o ralo, idiota”, pensei com meus botões, não podendo impedir um sorriso nervoso de aparecer em meu rosto. Ela piscou algumas vezes, franzindo o cenho e parando de falar abruptamente.

- Algum problema? – perguntou. Repeti seu gesto – de piscar algumas vezes – e neguei rapidamente com a cabeça. É claro que tinha algum problema. Muitos, até. Mas eu não iria mais perder meu tempo falando de coisas sem solução.

“Desistir vai piorar as coisas” era a frase que eu mais ouvia. Diga-me, meu caro, como aquilo iria melhorar? Não por descrença, mas por bom senso, eu ia parar.

Era triste pensar em quantas pessoas eu decepcionaria – e preocuparia – com minha decisão, mas tantas coisas eram tristes que eu também tomei a decisão de não me preocupar mais.

Esperei um tempo – o tempo necessário para aquilo ser considerado uma consulta e resolvi falar:

- Quero parar o tratamento. – mais uma vez ela interrompeu sua própria fala para ficar me encarando perplexa. Ficou assim por alguns minutos, como se tivesse levado um tapa na cara. Senti uma coisa estranha, um bolo na garganta que não parava de crescer.

- Você está bem? – ela perguntou. O cenho franzido em preocupação me fez ter vontade de levantar e lhe dar algumas bofetadas. Não o fiz, obviamente. Bater na psicóloga só mostraria o quanto eu ainda precisava de tratamento.

- O quê? Não, eu não tô bem. – respondi num tom mais agressivo do que planejava, o que me deixou insegura sobre o que eu estava prestes a fazer.

- Não, o que eu quero dizer é... Uhn, você está vermelha. – levantou uma sobrancelha e eu respirei fundo, balançando a cabeça.

- Fico assim quando estou nervosa. – fiz menção de levantar, mas fui interrompida por ela.

- É uma grande decisão, não? – ensaiou um sorriso. – O que te faz querer parar?

- Não está me ajudando.

- Mas isso, a melhora, eu digo, vem com o tempo. – recomeçou a escrever em seu bloco de anotações e eu revirei os olhos.

- Ana, nós estamos perdendo nosso tempo. Eu sei que você está ganhando seu dinheiro e está tentando me ajudar. Agradeço a tentativa, de verdade. Imagino como deve ser difícil ter que lidar com os problemas dos outros, além de ter que lidar com os seus e te admiro por isso, mas eu não acho que o tratamento vai me ajudar. Eu preciso de um tempo sozinha, sem ser monitorada. – forcei um sorriso e me levantei antes que ela começasse a falar alguma coisa. – Agradeceria se você não fosse contra mim nessa decisão e nem tentasse convencer minha mãe de eu ainda não estou bem. – peguei minha bolsa, colocando-a no ombro, esperando alguns segundos para que ela falasse alguma coisa. Como isso não aconteceu, me virei e fui em direção à porta.

- Só não faça nenhuma besteira. – virei o rosto para encará-la. – Eu sou responsável pelos seus atos desde que começamos o tratamento, se é que me entende. – assenti com a cabeça, abrindo a porta e saindo do consultório.

- Terei cuidado.
(...)
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Losing Control - Outubro de 2011

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