sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ana e Diego (ou não)

Eu escrevi tanto sobre você e sobre como a gente não combinava em nada, mas mesmo assim não aguentava muito tempo longe um do outro. E aqui, agora, eu me lembro de todas as vezes que a gente riu o mesmo riso. Eu lembro da gente na sua casa, você, sempre ansioso, encostado na mesa esperando eu terminar de fazer o almoço só pra rir da minha falta de jeito e criticar a quantidade de tempero. Só consigo me perguntar se você também pensa nisso, se também lembra das nossas noites insones, da gente deitado junto na sua cama discutindo algum livro; de você rindo do meu sotaque e do meu s que mais parece um x, como se você não fosse carioca também; da gente se atrapalhando na hora de fazer alguma conta e de como você ria das minhas tentativas de ler algum livro de poesia e recitar minhas favoritas, tanto porque eu sempre lia rápido demais quanto porque eu sempre ficava com aquele ar sério que você dizia não combinar comigo. E a gente teve tantos momentos bons, menino, que eu sinto falta de arrumar esse teu cabelo cacheado, de implicar contigo por causa do violão velho que você insistia em não substituir, e principalmente, menino, eu sinto falta de quem eu era quanto estava com você, de quem você era quando estava comigo e de como a gente era um casal bonito, desses que dão gosto de ver. 
Onde está você que não comigo? Por que tão longe se teu lugar é do meu lado? Sempre tenho tanto pra dizer e você tanto pra contestar, mas no momento só tenho o silêncio. Eu sem você sou só silêncio. E você sem mim, eu não sei... Nem sei se quero saber... Por isso eu imagino, menino, e torço pra você imaginar também. (Quem sabe a gente não dá certo na imaginação, eu meio louca e desarrumada e você assim, com esse all star velho e esse sorriso de quem tá sempre atrasado).

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Anna Akhmatova

O ÚLTIMO BRINDE

Bebo à casa arruinada,
às dores da minha vida,
à solidão, lado a lado
e a ti também eu bebo –
aos lábios que me mentiram, 
ao frio mortal nos olhos,
ao mundo rude e brutal
e a Deus que não nos salvou

quarta-feira, 18 de junho de 2014


Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim:
"Faz tempo que eu não te vejo
quero matar meu desejo
te mando um monte de beijo
ai que saudade sem fim"

terça-feira, 17 de junho de 2014

Citação direta longa

Ela sorriu boba enquanto dava uma resposta qualquer. Simples assim, pensou, enquanto ele falava e gesticulava a fazia perguntas bobas. Ela sempre se surpreendia com a facilidade com que as pessoas entravam na vida umas das outras - como se estivessem entrando numa padaria. E agora ela sabia que a vida dos dois estavam ligadas. Nem que fosse só através de acenos numa avenida movimentada ou através da tela de um computador. Ela soube no momento em que ele voltou que as vidas dos dois estavam ligadas, porque ele a tinha tocado de alguma forma. E ela tinha tocado a ele. E ela podia ver tão claramente quanto via o brilho dos seus olhos castanhos... Os fios que conectavam a vida dos dois indo de encontro um ao outro. Ela podia ver todos os fios... De onde um saia entrava outro... E era isso que a fazia se sentir tão pequena, ali no balcão: o fato de que todos existem ao mesmo tempo. (p. 2) 
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Mais um começo.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Mais um pra você, que está tão bem sem mim

Estar aqui num sábado a noite foi tudo que eu desejei por muito tempo. Pena que não me baste mais estar num lugar cheio de gente com essa luz chata piscando no meu rosto. Pena que, apesar de tudo, - da dor, da angustia, da insegurança e da minha baixa auto estima - não me baste mais um cara qualquer deixando de dançar com alguém pra puxar papo comigo. Não sei se isso significa que eu cresci ou se eu devia voltar a tomar os remédios. É só que não me parece mais tão interessante que gostem do meu cabelo ou de como meu olhar é triste. Não me satisfaz mais ser o mascote suicida da turma. Não me apetece mais ser a garota na balada que os caras acham que vai ser interessante comer porque uma garota depressiva é mais exótica que uma normalzinha que faz medicina. 
Pena que meu humor não seja mais influenciado pelo jeito que meu cabelo cai no meu olho ou pela foto estranha que tiraram de mim num canto qualquer. Acho que não me basta mais ter tanta gente se ninguém é você... Acho que não me basta ninguém se ninguém consegue ver através desses meus olhos tristes - e fundos e cansados e terrivelmente assustados. Pena que só me baste você e o que eu tenha de você seja só uma camisa velha que eu uso pra parecer mais interessante para gente que não me interessa.