sábado, 26 de dezembro de 2015

Já passou tanto tempo, loirinho...

Minha vida poderia ser diferente.
Era o que repetia incessantemente, sentada na frente da televisão. Os olhos focavam o nada, perdidos há muito nas possibilidades que sequer deram a ela a chance de alcançá-las. Tudo passou muito depressa, eu sei, pequena. Parece que foi ontem que você pisou na faculdade pela primeira vez, suas pernas tremendo enquanto você entrava na sala de aula. Quem diria que hoje você teria que crescer? É assim mesmo, meu bem, a vida passa e quando a gente percebe a gente já não pode mais assistir desenho o dia inteiro.
Do que vai adiantar você cobiçar a vida de quem está do outro lado do corredor, se o seu caminho já está quase completo? Resta um pedaço de papel no seu caderninho de decepções para aquilo que você de fato queria fazer da sua vida.
Se...
Se...
Se... Se tivesse acontecido talvez você não fosse tão sozinha agora; talvez ele pudesse ter gostado de você; talvez tudo seria diferente.
Eu sei que dói, mas é assim mesmo. A gente vai colhendo mágoas e colecionando cicatrizes.

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Janeiro de 2015, achei perdido no bloco de notas

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dia 7

Demorei tanto pra escolher uma roupa que cheguei atrasada. Saí do carro com aquela sensação estranha de não estar vendo nada ao meu redor, andando com pressa na direção da escada rolante. Na cabeça um milhão de coisas, no peito outras mil.

Acho que pensei demais, planejei demais, e subindo a escada rolante e falando com qualquer pessoa no celular só pra parecer despreocupada, eu percebi o quanto eu estava ansiosa. Pra vê-lo. Pra conhecer o cara por trás daquela tela, daquelas palavras, daqueles planos todos. Depois de tanto tempo sozinha - quantos meses, seis, sete? - era até difícil de acreditar que eu finalmente tinha me permitido uma coisa boba dessas. Conhecer um cara. Um cara novo, da internet, que incrivelmente mora a duas ruas da minha casa - "e a gente nunca se viu?!" "pois é, que coisa louca". Ainda mais depois de me fechar tão bem para tudo e todos. 

Ali estava eu, andando meio perdida pelo shopping, procurando o cinema, indo encontrar um cara que eu tinha conhecido há dez dias, numa noite tediosa, e tinha depositado todas as minhas fichas e piadinhas pra quebrar o gelo e esperanças e medos e sentimentos guardados há muito no fundo do armário.

A cada passo meu coração batia mais forte, com a ideia de que uma hora teria que parar de andar e encarar um rosto que talvez não fosse o que eu imaginava - fotos sempre enganam, não é? -, mas acima dessa, a ideia de que aquele cara estaria ali, provavelmente tão nervoso quanto eu, depois de termos compartilhado tantas palavras e risadas e planos.

Era uma ideia boba, a de que aquilo era o início de algo, mas era uma ideia tão certa naquele momento, que eu só me preocupava em parecer legal, fazer as piadas certas, não ser tão esquisita, rir dos comentários bobos, segurar o medo e seguir em frente.

De frente pro cinema eu me sentia uma idiota, nervosa por uma coisa tão normal quanto encontrar um cara. É a coisa mais normal do mundo, não tem motivo pra ficar tão ansiosa, para de tremer, merda, meu rosto ta ficando quente, eu devo estar toda vermelha, merda, cadê ele?

Os olhos grudados no celular, na esperança de que não denunciassem meu nervosismo, me impediram de vê-lo chegando. Foi ele que me viu primeiro. Foi ele que avisou que estava logo atrás de mim. Fui eu que tive que me virar pra encontrar ele. Esse não era meu plano. Meu plano era chegar de fininho, ver tudo de longe, e depois me aproximar com um sorrisinho e dizer que ele tinha chegado muito cedo. Mas fui eu que tive que virar, com o coração batendo a mil, pra ver o tal rosto, todo vermelho, me olhando a distância. Era diferente da foto, mas eu gostei. Gostei porque era ele, afinal. Gostei porque já gostava, porque já esperava o "bom dia" todos os dias de manhã, porque já contava com o "Lari, vou dormir" pra poder dormir também.

A verdade, eu acho, é que eu já tinha me entregado muito antes daquilo. Acho que me entreguei quando respondi o elogio sobre o meu cabelo... Ou quando perguntei se ele tinha alergia a gatos.

Ele veio andando devagarinho, com uma carinha estranha, as bochechas muito vermelhas, e eu não tenho ideia da cara que eu estava fazendo, mas acho que estava sorrindo. E nervosa como sempre, dei um oi frouxo, evitando a qualquer custo olhar pra cima, encarar aqueles olhos que me analisavam, porque odeio me sentir observada, odeio primeiros encontros, odeio não superar as expectativas, odeio ficar com manchas vermelhas no colo, odeio não saber o que fazer com as mãos. Ele também não sabia o que fazer com as mãos, nem comigo, nem com ele mesmo.

A gente parecia muito diferente, ele nerdzinho carente e eu toda explosiva, reclamona, mas naquele momento nós dois éramos dois adolescentes envergonhados, que não sabíamos pra onde ir e nem o que falar.

Fico triste sempre que lembro disso. Porque eu lembro que não o recebi com um abraço apertado, que recusei um beijo no cinema, que fiquei tão nervosa que fui fria em alguns momentos, quando na verdade tudo o que eu queria era mergulhar de cabeça em alguém que também quisesse mergulhar de cabeça em mim.

Mas também me pego sorrindo quando lembro dele olhando pro meu pescoço, perguntando se eu estava com alergia e rindo ao me ouvir dizer que eu fico vermelha quando estou nervosa, mas que ele não podia rir de mim porque estava vermelho também.

Sempre me rende um suspiro lembrar da sua voz, naquele tom baixinho, me perguntando porque eu estava nervosa, pedindo desculpas por ter comprado os ingressos pro filme errado - "falei pro meu amigo que ia ver Hitman...", "você ia ver o que?", "Hitman...", "mas não é Hitman! é Missão Impossível, por causa do Simon Pegg!", "ta de sacanagem? meu deus, desculpa... mas você tava comigo, você não viu na tela?", "não, eu tava muito nervosa e não consegui ler o que tava escrito!", "meu deus, e agora? desculpa desculpa desculpa" -, me agradecendo por encostar no seu ombro...

Meu coração sempre pula uma batida quando eu lembro do beijo no canto da boca, ou quando releio a parte em que, depois de me deixar em casa, ele diz que meu cheiro ficou na camisa dele e que ele queria que tivesse ficado mais... mais do cheiro e mais de mim.

Eu também queria que tivesse ficado mais dele.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Dia 6/Dia 4

Te escrevo com antecedência porque já conheço o desfecho do dia. Tinha guardado, enquanto andava pela Urca, coisas bonitas pra dizer, mas acho que nada dura muito tempo nesse calor de 40° que está fazendo por aqui.

Ontem eu fiquei pensando que começaria o texto de hoje em tom derrotista, lamentando a falta que você me faz nessas tardes tediosas na biblioteca, falando sobre como eu fui um fiasco na prova de Estatística e como estive pensando no quanto a tatuagem que eu queria fazer se encaixa com a situação de agora.

Mas está muito quente - eu até prendi o cabelo - e tem começado a me dar vergonha o fato de eu estar te escrevendo todos os dias como se você ainda estivesse na minha vida (se é que algum dia esteve). Eu tenho que aprender a deixar pra lá... Deixar de sentir um pouco e permitir que a vida substitua certas lembranças. Como a lembrança de você encostado na porta do carro, puxando uma mecha do cabelo e sorrindo.

Um dia a vida vai apagar seu rosto da minha memória e eu vou lembrar só desse sorriso, com um certo incômodo no peito e um pouquinho de saudade do que eu idealizei de nós dois.

Talvez eu tenha mesmo que deixar isso acontecer. Mas, ah, menino, como eu queria que você soubesse...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dia 5/Dia 3

Passei na frente da sua casa. Quer dizer, quase na frente. Passei na rua do lado, mas tem uma travessa nela que me deixa ver a sua casa e a sua garagem. Vi seu carro lá. Lembrei de quando você chegou aqui naquela quarta-feira e pediu pra eu sair logo de casa. Ao mesmo tempo lembrei que você chegou em casa uma da manhã outro dia e eu ainda estou morrendo de ciúmes, por mais que eu não possa, tecnicamente, sentir ciúmes de você. É um saco isso de ter que fingir que não tô ligando muito, quando na verdade estou eternamente angustiada com essa tua teimosia e inconstância. Não consigo ser assim. Não consigo simplesmente me fechar depois de me abrir, e eu me abri pra você sem perceber. Agora não sei o que fazer. 

Eu queria te dizer tanta coisa, queria poder te fazer um cafuné de vez em quando, com sua cabeça no meu colo, enquanto você faz carinho na minha perna e ri das coisas sem noção que eu falo sempre que to perto de você. Queria que você notasse o quanto eu fico nervosa quando te vejo, porque não é tão difícil notar isso quando meu pescoço está todo vermelho e eu insisto em olhar pro chão pra não ter que assumir nada com os olhos. Ai, como eu sonho com tudo que a gente poderia ser. 

Todos os dias eu penso em alguma coisa engraçada pra falar e chamar tua atenção, mas engulo minha vontade em nome do orgulho, e deixo pra lá. Só por fora, porque por dentro eu estou gritando que caramba, eu não vou te machucar, para de ter medo de mim, se entrega logo porque eu seguro a barra, aceita que eu quero de verdade, por mais que eu diga que não quero só pra combinar com o teu não querer, mas para de ser idiota e aceita que eu to aqui e não vou meter o pé quando tiver entediada. Não é segurança que você quer? 

Só não me deixa esperando, já to de molho a muito tempo. Já tá ficando frio aqui fora e eu queria poder deitar e dormir sem pensar que você tá de saco cheio de mim porque eu reclamo do calor, reclamo do frio, reclamo de você não me querer, reclamo de você me querer só às vezes. Me deixa acordar com uma notícia tua, você dizendo que é um idiota por me deixar aqui, que tá vindo aqui em casa pra gente terminar aquele maldito filme que a gente não terminou da última vez, que eu vou ter pelo menos mais uma chance pra gravar teu rosto definitivamente, sem ter que recorrer às lembranças das últimas vezes. Me deixa ter você só mais um pouquinho.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Eu só queria te ver, porra

Você me olha de soslaio com seu sorriso de dentes alinhados que sempre rende um elogio ou outro da minha parte. Eu perdôo o fato de você ter vindo de chinelo, porque gostei dessa camisa larguinha do Darth Vader. Quero comentar o fato de nunca ter visto Star Wars enquanto entramos na fila, mas você está falando tão animado sobre o seu dia na faculdade que eu me perco te olhando.

Como eu gosto de você...
Desde aquele primeiro dia, quando você me agradeceu por encostar a cabeça no seu ombro enquanto a gente via aquele filme horrível. Esse tipo de coisa não se agradece, mas foi tão inocente que me encantou. Acho que foi aí, ou talvez tenha sido aqui na porta de casa, quando eu te beijei e você perguntou se eu o tinha feito porque queria.

Você mexe no cabelo, puxando um cachinho solitário, enquanto fala, nesse teu tom baixinho, que tirou nota baixa na prova, mas que ainda dá pra recuperar. Eu não estou nem aí, na verdade, porque só consigo pensar no quanto eu quero te beijar e no quanto eu quero que você queira me beijar também. Por isso eu estou calada, e você acha que eu estou chateada com o que você disse mais cedo. Eu até estou, mas tento disfarçar, como sempre.

Eu insisto em fantasiar sobre a gente. E enquanto você pede pra atendente trocar o meu refrigerante que veio errado, eu estou pensando no quanto seria legal que você fosse lá em casa qualquer dia desses, pra gente ver algum filme com o Simon Pegg e eu comentar sobre como eu gosto dele por ele me lembrar o meu pai. Ou então que você passasse por aqui enquanto passeia com as suas cachorras, pra gente andar um pouquinho juntos e trocar alguns olhares bobos.

Isso tudo passa na minha cabeça e eu estou evitando te olhar, porque não quero que você deixe de prestar atenção no trânsito pra me olhar de volta. Eu nunca sei o que você está pensando e sempre lamento isso, porque eu sou muito transparente e insisto em falar de sentimentos enquanto você evita se envolver por medo de ter que começar tudo do zero depois.

A gente é muito diferente, mas eu não deixo de ver uma pequena semelhança quando eu estou sentada no seu colo, no banco de trás do seu carro, às duas da manhã, e você aperta minha bochecha depois de me beijar e diz que não sabe o que fazer, porque tem que me levar em casa mas não quer que eu saia dali. E eu rio, porque esse é você de verdade, e eu queria que você nunca tivesse deixado de ser assim. Esse você é o que mais parece comigo... Que também não quero sair do seu colo e ter que me despedir, porque eu sei que depois de hoje você vai se esconder mais de mim, e eu só queria poder te encontrar.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Essa foi a primeira vez que eu chorei por você, meu bem, e você nunca vai saber

Tenho resistido a escrever porque essa é uma daquelas coisas que eu faço quando me sinto encurralada. Aquela voz na minha cabeça não para de repetir: você não escreveu sobre ele ainda... Você tem que escrever sobre ele. 

Não escrevo porque na minha cabeça já ta tudo escrito.
Não escrevo porque dói.

Sempre vai doer, eu acho, porque todos os outros nunca deixaram de doer. Com você não vai ser diferente. A rejeição dói, mas o que dói mais não é ela.
O que dói mais é saber que nenhuma daquelas coisas que eu tinha imaginado, planejado, sonhado vão acontecer. Dói saber que a gente nunca vai estar no seu carro numa noite chuvosa e eu vou poder te contar sobre como as minhas amigas já estão de saco cheio do tanto que eu falo de você. Dói saber que você não vai me olhar assim, de canto de olho, com aquele sorrisinho torto e perguntar "Como assim? O que você fala de mim?"
E dói saber que eu nunca vou poder te contar que eu falo sobre como eu queria que você se permitisse, como eu fico horas, dias esperando uma mensagem se quer, uma demonstração de interesse, um sinal que seja.

Eu nunca vou poder te contar sobre todas as vezes que eu decidi voltar andando do trabalho, mesmo naquele calor que eu odeio, só pra poder olhar de longe pra sua casa e imaginar que você não falou comigo porque estava estudando.

Dói saber que eu nunca vou poder te dar todo o afeto que eu tenho guardado em mim, que não é pouco, porque você nunca vai me permitir isso.

Por isso eu não escrevo. Porque quando eu escrevo eu assumo, não pra ninguém, mas pra mim mesma, que certas coisas não foram feitas pra durar... Que eu não posso controlar o que as pessoas sentem por mim... Que não há nada que te impeça de me procurar, como eu gosto de imaginar, só a vontade.

E assumir dói.