sábado, 28 de janeiro de 2012

"Gelada, em delírio, ela se acha sobre as bordas de um precipício: tudo que a cerca são trevas; nenhuma perspectiva, nenhuma consolação, nenhum pressentimento: ela está abandonada do único ente que a fazia reconhecer a sua existência. Ela não vê o vasto universo que tem diante de seus olhos: ela não vê mil pessoas que a poderiam indenizar do que perdeu. Ela não sente senão a si, a si abandonada de todo o mundo. Perturbada, oprimida pelo estado horrível em que está o seu coração, precipita-se no seio da morte para sufocar os seus tormentos."



Os Sofrimentos do Jovem Werther - Goethe
(Simplesmente fantástico. Tanto sentimento... Ai ai ;-;)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Poe



"Durante quinze anos, vagueamos, de mãos dadas, pelo vale, eu e Eleonora, antes que o Amor penetrasse em nossos corações. Foi tarde, numa tarde, no fim do terceiro lustro de sua vida e no quarto da minha, em que nos achávamos sentados sob as árvores serpentinas, estreitamente abraçados e contemplávamos nossos rostos dentro da água do rio do Silêncio. Nem uma palavra dissemos durante o resto daquele dia suave, e mesmo no dia seguinte nossas palavras eram roucas e trêmulas. Tínhamos arrancado daquelas águas o deus Eros e agora sentíamos que ele inflamara, dentro de nós, as almas ardentes de nossos antepassados. As paixões que durante séculos haviam distinguido nossa raça vieram em turbilhão com as fantasias pelas quais tinham sido igualmente notáveis e juntas sopraram uma delirante felicidade sobre o vale das Relvas Multicores. Todas as coisas se transformaram.  

Flores estranhas e brilhantes, em forma de estrelas, brotaram nas árvores onde antes nunca haviam sido vistas. Os matizes do verde tapete ficaram mais intensos, e, quando uma a uma, as brancas margaridas desapareceram, e floriram dezenas e dezenas de rúbidas abróteas. E a vida despertou nas nossas veredas, porque o alto flamingo, até então invisível, como todos os alegres pássaros resplendentes, ostentou para nós a plumagem escarlate. Peixes de ouro e prata encheram o rio, de cujo seio irrompeu, pouco a pouco, um murmúrio que foi crescendo, afinal, para se tornar uma melodia embaladora mais divina a da harpa de Éolo, mais doce do que tudo, exceto a voz de Eleonora.

E então, uma nuvem imensa, que há muito observávamos nas regiões de Vésper, veio flutuando, toda rebrilhante de carmim e ouro, e pairou tranqüila sobre nós, descendo,dia a dia, cada vez mais baixo, até que suas extremidades descansaram sobre o cume das montanhas, transformando-lhes o negror em magnificência e encerrando-nos, como que para sempre, dentro de uma mágica prisão de grandeza e de glória."




(Trecho do conto Eleonora)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Something's missing in me









Dying Song


- Por que ele?

Era essa a questão. E amor não era a resposta. Tantos outros sentimentos estavam ali, misturando-se uns aos outros, que era injusto que um tivesse privilégios. Queria colocá-los para fora, da forma que fosse, pois não agüentava mais acordar todos os dias com aquela sensação de desgaste que era trazida pela amargura crescente em que se encontrava. Queria pintá-los, desenhá-los, cantá-los, descrevê-los, cuspi-los... Queria que saíssem; que não voltassem nunca mais, nem como lembrança pelos velhos tempos de depressão. Sabia que não era fácil assim; que nenhum conflito se resolvia com um simples desabafo feito para as paredes do quarto.

Fechou os olhos com força e gritou contra o travesseiro. Gritou todos aqueles malditos sentimentos que enchiam seu peito e a impediam de respirar; expulsou todos os demônios que a impediam de seguir em frente. Por mais doloroso que fosse perder uma parte de si mesma, não podia continuar com aquilo. Gritou até que a garganta arranhasse e algo quente invadisse sua boca. Levantou o rosto e viu o sangue no travesseiro.

Tossiu, sentindo a garganta queimar e o sangue respingar nas mãos trêmulas. O rosto, pálido, emoldurado pelos cachos negros, era agora um misto de expressões. As lágrimas, quentes, não tardaram a chegar, acompanhadas de soluços roucos e dolorosos, que a faziam lembrar de todo o sofrimento a que se sujeitara por um minuto de felicidade. Não se sentia mais leve... Sentia-se vazia, como um pássaro morto.

Parada agora em frente à janela olhava para o céu escuro como uma criança para o presente de aniversário. Esticou as mãos, fechando os olhos enquanto imaginava tocá-lo. Via a si mesma correndo por entre bosques, enquanto sentia a leve brisa batendo contra seu rosto corado pela corrida e por uma sensação de estar viva que nunca tinha experimentado antes. Gostaria de permanecer ali, sentindo o cheiro das flores e apreciando a sombra das árvores enquanto o sol se punha. Nada poderia alcançá-la.

Ouvia o barulho das águas, agitadas como se simbolizassem o que ela era. E simbolizariam, se ela quisesse. Poderia ter tudo; ser tudo.

Era o rio.

Era o vento.

Era si mesma, de novo, sorrindo enquanto o céu negro vinha de encontro a ela.

- Acorda, por favor.

O vento tornou-se mais frio e o bosque, mais escuro. A borboleta que voava ao seu redor despedaçou-se aos poucos. Sentiu o chão desfazer-se sobre seus pés, enquanto tudo era tomado pela escuridão. Gritou, caindo no nada que havia se tornado seu mundo.

Um barulho estranho e constante, quase como um bip, a fez tampar os ouvidos com força. Queria voltar para o seu bosque; ainda tinha que ler os livros que tinha encontrado; ainda tinha que brincar com as lebres e cantar com os pássaros.

- Meu amor...

Ela destampou os ouvidos, limitando-se a virar-se na direção da voz, que agora lhe parecia estranhamente familiar. Permaneceu assim por longos minutos, esperando ouvi-la de novo. Queria chamar pelo dono da voz, mas nada saía de sua boca por mais que se esforçasse. O desespero começou a tomar conta de si, fazendo-a engasgar com a própria saliva na tentativa de pedir ajuda.

- Ela não vai morrer, não é?

Viu uma luz fraca se acender e decidiu segui-la, sentindo o vento frio bater cada vez com mais força contra seu rosto. Os olhos ardiam pelas lágrimas que, como sempre, nunca se atrasavam. Permaneceu caminhando na escuridão, sendo guiada pela luz trêmula pelo que lhe pareceram incontáveis minutos, até que o vento parou. O bip voltara.

Fechou os olhos com força e quando tornou a abri-los encontrou um quarto de hospital e dois olhos castanhos a encarando. O rapaz, agora debruçado sobre a cama, não conseguiu conter uma lágrima que escorreu rapidamente por seu rosto e tomou a menina nos braços, apertando-a contra si com força. Ela pôde ouvir seu coração bater com força e fechou os olhos para se concentrar somente naquele barulho que soava como música para seus ouvidos.

Ela se lembrava daquela música.

Era a que estava tocando enquanto ela tomava os comprimidos...

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Janeiro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"I feel certain that I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier 'til this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that — everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer. I don't think two people could have been happier than we have been. V."

Virginia Woolf's suicide note

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

It's never easy to say goodbye


Passou a mão sobre os olhos numa tentativa boba de secar as lágrimas que insistiam em cair. Fungou baixo, olhando para o garoto abaixado na frente da cômoda, de costas para ela. Segurava a caneta com força, escrevendo nervosamente no papel branco. Levantava a cabeça e respirava fundo vez ou outra, como se procurasse alguma inspiração ou tentasse se lembrar de alguma palavra. Ela não pôde deixar de sorrir, desviando lentamente o olhar para a janela do quarto.

Queria conseguir agir de forma diferente, sem ficar chorando e desejando que o tempo não tivesse passado tão rápido, mas não conseguia. Detestava ser fraca na frente das pessoas e detestava mais ainda mostrar o quanto era fraca na frente dele. Sentia-se estúpida, como se não fosse capaz de aproveitar os últimos minutos ao seu lado por estar ocupada demais se debulhando em lágrimas.

Fechou os olhos com força, encolhendo-se na cama bagunçada. Sentia o corpo tremer, embora não estivesse frio. O garoto dobrou o papel sobre a cômoda e virou-se para ela, a expressão de tristeza carimbada no rosto. Ficou de pé e aproximou-se lentamente, como se pedisse um espaço ao seu lado na cama. Ela sorriu fraco, encostando-se na parede e puxando-o para sentar também.

Os braços quentes do garoto envolveram sua cintura, puxando-a para perto até que fosse possível encostar a cabeça em seu peito e ela não demorou a fazê-lo, deixando, finalmente, que os soluços viessem. Sentia o coração apertar no peito, como se fosse explodir a qualquer momento. Nunca pensou que fosse ser tão difícil deixá-lo ir, ficando somente com a incerteza do que seria o amanhã.

- Eu não quero ficar longe de você. - ele disse, quase num sussurro, o que a fez levantar a cabeça para olhá-lo. Viu uma lágrima deslizar rapidamente por seu rosto e fez questão de secá-la.

Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, nem que fosse alguma frase estúpida só para fazer aquele momento um pouco menos infeliz. Chegou a abrir a boca algumas vezes, mas não conseguia fazer com que nada saísse dela. Preferiu permanecer calada, presa em seus pensamentos, fingindo não ter ouvido a frase. Sabia que ia se arrepender daquilo depois, mas, como sempre, se prendeu ao pensamento positivo de que ainda tinha algum tempo, de que aquilo ainda não tinha acabado.

Permaneceram abraçados, ouvindo as batidas do coração um do outro, como se pudessem memorizá-las, talvez para ouvir mais tarde, quando a saudade apertasse e a realidade recaísse sobre seus ombros.

Até mesmo no carro, enquanto pegavam o caminho para a casa da garota, permaneceram calados, somente as mãos se segurando com força, como se houvesse alguma possibilidade delas nunca mais se soltarem. Queria ela que fosse possível, que pudesse ficar ao lado dele por quanto tempo quisesse, e não por quanto tempo fosse determinado. Queria poder abraçá-lo a hora que quisesse, sem aquela sensação horrível de estar presa no tempo, implorando aos céus para que o tempo passe logo e ela possa vê-lo de novo.

As lágrimas insistiam em embaçar sua visão e ela resistiu o quanto pôde, tentando se mostrar ao menos um pouco forte na frente de todos. Não sabia de onde vinha aquela maldita mania de querer esconder os sentimentos, mas não conseguia evitar. Quando o carro parou e ela soube que era hora de se despedir, a única coisa que conseguiu fazer foi abraçá-lo com força uma última vez e sair do carro o mais rápido possível.

Estava quase fechando a porta quando o viu esticar a mão e oferecer-lhe um pequeno papel. Ela forçou um sorriso e o pegou, tocando pela última vez em seus dedos e olhando uma última vez em seus olhos.

Deixou que a porta se fechasse e permaneceu ali, na beirada da rua, olhando para dentro do carro e para o asfalto quando ele se foi. As lágrimas deixaram de ameaçar e finalmente caíram, fazendo-a fechar os olhos com força e abraçar o próprio corpo para proteger-se do frio repentino que sentia.

Abriu o papel com dificuldade, vendo as lágrimas caírem e se misturarem com a tinta, formando pequenos borrões. Nele, em letras pequenas e tremidas, ela pôde ler o princípio de uma carta: “I still have a reason...”

Soluçou alto, tampando o rosto com a mão livre. Não se importou com as pessoas que passavam olhando e muito menos com a chuva que começava a cair. Olhou para o final da rua, imaginando que o carro ainda estivesse ali e resistindo a vontade de correr até onde fosse possível vê-lo. Queria ter tido a coragem de dizer o quanto ia sentir sua falta. Queria ter dado a si mesma a chance de se despedir. Queria dizer que ela também tinha uma razão... E só uma.

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Janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

"Sem a preocupação de amanhã estar a um oceano de distância"

From my cold dead hands

Blood And Tears

Cheguei à conclusão de que nunca tinha visto o céu tão azul. Ando perceptiva, você sabe. É que eu quero ter algumas boas lembranças para passarem diante dos meus olhos naquilo que dizem que acontece quando se está perto da morte. Como naquele dia em que a gente acordou abraçado, você se lembra? Estava nublado e a gente nem lembrava que horas tinha caído no sono, mas sabia que a noite tinha sido boa.

Talvez você ache bobeira minha ficar escrevendo sobre isso quando se tem tanto para escrever, mas eu não ligo. Tenho todo tempo que eu quiser. A porta está trancada e todos acham que eu estou bem.

Resolvi parar com os remédios. Já tinha te dito que ia fazê-lo, mas só agora tomei coragem. Confesso que estava com medo do que ia invadir a minha mente, mas isso passou, assim como todo o resto. Sei que isso te faz mal; que te fez mal desde o início, mas eu não posso evitar. Não é como se eu quisesse me controlar.

Está tudo tão silencioso que sinto meus ouvidos doerem cada vez que meu coração bate com força em meu peito. Queria que você estivesse aqui. Para me impedir, talvez.




A garota respirou profundamente, sentindo o medo transbordar em seus olhos através de lágrimas que logo correram por seu rosto marcado. Fechou os olhos, sentindo a fria lâmina em suas mãos trêmulas. Sabia que depois que fizesse o que planejava não teria como voltar atrás e era exatamente isso o que a impedia de ir em frente.

Pela primeira vez na vida sentia medo do que era capaz de fazer consigo mesma. Sentia-se como um monstro que ao invés de destruir os outros destruía a si mesmo. Tudo o que ela queria era que alguém arrombasse a porta do quarto e a impedisse, por mais que soubesse que isso não ia acontecer.

Tinha disfarçado bem demais para alguém pensar que havia alguma coisa errada. Sempre forçava um sorriso ao entrar pela porta da cozinha, perguntando aos outros moradores da casa como tinha sido o dia e se estava tudo bem. Assim como sempre ia às consultas com o psiquiatra e comprava todos os remédios e fingia tomá-los, mas os jogava na privada.

Queria, também, que alguém tivesse sido capaz de salvá-la do ódio e da autodestruição. Alguns tentaram, mas para a garota, parecia que não tinham tentado o suficiente. Às vezes se sentia mal por culpá-los por seus problemas, sabendo que tudo não passava da sua mania de não aceitar que estava errada e que precisava mudar.

Prefiro morrer a viver com a morte em mim”, repetia várias vezes na frente do espelho, tentando se convencer de que não havia outra saída. Sabia que havia. Sabia que podia ouvir o que o psicólogo dizia; que podia tomar os remédios; que podia encontrar novos amigos e ocupar o maldito tempo livre que a permitia pensar demais. Sempre chegava à conclusão de que era inútil demais para fazer algo por si mesma e acabava sentada no chão do banheiro, observando o sangue correr por sua pele.

E era praticamente assim que estava nesse momento. Sentada no chão, com a lâmina fina nas mãos trêmulas e uma enorme quantidade de bebida alcoólica e comprimidos em sua frente. Fechou os olhos com força, lembrando-se do que sentiu ao conhecer aquele para quem o bilhete era destinado. Gostava de saber que o fim de sua vida tinha começado com uma cena bonita, nem que esta fosse só para compensar as ruins que estavam por vir. 

Tomou alguns goles da garrafa, sentindo a garganta queimar e o rosto enrubescer no mesmo instante. Esperou alguns segundos até começar a tomar os comprimidos, perdendo a conta de quantos conseguiu engolir antes de começar a sentir um nó crescente na garganta. Bebeu mais um pouco e respirou fundo ao sentir o resultado da pressão que exercia na lâmina. A visão que teve ao abrir a mão foi o suficiente para que ela tivesse que começar a respirar mais rápido para não perder a consciência. A visão escurecia mais a cada segundo e o desespero passou a ser a única coisa que conseguia sentir. O tempo estava se esgotando. “Rápido demais”, pensou.

Esticou o braço, enxergando com dificuldade as veias esverdeadas no antebraço. Tinha que ser rápida e precisa. Encostou a lâmina na pele e a deslizou com toda a força e rapidez que conseguiu encontrar no corpo trêmulo. A pele se abriu como nunca antes e o sangue começou a correr com uma rapidez impressionante. Sabia que tinha rompido uma veia, coisa que sempre temeu.

Logo as lágrimas de arrependimento chegaram, fazendo-a engasgar com a própria saliva e sufocar com a falta de ar. Os soluços se tornaram cada vez mais altos, até o ponto de que ela não conseguia mais ouvir nada além do próprio desespero transformado em sons estranhos e murmúrios indecifráveis. Os olhos começaram a se fechar involuntariamente e o seu desespero aumentou, transformando-se em gritos de horror. Sentia um formigamento estranho que começou pela ponta dos pés e logo estava na boca do estômago, não demorando muito para alcançar o peito e logo depois a garganta.

O frio não tardou a chegar, fazendo-a fraquejar e quase fechar os olhos por um instante. Ainda conseguia ouvir os próprios soluços, que agora pareciam simples sussurros. Algo estranho, que ela pôde jurar não ser daquele mundo só e simplesmente pela sua presença, invadiu o quarto e ela soube que era hora. Permitiu-se sussurrar a palavra que tanto quis que tivesse saído de sua boca na hora certa (“perdão”) e finalmente fechou os olhos, encontrando os expressivos olhos castanhos que pareciam tê-la esperado a noite toda. Os olhos do homem que logo seria acordado com a notícia de que ela finalmente tinha cumprido sua promessa.

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Janeiro de 2012