segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Dead inside
- Eu tenho me sentido tão morta por dentro. – ela murmurou, seu olhar perdido em algum ponto fixo da parede, como se desejasse que houvesse alguma coisa lá. Um suspiro cansado escapou de sua boca e logo seu olhar moveu-se para o chão, onde ela podia ver os pés do rapaz próximos aos seus. – É difícil não conseguir sentir nada. É pior do que sentir tristeza. – a voz, aguda de repente, denunciava a vontade que tinha de chorar, por mais que não conseguisse.
As mãos balançavam fracamente ao lado do corpo, como se esperassem por algo – alguém – para pegá-las antes que parassem completamente. O nó na garganta parecia crescer cada vez mais e junto com ele a vontade de deixar que as palavras finalmente saíssem de sua boca... As palavras que tinha guardado por tanto tempo e a feriam cada vez mais, como as lâminas afiadas que usava para proporcionar dor a si mesma, a fim de se sentir viva.
Sabia que não funcionava. Sabia que todas as vezes que cortava a própria pele as coisas só pioravam, mas não conseguia parar. Era como um vício bom, daqueles que você não quer deixar de ter, porque, apesar de tudo, é a única coisa que você tem. Aquilo era a única coisa que havia sobrado.
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Outubro de 2011
Trezentos e cinco
Trezentos e cinco. Acabei de atualizar. Quatro novos. Fiz um jogo da velha dessa vez. Não sei, mas acho que estou começando a gostar de desenhos e palavras. Lembra daquela frase? Pois é. Pena que esses nunca são tão profundos quanto eu gostaria e não ficam marcados.
Seria ótimo me olhar no espelho todos os dias e ver algumas palavras motivadoras cicatrizando em meus ombros ou pulsos ou coxas ou canelas ou em qualquer outro lugar do meu corpo. Você sabe, nada como ser sempre lembrada do que você odeia e o porquê de odiá-lo.
Eu sinto (sentia) falta disso, se você quer saber. Sentia falta até mesmo da época em que eu não sentia mais nada ao fazê-lo e o fazia cada vez mais forte na tentativa de sentir alguma coisa. Vez ou outra me pego vendo as fotos e lembrando da sensação.
Às vezes sentia medo quando via aquela quantidade enorme de sangue manchando o chão do quarto; às vezes me desesperava por saber que estava totalmente fora de controle; às vezes só tinha vontade de terminar logo o serviço, se é que você me entende. Sinto falta disso também. Sinto falta até dos motivos que eu procurava para fazê-lo... Dos motivos que você me dava, também.
Pena que as coisas não durem tanto quanto parecem que vão durar, não é? Eu sentia que aquilo fazia parte de mim e que sempre iria fazer, mas, assim como você, foi embora e só me restaram as cicatrizes, que até doem de vez em quando, mas não são nada além de cicatrizes.
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Dezembro de 2011
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Não era pra ser, afinal.
E eu não quero que você se vá. Não por enquanto, pelo menos... Pois eu tenho tanta, mas tanta coisa pra te falar que um ou dois encontros não seriam suficientes. Eu precisaria te ver todos os dias, sentir sua pele contra a minha ou qualquer coisa que faça com que a gente fique perto um do outro para conseguir te dizer tudo o que tá entalado aqui na minha garganta faz um bom tempo. Se depois de tudo você decidir ir embora mesmo assim, eu quero que você vá sabendo o quanto eu te gosto. O quanto eu te quis por perto; o quanto eu desejei que tudo desse certo; o quanto eu me esforcei para fazer de você um cara feliz. E aí, seja qual for sua decisão, eu vou estar em paz – não com o meu coração, porque ele ainda vai bater forte quando eu me lembrar de algum momento contigo – com tudo isso. Eu vou entender que não era pra ser e que a culpa não foi minha.
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Agosto de 2010
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Tenho sorte até demais
Eu não me lembro ao certo quantas vezes eu pensei em você nos últimos dias. Sei que é estranho, repentino, mas eu não consigo evitar. Acho que é porque eu estou feliz... E me incomoda saber que você também está. Sabe, passei tanto tempo sem pensar em como teria sido que quando eu finalmente decidi fazê-lo percebi que nos perdemos um do outro com muita facilidade. Provavelmente nunca mais nos encontraremos. E eu nem sei se você pensa em mim.
Não quero que pense, pra falar a verdade. Já é bastante perturbador ter você como o meu maior “e se...”. Não quero que você se torne algo como uma alternativa para essa realidade complicada que eu estou vivendo. Entende? Às vezes eu imagino como teria sido se eu não fosse tão criança na época... Você sabe. Imagino como as coisas teriam acontecido... E também me pergunto se você me trataria exatamente como no começo ou se seria aquele cara estúpido que se tornou conforme os meses se passaram.
E eu quero que fique só na imaginação. Porque eu sou fraca, você sabe. Desisto fácil... E agora, feliz, eu to numa coisa difícil de levar. Complicada demais... E eu sei que posso levar adiante, sei que consigo fazer isso se eu realmente quiser. E eu também sei, como você também sabe, que se aparecer uma alternativa eu vou acabar perdendo um pouco disso que eu estou sentindo.
Eu me perco fácil. Pra falar a verdade, eu me perdi há exatamente um ano e ainda não consegui me encontrar. Eu me olho no espelho e vejo a mesma imagem que eu via naquela época, mas por dentro está tudo tão confuso e escuro que eu fico me perguntando onde aquela garota cheia de sonhos e esperança está numa hora dessas. Chego a ficar mal, imaginando que ela está perdida dentro da minha cabeça. Logo a minha cabeça, tão escura e sombria.
E você é só mais uma dessas lembranças tristes que de vez em quando voltam com força para me fazer pensar no quanto eu era diferente do que eu sou hoje. Não queria que fosse assim... Eu queria poder pensar em ti como um momento feliz do meu passado. Só isso. Porque, não sei, parece que você tinha tanto a me oferecer e vice-versa. Pode ser que eu esteja enganada, mas é uma coisa que eu não tenho como saber. Acho que me contento com essa idéia de “poderia ter sido diferente”.
Vai passar. Quer dizer, essa situação desconfortável de me pegar pensando em você, quando na verdade eu deveria estar pensando na pessoa que está me oferecendo tudo o que eu sempre quis ter. Na verdade, acho até que está passando. Sei que de vez em quando seu rosto vai aparecer na minha mente, mas não vou permitir que seja mais que isso. Não vou permitir que o que enche meu peito quando essa imagem aparece seja saudade. Não vou permitir que essa minha realidade se perca por uma pessoa que nunca demonstrou mais do que simples afeto. Não quero só isso. Nunca quis.
Mas também não vou permitir que seja raiva. Nunca será. Você por muito tempo foi um sonho, algo que eu desejava como se fosse segredo. E foi bom. Foi bom saber que tinha alguém por quem eu podia sentir alguma coisa naquela época. Porque você sabe, naquela época o mundo era cinzento e tudo o que eu sentia não durava mais que uma semana, exceto a tristeza, que parecia permanente.
E eu sei que a culpa não é tua. E nem minha. A culpa é do tempo, que não permitiu que nos encontrássemos depois.
De qualquer forma, o tempo passou e as coisas nunca vão voltar a ser como eram antes. E nunca serão como poderiam ter sido um dia. Mas tudo bem... Pelo menos sei que você foi de verdade, que você é de verdade... E que por mais que esteja no passado e eu não queira que esteja no presente e muito menos no futuro, não deixarei de ver tua foto com um sorriso no rosto.
Tenho o que ficou. E sei lá, sinto que tenho sorte até demais, por ter encontrado uma pessoa que me faz bem, que me tirou daquele poço que eu me encontrava. E eu sei que você também tem, por ter encontrado exatamente a mesma coisa. Que sejamos felizes.
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Janeiro de 2011
Losing Control
Olhei para ela e vi a resposta em seus olhos. “Sem chance”, era o que diziam. Respirei fundo, fingindo não ter reparado sua descrença em minha melhora. E de pensar que eu queria ser que nem ela há algum tempo. Agora eu podia ver – e entender – o quanto aquilo tudo era inútil e frustrante. Você sabe, ficar ali, atrás daquela mesa, ouvindo gente doente falando de seus problemas e de suas vidinhas medíocres. Gente que não acredita em si mesma e muito menos no que ela tinha para dizer. Aliás, nem ela mesma acreditava, tanto que todas as palavras que saíam de sua boca pareciam retiradas de um script. Algo que eu não duvidava nada, uma vez que, estando ali o dia inteiro ouvindo esse tipo de coisa, essas frases deveriam mesmo serem decoradas.
Tinha vontade de perguntar o que fazer, mas sabia que o que ia ouvir não ia me agradas, então fiquei quieta, pensando nas minhas opções e percebendo, em pouco tempo, que não eram muitas. Eu não queria parar, na verdade, mas sabia que em algum momento isso ia ter que acontecer, por bem ou por mal. Afinal, eu praticamente não tinha mais nenhuma área “escondível” no meu corpo. Se eu não quisesse ser descoberta, teria que aprender a me controlar. Não que eu não soubesse, mas me controlar mais.
De qualquer forma, aquilo não ia me levar a lugar nenhum. A terapia, eu digo. Era mais uma consulta que cada uma fazia consigo mesma, onde tentávamos nos convencer de que estávamos no caminho certo e, apesar dos obstáculos, um dia iríamos encontrar “a luz”, do que efetivamente uma consulta “profissional-paciente”. Meu dinheiro estava indo para o ralo.
“Sua vida está indo para o ralo, idiota”, pensei com meus botões, não podendo impedir um sorriso nervoso de aparecer em meu rosto. Ela piscou algumas vezes, franzindo o cenho e parando de falar abruptamente.
- Algum problema? – perguntou. Repeti seu gesto – de piscar algumas vezes – e neguei rapidamente com a cabeça. É claro que tinha algum problema. Muitos, até. Mas eu não iria mais perder meu tempo falando de coisas sem solução.
“Desistir vai piorar as coisas” era a frase que eu mais ouvia. Diga-me, meu caro, como aquilo iria melhorar? Não por descrença, mas por bom senso, eu ia parar.
Era triste pensar em quantas pessoas eu decepcionaria – e preocuparia – com minha decisão, mas tantas coisas eram tristes que eu também tomei a decisão de não me preocupar mais.
Esperei um tempo – o tempo necessário para aquilo ser considerado uma consulta e resolvi falar:
- Quero parar o tratamento. – mais uma vez ela interrompeu sua própria fala para ficar me encarando perplexa. Ficou assim por alguns minutos, como se tivesse levado um tapa na cara. Senti uma coisa estranha, um bolo na garganta que não parava de crescer.
- Você está bem? – ela perguntou. O cenho franzido em preocupação me fez ter vontade de levantar e lhe dar algumas bofetadas. Não o fiz, obviamente. Bater na psicóloga só mostraria o quanto eu ainda precisava de tratamento.
- O quê? Não, eu não tô bem. – respondi num tom mais agressivo do que planejava, o que me deixou insegura sobre o que eu estava prestes a fazer.
- Não, o que eu quero dizer é... Uhn, você está vermelha. – levantou uma sobrancelha e eu respirei fundo, balançando a cabeça.
- Fico assim quando estou nervosa. – fiz menção de levantar, mas fui interrompida por ela.
- É uma grande decisão, não? – ensaiou um sorriso. – O que te faz querer parar?
- Não está me ajudando.
- Mas isso, a melhora, eu digo, vem com o tempo. – recomeçou a escrever em seu bloco de anotações e eu revirei os olhos.
- Ana, nós estamos perdendo nosso tempo. Eu sei que você está ganhando seu dinheiro e está tentando me ajudar. Agradeço a tentativa, de verdade. Imagino como deve ser difícil ter que lidar com os problemas dos outros, além de ter que lidar com os seus e te admiro por isso, mas eu não acho que o tratamento vai me ajudar. Eu preciso de um tempo sozinha, sem ser monitorada. – forcei um sorriso e me levantei antes que ela começasse a falar alguma coisa. – Agradeceria se você não fosse contra mim nessa decisão e nem tentasse convencer minha mãe de eu ainda não estou bem. – peguei minha bolsa, colocando-a no ombro, esperando alguns segundos para que ela falasse alguma coisa. Como isso não aconteceu, me virei e fui em direção à porta.
- Só não faça nenhuma besteira. – virei o rosto para encará-la. – Eu sou responsável pelos seus atos desde que começamos o tratamento, se é que me entende. – assenti com a cabeça, abrindo a porta e saindo do consultório.
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Losing Control - Outubro de 2011
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