domingo, 24 de novembro de 2013

Volto a dois mil e seis. Pezinhos encardidos passeando pelo assoalho, tropeçando nas quinas dos móveis. Volto ao quarto bagunçado, meio do avesso, paredes cor-de-rosa decoradas com fotos de pessoas que ainda vivem. Triste, não é? Idolatrar quem vive. Quem ainda tem uma casa, uma cama, um cachorro pra cuidar e uma vida pra chamar de sua. Quem não deixou saudades e nem uma lápide pra enfeitar. Parece fútil idolatrar quem ainda dá pra alcançar.

Meu cabelo ainda arma na chuva, ainda acorda bagunçado e eu ainda nem me importo com os cachos dourados que se desfazem durante a noite. Ainda nem me importo com as olheiras, com as espinhas. Nem me importo se meus peitos estão crescendo e tenho que usar sutiã... Nem me importo com muita coisa além daquelas pessoas na parede, todas com olhares vazios na minha direção.

Volto àqueles sonhos de tardes chuvosas, onde as pessoas na parede na verdade podiam me ver e eram elas que me idolatravam. Os pezinhos, ainda encardidos, estão parados. Sem dança. Só o coração que bate forte junto com a batida da música sem significado... Tão sem significado que significava tudo pra mim, que não tinha nada.

Saudade daqueles dentes separados, meio amarelos; daquele cabelo bagunçado de cor indefinida; daquelas olheiras escuras; daquelas pernas finas sem cicatrizes, dos pulsos limpos, sem relevos. Saudade daquela garota meio desengonçada, o patinho feio da turma, que ainda nem sabia que podia crescer...

Parece tão idiota olhar pra trás e ver que tudo é na verdade enfeite. Mas me dói pensar que eu não sou mais aquela garota de pezinhos encardidos... que meus pés cresceram, comecei a usar minhas máscaras e hoje sou só uma forma estranha, uma silhueta estranha atrás do vidro, sem vida, mas que ainda vive...

Morta, porém sonhando? 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

There are wounds that are not meant to heal at all

A luz do sol quase não iluminava mais a mesa no canto do quarto, decorada discretamente por lâminas, seu brilho prateado refletido levemente nos olhos da garota. Tinha dividido todas por tamanho e marca, pois era assim que gostava que ficassem. Lâminas pequenas nunca se misturavam com as grandes, grossas nunca com as finas, de barbeador nunca com as de estilete. Respirava profundamente, os dedos finos ensaiando o primeiro toque nas amigas de longa data.

Por muito tempo havia esquecido sua pequena coleção, guardada sob as roupas na gaveta que ninguém abria. Os dias estavam mais quentes e as pessoas mais desconfiadas e, afinal, era desconfortável andar sempre com roupas de frio. Queria sentir o vento batendo em seus braços, em suas pernas, queria se sentir parte daquilo tudo, ter uma vida sem segredos, e não se importar com marcas avermelhadas embaixo de mangas grossas.

Os dias estavam mais coloridos, também, agora que os problemas tinham dado uma trégua, agora que seu cabelo e maquiagem pretos nem combinavam tanto assim com seu humor, meio de bem com a vida, meio esquecida do mundo. Embora se sentisse meio diferente, desanimada, não se permitia chorar e nem pensar por muito tempo. Só sobrevivia, ali no meio das pessoas, sem querer pensar e nem agir diferente. Não queria mais ser ela mesma, e por isso, não era mais nada. Era apenas uma garota com cicatrizes espalhadas pelo corpo. Não respondia quando perguntavam, dizia que era uma longa história, e vivia como se elas não estivessem ali, embora vez ou outra se pegasse analisando os relevos estranhos nos braços.

Tinha até vergonha às vezes, coisa que nunca sentira antes, quando resolveu que não esconderia mais nada. Vergonha por parecer fútil aos olhos dos outros, como se as marcas fossem um pedido desesperado de atenção, coisa que nunca foram. Eram apenas a forma que conseguiu de marcar em si mesma seus problemas e frustrações, transportando-os de dentro pra fora. Melhor sentir na pele que no peito. Melhor sangrar que perder a cabeça de vez. Alívio.

Os dedos, a centímetros das lâminas, tremiam. Sua respiração, ainda profunda, não denunciava o nervosismo que sentia. Seu coração batia forte contra o peito, como se pedisse aos céus que ela tomasse logo a coragem para tocá-las. Pouco tempo depois a ponta de seu dedo tocou a primeira lâmina e um arrepio passou rapidamente por sua espinha. Um sorriso se formou num dos cantos de seus lábios e seus olhos se encheram se lágrimas. Céus, como sentia falta daquilo!

Sentia falta de quando, no chão do banheiro, seus dedos trêmulos pressionavam com força aquela coisinha pequena, prateada, fácil de quebrar, fácil de esconder, contra a pele e com rapidez faziam um pequeno ou grande corte, dependendo do humor, dependendo da situação e da necessidade. Sentia falta de olhar pra dentro do corte, vê-lo se encher aos poucos daquele sangue tão vermelho, tão puro... Sentia falta de levantar ou abaixar o braço para controlar seu curso; de vê-lo pingar no chão; de tampar a ferida com uma blusa velha. A sensação que tinha agora, ao tocar naquilo, era tão angustiante quanto foi na primeira vez.

Já sabia tudo o que podia fazer, já tinha testado seus limites e desistido de ultrapassá-los. Nunca quis dar adeus à dor, afinal. Queria senti-la o máximo que podia e acabar com parte dela abrindo os pulsos e braços e ombros e coxas e canelas. Precisava daquilo, mais do que da paz, da afeição, da honestidade dos outros. Precisava daquilo e só daquilo. Era o que queria sentir antes de morrer. Pena que o paradoxo não a permitia ir além.

Sentada ali, na frente da mesa, se sentia tão pequena quanto sempre foi. O coração batia forte contra o peito, mas parecia oco, leve demais para fazer alguma diferença. Sentia-se como um pássaro, ínfimo, inútil, facilmente substituível por qualquer outro com o mesmo canto. Pensava que seria diferente a sensação de encarar aquilo tudo de novo. Pensava que ao tocar aquelas lâminas sentiria saudades, mas não vontade de voltar ao passado e sentir tudo de novo... Pensava que sentiria pena de si mesma, por ter sido tão miserável, e sentiria orgulho de ser como era agora, livre de medos e angústias. Não sabia se devia se sentir decepcionada ou indiferente, afinal, era o que era agora: indiferente a todo e qualquer sentimento além do orgulho.

Seus olhos se encheram de lágrimas e ela levantou a cabeça para impedi-las de cair. Não queria admitir a derrota e nem parecer fraca, embora ninguém pudesse vê-la. Não queria admitir para si mesma, isso sim. Queria continuar fingindo que era forte, que conseguiria sem ajuda, que não precisava de ninguém, como nunca precisou; que poderia muito bem se virar sozinha, sendo com lâminas ou com comprimidos ou com a porra da indiferença que resolvia todo problema ou frescura. Pra que depender dos outros, afinal? Ninguém nunca servira para nada.

O medo a impediu de abrir os pulsos dessa vez. Não o medo da morte, mas o do julgamento errôneo das pessoas ignorantes que veriam o resultado tempos depois. Queria cobrir as cicatrizes, maquiá-las, tatuá-las, escondê-las dos olhos estúpidos que a veriam. Eram dela, eram o segredo que guardou para si mesma e embora o mundo soubesse, ainda era só dela.

Largou a pequena lâmina sobre a mesa, sem se importar se estava perto ou não das lâminas grandes. Olhou para seu próprio corpo, para as próprias marcas espalhadas por ele. Acariciou lentamente cada cicatriz, grande ou não, e lembrou-se de cada uma delas. Eram dela e de mais ninguém. Ninguém nunca saberia o que elas tinham para dizer e nem o que elas significavam. Eram só dela.

A luz do sol já tinha se extinguido totalmente do quarto e uma luz pálida, estranha, começava a iluminar o piso escuro. Já não era possível ver a mesa decorada pelas lâminas de diversos tamanhos e nem a caixa onde ficavam guardadas. Visível mesmo, apenas uma garota, cabelos cacheados cobrindo o rosto, acariciando os próprios pulsos, lágrimas caindo sobre suas coxas.

As cicatrizes contavam uma só história, como se cantassem calmamente em seu ouvido, consolando seu choro silencioso.


Ela não precisava de ninguém, pois tinha a elas. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Expresso

O vento batia forte em seu rosto enquanto a garota corria descalça pela areia suja. Seus pés doíam devido aos tropeços repentinos. A respiração ofegante permitia que a areia entrasse em sua boca, junto com um gosto amargo que não sabia decifrar. Atrás de si, uma luz amarelada cada vez mais próxima. Não sabia de onde vinha, mas sabia que tinha que escapar... Escapar... Como a areia fina entre os dedos esbranquiçados. Como a vida, breve, entre os suspiros desesperados de...

O homem tossiu alto, sua tosse seca ecoando pelo quarto e morrendo nos ouvidos despreparados da garota debruçada na cama. Ela acordou assustada, como se a tosse fosse o último susto de um sonho ruim. Esfregou os olhos numa tentativa de enxergar melhor o que se passava e percebeu que já havia anoitecido.

As horas passavam rápido naqueles tempos, como se o mundo girasse em um ritmo diferente. Perguntou-se se tudo aquilo era sonho ou realidade, enquanto se levantava para olhar pela janela. Nada viu além do brilho pálido da lua iluminando as árvores. Suspirou. Seu corpo doía, os pés estalando de forma incômoda enquanto ela voltava em passos curtos para a cadeira ao lado da cama. Olhou brevemente para o homem deitado, ainda dormindo, como se todas as preocupações recentes fossem apenas assuntos sem importância.

O rosto marcado pela idade lhe parecia tão calmo que ela se obrigou a observá-lo por mais alguns instantes, sem se importar com o quanto forçava a visão para fazê-lo. Suspirou novamente, mas dessa vez trazia no suspiro um ar cansado, mas inspirado, quase sonhador. Gostava da imagem do homem deitado na cama, face calma, preso nos sonhos que talvez lhe dessem minutos de paz num mundo diferente daquele. Queria que houvesse uma chance de salva-lo, fosse como fosse.

Sentou-se na cadeira, demorando a achar uma posição confortável que a permitisse olhá-lo e encostar-se à cama ao mesmo tempo. Antes que pudesse fechar os olhos para voltar a dormir, uma tosse forte, como aquela que a acordara, invadiu o quarto. Olhou preocupada para o homem, somente para encontrá-lo a encarando com seus olhos cinzentos.

“Não sabia que estava acordado”, disse. A voz baixa soava rouca. “Como você está se sentindo?”

“Isso é irrelevante”, respondeu o homem, a voz grave, severa, como sempre. O olhar parecia mais pesado que antes, como se tivesse acordado de um pesadelo e determinado a fazer algo a respeito. Respirava com dificuldade, puxando o ar com força e não demorando a devolvê-lo. Levou a mão até a mão da garota e a deixou lá. Os dois se olhavam, ambos presos em realidades diferentes, mas dividindo as mesmas angústias.

A garota sentia o coração pesar no peito, batendo quase que culpado. Seus olhos se apertavam para enxergar melhor enquanto o homem desviava o rosto para a janela. A respiração cada vez mais difícil denunciava os pulmões cansados. Fechou os olhos por um breve instante e ao abri-los novamente, virou-se bruscamente para a menina.

“Está ouvindo?” perguntou, a excitação quase disfarçando por completo a falta de ar. “Ele está vindo”. Seus olhos brilhavam no escuro do quarto e a menina não soube interpretar o que queriam lhe dizer. Optou pela angústia, ansiedade. Chegou a abrir a boca para perguntar sobre o que ele estava falando. “Ele está vindo”

“Quem?”

“O meu trem, Susie” o homem respondeu vagamente, apertando a mão da garota com força. Olhava fixamente para a parede, como se estivesse esperando por um som a mais. “Ela está vindo me buscar”

“Pai, do que você está falando?” estava nitidamente preocupada, quase tomando coragem de puxar o rosto enrugado do homem em sua direção e obrigá-lo a dizer algo que fizesse sentido.

“Susie... Olhe...” levantou o dedo com dificuldade, apontando para a janela. Uma luz amarelada surgia ao longe. “Ela está vindo” fechou os olhos e pôde ver nitidamente a estação antiga, presa no tempo de sua memória, e pessoas andando apressadamente pela plataforma estreita. No meio da multidão, uma mulher esperava por ele. Parecia preocupada, mas disfarçava bem enquanto sorria e acenava de batom vermelho e vestido acinturado. Trazia consigo um brilho inocente no olhar.

Seu coração batia tão rápido que seus pés quase não o acompanhavam. O trem chegou junto com ele, o barulho dos trilhos atrapalhando o cumprimento dos dois. Ao fim, bastou que se olhassem por um instante. Ela subiu os degraus depressa, a mala na mão parecendo tão leve quanto seu coração de andorinha, batendo forte contra o peito na esperança de voltar a vê-lo. Virou-se para se despedir e encontrou os olhos cinzentos do homem, marejados, e seus lábios, quentes, esperando pela despedida apropriada.

Abriu os olhos apenas para encontrar mais uma vez o quarto, antes escuro, iluminado pela luz amarelada. A garota ao seu lado – que nunca deixaria de ser uma garota aos seus olhos - levantava o rosto na direção da janela, a mesma expressão curiosa da mãe, o mesmo olhar confuso. O trem apitou e ele pôde sentir mais uma vez seu perfume antes de olhar diretamente para a luz que o levaria de volta para ela.

O barulho se afastou aos poucos e a garota, perplexa, ainda encarava a janela. Passou a mão pelos cabelos oleosos e prendeu uma mecha atrás da orelha. Começou a falar enquanto se virava para o pai: “Como isso é possi... Pai?”


Os olhos sem brilho encaravam o teto. Lágrimas caíram logo em seguida em seu rosto impassível, mãos tocaram seus braços, seu peito e, por fim, seus olhos. As pálpebras foram fechadas com delicadeza... O barulho não fazia mais diferença, e a vida seguiu seu curso; trem sem paradas.


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apenas uma visão diferente do curta dele; obrigada pela ideia, pelos sonhos e pela esperança de uma coisa melhor pra nós dois. estamos aqui e vivemos, superamos nossos medos e mudamos a cada dia. espero (e sempre esperei) fazer parte da tua vida tanto quanto você faz da minha... espero que possamos pegar esse trem juntos.

terça-feira, 30 de julho de 2013


(Beksinski)

“Ah, mas a pintura na parede! Tão vívidas, as figuras na pintura, criaturas informes que eram na verdade grandes manchas de tinta amarela e vermelha. Tudo que parecia vivo estava vivo – aquela era uma possibilidade diferente. Alguém pinta seres sem braços, nadando em cores cegantes, e eles terão que existir assim para sempre. Será que podiam enxergar com todos aqueles olhos minúsculos, espalhados? Ou enxergavam apenas o céu e o inferno de seu próprio reino brilhante, ancorados aos pregos na parede por um pedaço de arame retorcido?”

(A Rainha dos Condenados, Anne Rice)

domingo, 21 de julho de 2013

Julho IV

Minha inspiração morreu. Deu seu último suspiro quando eu fechei o portão na sua cara e me escondi embaixo dos travesseiros para chorar sozinha. Antes disso, embora cambaleante, ela se erguia quase todas as manhãs junto com essas tuas pálpebras oleosas e cílios compridos. Ficava radiante e borbulhava na minha cabeça quando você sorria sem mostrar os dentes. Era quase como uma adolescente apaixonada, se encantando com qualquer demonstração de afeto, colorindo as folhas em branco da minha mente e decorando-as com palavras bonitas.

Era uma criança mimada, na verdade. Acostumou-se com suas migalhas de atenção, decidiu que seria só tua. “Há males que vêm para o bem”, ela me dizia ao ouvir as suas palavras duras ou verdades dolorosas, e me levantava da cama para me fazer colocar meus sentimentos em parágrafos mal divididos que ninguém lia.

Acostumada a te ter sempre por perto, mesmo que do outro lado do mundo, nunca levou muito a sério as brigas e desencontros, por isso se negava a dizer adeus. “Dessa vez é sério”, eu confessei baixinho entre os travesseiros, enquanto meu queixo tremia e esses teus olhos me encaravam suplicantes, e ela quase não acreditou. Teve que acreditar, no entanto, quando meus olhos encararam a calçada ao invés dos seus, e o que tinha de você dentro de mim foi arrancado pelas minhas mãos frias e unhas malfeitas. Foi aí que ela suspirou uma última vez e decidiu se agarrar naqueles fios de esperança que saíam do meu peito.

Agora estou sozinha, o peito vazio e a escuridão ao lado. Não me sobrou nada de ti (nem dela), nem mesmo as palavras.

sábado, 20 de julho de 2013

Julho III

Essa tua covardia disfarçada de coragem não me engana hoje como já enganou um dia. Já gravei teus movimentos e seus pensamentos não são novidade. Nada de ti me surpreende a não ser o que tem guardado de mim. Não somos mais um só, se é que um dia fomos. Quem sabe essa ferida fecha semana que vem, quem sabe eu ignoro tua voz e vou embora de vez.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Julho II

Às margens do rio das minhas memórias, uma lembrança solitária se sentou e chorou. Trazia consigo, nos braços curtos, um sentimento há muito esquecido. Ele, quase morto, olhava na direção das águas turvas da minha mente, quase que numa prece silenciosa para se afogar em suas cenas podres e desgastadas, arrastadas lentamente pela fraca correnteza.

Eu observava ao longe enquanto a lembrança, melancólica, torcia a barra do vestido branco. Sem rosto, ela ainda chorava. Era uma mistura de tristeza com alívio, revestida por angústia, vestida de branco para simbolizar a paz que nunca significou. Uma lembrança ruim, e nada mais.

A lembrança às margens do rio das minhas memórias era parte de mim que não queria morrer e nem deixar que o sentimento atrelado a ela se fosse: o agarrava com força, cravando as unhas em suas costelas para não o perder de vista, como se pudesse salvar aos dois de uma vez. Ela, sem rosto, sem nome, tão apegada à vida, não sabia a hora de dizer adeus. E chorava, chorava...

Quando despertou minha atenção, pude ouvir sua voz, ou a voz que ela reproduzia, o som que coube a ela guardar com zelo para que não se confundisse com nenhum outro. O som que ela lutou para garantir que fosse ouvido nitidamente quando fosse preciso. Um choro baixo, sem soluços.

Ela me olhou, sem olhos, e eu a desvendei. Ela era a noite fria, sem chuva, no fim de julho, onde eu, deitada na cama, sentia pena e medo de mim mesma. O som, o choro baixo sem soluços, escapava da minha boca entreaberta e ecoava nas paredes sujas do quarto. O sentimento, quase morto em seu colo, enchia meu peito de algo que eu não sei descrever. E por isso, por ser indescritível, ela o segurava com tanta força, para que eu o sentisse mais uma vez, mais uma única vez, antes que ele se fosse para sempre.

Eu sorri para ela, enquanto seus braços curtos erguiam seu protegido e o soltavam, para que ele cumprisse seu propósito. E quando isso aconteceu, eu soube que ela também tinha cumprido o seu. Ela, ali nas margens do rio, ficaria marcada como uma noite fria de julho em que eu me senti completa: finalmente havia encontrado a mim mesma, vagando por ali, nos tais rios e campos desconhecidos da minha mente.

E ali, nas margens daquele rio, a noite fria de julho chorava e deixava a água cobrir seu corpo aos poucos, enquanto me dizia com sua voz triste que também não se esqueceria de mim.

Julho

Deitei no chão e chorei, enquanto a escuridão, deitada na cama, me olhava com olhos brilhantes e me acariciava, seus dedos finos entre meus cabelos. Eu ali, de bruços, peito e cara no piso frio, sentindo a desgraça de amar e não ser amada, de doar e não receber, chorei.

Sem me importar com beleza ou aparência, vomitei a mim mesma naquele chão frio que acolhia minha carcaça, morta, inútil. As lembranças nada eram além de segundos do passado, borrões sem importância. Ali, vomitada no chão, minha alma chorava, sangrava por todos os poros. E eu, que me conhecia tão bem, me perdia nas tentativas de me expressar além das palavras ditas para mim mesma, além dos cortes fundos e dos soluços sem destino ou direção.

Chorava. Chorava perdida e desamparada, vomitada no chão do quarto. Chorava enquanto a escuridão me consolava com seus olhos tristes e dedos finos. “Acalma-te, filha minha, que tu nunca estarás só enquanto tiveres a mim.”

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Preferi me perder por aí a encontrar sempre as mesmas lembranças pela manhã.

sexta-feira, 7 de junho de 2013


When you become aware of the silence, it's too late to let it go: it becomes a part of you, a part people can't see. Still, it's running through your veins, like the blood you used to love... It's passing before your eyes, like the life you used to live; it's taking you away from this heartless world.

Because when you become aware of the silence, the silence becomes aware of you.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Tell him I said Hello

Você matou a nós dois. - é o que eu quero que o digam se eu não passar dessa noite. Pensem o que quiserem, vocês nunca me conheceram, nunca souberam o que passa pela minha cabeça. Talvez eu seja mesmo doente: ninguém levou a sério. Talvez o que eu sinta seja algo fora do normal, talvez a intensidade dos meus sentimentos seja muito para mim.

Eu estou com sono.

Meus dedos estão ficando dormentes.

Digam a ele que ele podia ter mudado tudo. Digam que as coisas podiam ter sido diferentes. Digam que eu sei que também errei, mas que as palavras me machucaram demais.

Não consigo pensar direito. Meus pulsos doem e as lágrimas estão mais quentes que o normal.

Queria apenas que tudo passasse, que tudo acabasse... Eu não devia estar aqui. Não devia estar em lugar nenhum.

Vocês nunca vão entender a angústia.

Nem eu entendo.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Onde eu estava?


“Onde eu estava?” Onde você estava? Eu vou te dizer onde você estava:
 Estava a oito mil km de distância, sentado na cadeira, com os dedos no teclado, me escrevendo mentiras agradáveis de ler; estava andando de noite na rua, com sua jaqueta de couro, cachecol e calça apertada, mas sem luvas, porque outras mãos esquentavam as suas; estava no palco, fazendo seu show pra si mesmo, com a cabeça nas nuvens ou nas pernas daquela estrangeira; estava num bar levando um tapa de quem nunca te deu valor; estava até mesmo aqui, a um viaduto de distância, dizendo a outras o quanto você era sozinho comigo, o quanto você gostaria de fazer sucesso e comer groupies, o quanto você gostaria de conhecer o novo triplex dela, porque ela sim é rica, ela sim te interessa, ela sim pode pegar um avião quando quiser.

Era onde você estava. Em todas as coisas nas quais eu não existo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

I miss you sometimes

How's your life, what's it like there? Is it all what you want it to be? Does it hurt when you think about me?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Perco-te


Tento sempre me perder nos olhos de outros e te esquecer em beijos insinceros. Não me permito me encantar por ninguém senão você, embora nosso encanto já tenha perdido a validade. Tu me contas segredos de pé de ouvido enquanto a televisão nos mostra tempos antigos e vidas em preto e branco; me encantas pintando meu mundo em doze cores e eu sorrio para a felicidade, passageira, traiçoeira; perco-me em braços frios e verdades falsas, vozes mansas e toques curtos.

Perco-te nas mentiras e planos, na falta de vontade e apatia que nada mais me oferecem além da solidão. Perco-te todos os dias nesses lugares que não estou, nessas músicas que não te canto, nesses textos que não te dedico.

Perco-te.
Perco-te e não me acho.
Nem em mim, nem em ninguém.