domingo, 11 de novembro de 2012

You Can Be Me When I'm Gone


Tomei três banhos numa tentativa fracassada de me limpar de mim. Eu me sinto uma enorme camada de sujeira difícil de ser limpa. Passo meus dias tentando me limpar, tentando tirar todo esse desconforto de mim. A sensação de fracasso e o eterno gosto amargo na boca só crescem mais a cada dia, fecham minha garganta e me impedem de respirar. Engasgo em minhas lágrimas de arrependimento por ter me deixado envolver em algo tão impuro como eu mesma. Como pude me deixar levar por algo tão complexo eu ainda não consigo explicar.

Não consigo explicar nem mesmo onde estou. Tudo parece uma grande mentira. A realidade me vem aos olhos como uma cena por trás de um vidro embaçado, onde não vejo nada além de vultos e sombras. A verdade parece estar tão distante quanto todo o resto, como se o dormir fosse o acordar. Como se minha vida estivesse presa em sonhos que acabam com o abrir dos meus olhos e não se repetem mais.

Lembranças se perdem e eu não consigo mais me concentrar em nada além da minha dor. Nada além do sangue escorrendo por meus braços e pingando no chão. Eu não posso mais viver em mim.

Essa pele não é a minha, esse corpo não se encaixa com o que tem dentro de mim. Eu não caibo em mim e não sei se caberia em algum lugar... 
Eu vou embora. Nada levo além de mágoa. Nada levo. Te deixo para trás junto com minhas lembranças.

Não posso mudar o passado.
E o futuro não existe.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Meu Anjo


Meu anjo tem o encanto, a maravilha
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.

Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.


Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.

Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte num desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!

Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!

(Álvares de Azevedo)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Deep Inside Of Her




Mãos grandes e firmes percorreram seu corpo até chegar a barra de sua camisa. Dedos longos passearam por sua barriga, percorrendo o curto caminho até o cós de sua calça, seu botão e seu zíper. O barulho da respiração dos dois era a única coisa que podia ser ouvida, além dos risos tímidos que a garota soltava entre os lábios do rapaz. Suas línguas brincavam uma com a outra incansavelmente, hora ou outra se separando para que ele pudesse beijar seu pescoço, colo e seios. Ela, de olhos fechados, sentia tudo como se fosse sua primeira vez.

Tirou sua camisa, jogando-a no chão e chutando-a para longe. Seus seios inchados e redondos cabiam perfeitamente naquelas mãos, ficando marcados por suas unhas. Ela o puxou mais para perto, arranhando suas costas enquanto ele mordia seus mamilos rígidos e tirava sua calça. Logo seus dedos longos estavam em sua virilha, e pouco depois, ainda por cima da calcinha, em seu clitóris. Ela gemeu baixo, inclinando levemente a cabeça para trás.

- Tira. – ele pediu, afastando-se um pouco da garota, que sorria ainda sentada na mesa. Seus pés tocaram o chão frio e ela sentiu seus pelos se arrepiarem. Tirou a calcinha devagar, olhando para ele. Seus olhos verdes a acompanhavam, e não demorou muito para que ele a pegasse no colo e a colocasse na cama. Deitou-se sobre ela, sentindo o corpo quente contra o seu, e voltou a beijá-la.

Ela sentia seu coração bater com força contra seu peito, os olhos fechados, as costas se arqueando enquanto ele brincava com seu clitóris. Sua respiração ofegante hora ou outra era interrompida por gemidos. Ele a penetrou rapidamente com dois dedos enquanto sentia seu clitóris inchar sob seu polegar e não demorou muito para que ela gozasse, soltando gemidos baixos e arqueando as costas. Suas pernas tremeram por não mais que trinta segundos e ela começou a sorrir, abrindo os olhos para encará-lo.

Respirou fundo ao encontrar aqueles olhos verdes fixados nos seus, um sorriso torto brincando em seus lábios. Ele aproximou-se devagar, encostando seus lábios nos dela para depois percorrer sua extensão com a ponta da língua e só depois procurar a dela.

Ela o guiou para dentro de si e pôde sentir cada centímetro seu enquanto ele a penetrava devagar. Os dois corações batiam rapidamente um contra o outro e ela afundava suas unhas em suas costas suadas. Os olhos fechados a permitiam apreciar o momento de uma forma que ela nunca tinha feito antes. E também a faziam lembrar-se de coisas que ela não gostaria.

Como o garoto do outro lado do oceano. Seus olhos castanhos, delineados por cílios grandes e negros, brilhando sob a luz da rua que entrava pela janela e iluminava fracamente a sala onde os dois, deitados no sofá, faziam amor pela primeira vez. Não sexo. Amor. Seus olhos ainda estavam inchados por causa das lágrimas e ela sentia seu coração se desfazendo aos poucos. Queria abraçá-lo e não soltá-lo nunca mais. Queria que ele fizesse parte dela, que fossem só uma pessoa. Sentia o desespero invadir seu corpo enquanto ele afundava o rosto na curva de seu pescoço.

Abriu os olhos.

Suas costas suavam contra os lençóis amassados da cama do garoto que agora a penetrava com força, puxando seus cabelos longos e desarrumados. Ela gemeu contra seu ombro, apertando seus dentes contra o mesmo enquanto ele mordia o lóbulo de sua orelha.

- Quero gozar na sua boca. – ele disse depois de um tempo, levantando a cabeça para olhar nos olhos da garota enquanto aumentava o ritmo das estocadas. Ela sorriu fraco e assentiu com a cabeça, sentindo-o sair de dentro de si rapidamente. Ele ficou de joelhos na cama e ela se inclinou para a frente, abrindo a boca e focando seu olhar no dele.

O gosto amargo de seu gozo invadiu sua boca e desceu rapidamente por sua garganta. Respirou fundo, deixando-se cair na cama. Ele deitou ao seu lado, puxando a garota, que encostou a cabeça em seu peito e se permitiu ouvir as batidas rápidas de seu coração. Não se pareciam nada com as outras batidas que tinha ouvido, que soavam como música e que faziam seu coração bater mais forte.

Sentia-se vazia, leve, como um pássaro moribundo. Impedido de voar, preso ao chão, fadado ao esquecimento. Suas penas oleosas espalhadas pelo asfalto quente enquanto o mundo continuava girando. Era só um pássaro... Era só uma garota matando sua solidão com um desconhecido. Só um rosto que não significava e nunca significaria nada além de uma lembrança no meio de tantas outras.

Não sentia vontade de chorar, por mais que quisesse. Sentia somente um nó crescente na garganta, uma angústia capaz de estrangulá-la. Prendia a respiração hora ou outra, ainda deitada no peito quente do rapaz, que nada percebia.

Fechou os olhos.

Ela sente o cheiro forte de bebida quando os dois se deitam na cama, depois de uma longa noite de problemas e decepções. Seu cabelo cheira a cigarro. Estão sozinhos em um apartamento pequeno e longe de casa, mas eles não se importam, pois têm um ao outro. E é isso que a faz virar o rosto para encará-lo. Seus olhos se encontram, brilhantes sob a luz da lua fraca que invade o cômodo. Ela poderia ficar assim para sempre... Contando que fosse com ele.

A cena muda. A garota encontra os mesmo olhos castanhos de outrora. Dessa vez, molhados por lágrimas. O cenho franzido, lábios curvados num sorriso triste, quase como uma careta. Sua boca estava entreaberta, como se ele se preparasse para dizer alguma coisa. Ela estava sentada na sua frente na cama, colocando o coturno. “Por favor, não faz isso”, ele pediu, a voz trêmula. Segurava a foto dos dois com tanta força que as pontas dos dedos chegavam a perder a cor. Os olhos da menina estavam fixados no guarda-roupa, seu semblante sério. As sobrancelhas levemente arqueadas ironizavam cada palavra que saía de sua boca: “Fazer o quê? Foi você quem fez tudo, não se lembra?”

E então ela decide abrir os olhos e encontrar mais uma vez aqueles olhos verdes que nunca a decepcionariam, porque, afinal, nunca significariam nada. Eles se fixam nela e ela sorri.

- Você por cima? – ele pergunta, as sobrancelhas levantadas, o mesmo sorriso torto de antes brincando nos lábios finos.

- Claro.

Gaiman


    "Às vezes eu conhecia garotas, garotas inteligentes, lindas, maravilhosas, e, com o passar do tempo, mulheres pelas quais poderia ter me apaixonado, pessoas que poderia ter amado. Mas eu não as amava. Não amava ninguém.
Cabeça e coração: na minha cabeça eu tentava não pensar em Becky, dizia a mim mesmo que não a amava, que não precisava dela, que não pensava nela. Mas quando pensava nela, quando me lembrava de seu sorriso, de seus olhos, eu sentia dor. Uma pontada aguda no tórax, uma dor real e perceptível dentro de mim, como se alguém estivesse cravando garras afiadas em meu coração.
E era nesses momentos que eu imaginava que podia sentir a pequena gárgula em meu peito. Ela se enrolava, fria como pedra, no meu coração, me protegendo, até eu não sentir mais nada."


    (Trecho do conto "Como Você Acha Que Me Sinto?", presente no livro Coisas Frágeis 2, escrito pelo Neil Gaiman)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Mr Sandman



“People think dreams aren’t real just because they aren’t made of matter, of particles.
Dreams are real.
But they are made of viewpoints, of images, of memories and puns and lost hopes.”
Preludes & Nocturnes, Sandman

  
Seu suspiro soou cansado e triste, quase como um murmúrio. Seus pés afundavam no chão macio, revestido de sonhos perdidos. Seus olhos estavam fixos no chão, e observavam cada imagem como se fosse a primeira vez que as captava. O cheiro de algodão-doce ficava mais forte durante os sonhos infantis, enquanto nos da adolescência, o que prevalecia era o de sangue. E o dele.

O cheiro dele era exatamente como ela se lembrava: perfume adocicado misturado com cheiro de roupa limpa. Seu coração batia mais forte toda vez que seus olhos escuros e cílios longos apareciam, timidamente ou não, sobre seus pés.

A garota vagou por tanto tempo pelo mundo dos sonhos que já tinha se esquecido como sair de lá. Sentia o estômago embrulhado e a cabeça girando, mas não parava de andar. Queria chegar a alguma coisa. Sabia que estava lá... Sempre esteve.

Não teve mais sonhos quando cresceu. A fase adulta era representada por nada mais que uma sala branca. Seus sapatos escuros contrastavam com o chão branco de sua maturidade. Ela queria que houvesse algum sonho, que não fosse só aquilo. Só o nada. O fim de tudo.

“Tem alguém aí? Alguma coisa?” perguntou baixo, olhando para o chão. Repetiu as perguntas mais vezes, mas não obteve resposta alguma.

Estava quase decidida a acordar quando um puxão na perna a fez abrir os olhos. Desviou o olhar para o chão e encontrou dois olhos escuros, delineados por longos cílios negros. Ele sorria e o brilho em seus olhos lhe disse que aquilo era verdade. O coração da garota batia com força contra o peito quando a mão dele saiu do chão, estendida para ela.

“Vem”, ele sibilou. Ela ajoelhou-se no chão, olhando para aqueles olhos escuros que tinham roubado seus sonhos. Aproximou sua mão da dele lentamente, sentindo-se apreensiva. “Vem. Por favor.”

Ela segurou sua mão. E soube que aquilo não era um sonho, que era seu mundo, mais verdadeiro que qualquer realidade que já tinha vivido. Ele a puxou para baixo, para o verdadeiro mundo de seus sonhos; o mundo abaixo de seus pés.

O chão era sólido, sem nenhuma projeção ou sonho perdido. Estava dentro de uma apartamento com vista para o mar. Dois gatos brincavam no tapete da sala de estar.

“O que é isso?”, ela perguntou, seus olhos castanhos arregalados.

“Sinto muito pelos seus sonhos dos últimos anos. Eu tive que pegá-los para construir os nossos.”

“Nossos?”

“Esse é o meu mundo. Dentro do seu” – ele disse e um sorriso bobo brincou em seus lábios. Aproximou-se da garota, esperando um gesto ou qualquer outra coisa que dissesse que poderia tocá-la. Nada aconteceu.

“Eu não entendo”, ela disse, o cenho franzido, coração batendo na garganta. Seus olhos continuavam com o mesmo brilho de sempre, como um garoto que se esqueceu de crescer. Seu garoto. Seu garoto que a abandonou por aventuras que nunca viveu e nem se importava tanto assim em viver.

Os gatos brincavam no tapete da sala e o mar cintilava diante de seus olhos enquanto o garoto lhe mostrava os sonhos que haviam se tornado reais. Uma gaiola de hamsters. Uma biblioteca no porão. Uma cama grande e confortável. Ninguém no mundo a não ser os dois.

“Eu senti sua falta” ela disse, sentindo os olhos arderem a cada palavra que pronunciava e sorriso que recebia como resposta. Finalmente o abraçou, sentiu seu corpo contra o dela. “Esperei tanto tempo para sentir isso de novo” soluçou, escondendo a cabeça na curva quente de seu pescoço. Ele acariciou sua cintura.

“Eu estava só esperando por você.”

“E eu por você.”

“Só confundimos os mundos.” Silêncio.

“Não vai embora de novo, por favor” pediu entre soluços, apertando-o com força contra si.

Ele não disse nada. Ao invés disso, puxou-a pela mão até o grande quarto que tinha construído para os dois e deitou-se na cama, forçando-a a fazer o mesmo. Beijou sua testa, sua bochecha, seus lábios. E seu toque queimava como se fossem brasa. As lágrimas corriam livremente pelo rosto pálido da garota enquanto ele se limitava a sorrir e tirar pacientemente cada peça de roupa que ela usava.

Esse mundo era o que ela havia sonhado, e era nesse mundo que ela gostaria de viver. Ali, com ele, para sempre. Como eles sonharam um dia, como podia ser realidade agora. E ela podia escolher. O senhor dos sonhos a deu a opção.

Um sorriso curvou seus lábios para cima enquanto ela apertava o seu garoto contra ela, sentindo seu cheiro invadir suas narinas, seu calor se misturar com o seu, seus corpos se tornarem um só. E então seus olhos se fecharam e ela dormiu. E nunca mais acordou.

Não no nosso mundo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eu acordei, não tem ninguém ao lado



- Eu tenho medo de cada dia mais me perder entre essas coisas em que eu não estou. Medo de que com o passar do tempo eu não seja nada além de uma lembrança que você tem desse lugar. Tenho medo de perder você dentro de mim, dentro desses poços fundos do meu coração. Medo de esquecer o seu cheiro, a sua voz, o seu olhar, o seu jeito. Medo de perder isso tudo dentro das minhas lembranças. Medo de você me perder dentro das suas. 

Stand Inside Your Love


“Eu vou morrer logo.
Mas os últimos vinte minutos foram os melhores anos da minha vida.”
Golias – Neil Gaiman


Meus olhos se abrem, os cílios grudados uns nos outros, a visão embaçada, me impedindo de ver o que tenho em minha frente. A luz do sol entra timidamente no quarto, iluminando velhos e novos objetos com seu brilho dourado. A janela está fechada, o vidro azulado dando um reflexo estranho para as coisas. Tudo parece frio, como se estivéssemos congelados no tempo, mortos. Aperto os olhos, coçando vagarosamente as pálpebras oleosas. Tornando a abri-los, posso te distinguir no meio de todas as outras formas. Você dorme, a expressão tranquila como sempre. Vulnerável, permito-me observar seu peito subindo e descendo, permito-me entrelaçar meus dedos em seus pelos... e me aproximo. Vejo todos os quilômetros que nos separavam tornando-se nada enquanto meus olhos se fecham e se abrem de novo.

Dessa vez, eles encontram os seus, tão castanhos como eu me lembrava. Posso ver todos os traçados de suas íris, embora deseje ver todos os traçados de sua alma. Permaneço calada, ouvindo sua respiração e a sentindo contra minha bochecha.

Você vem ao meu encontro, um sorriso bobo nos lábios, e me abraça forte, beijando meu pescoço. Temos todo o tempo do mundo. Podemos ser tão felizes quando sempre sonhei. Sinto seu cheiro, enquanto as outras pessoas no aeroporto sentem o peso de suas malas, cheias de lembranças e saudades, como já te vi fazer outras vezes.

Seu braço se aperta em minha cintura e eu sorrio, sem mostrar os dentes; sorrio, mais com os olhos que com a boca, e espero que você consiga lê-los. Minha mão sobe e desce junto com seu peito...

Deitamos na cama, finalmente, depois de todos os problemas da noite, e posso sentir seu corpo junto ao meu. Meu cabelo cheira e cigarro e você cheira a bebida, mas não nos importamos. Estamos sozinhos em um apartamento pequeno, longe de casa, mas temos um ao outro. De todas as formas. Eu me viro para você e encontro seus olhos, brilhantes sob a luz fraca da rua que invade o cômodo.

... E você me retribui o sorriso, chegando mais perto e pressionando minha cabeça contra seu coração. Posso ouvi-lo dizer que sentiu minha falta, enquanto bate rápido contra seu peito.

Sinto-me tão segura.

Como se nada pudesse nos separar. Nem mesmo todos os quilômetros, nem mesmo todas as festas e bebidas e garotas e problemas.

Mas eles podem...

Meus olhos ardem e meu coração se fecha mais uma vez, como sempre se fecha ao te ver partir. Você me deixa sozinha, visão embaçada, tocando o lado ainda quente da cama. Aperto os olhos, ouvindo as batidas do meu próprio coração.

Dessa vez não te peço para que não me esqueça, mas para que pelo menos se lembre de mim.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Morning Glory


A luz do sol iluminava suavemente o corpo do rapaz sentado na beira da cama, olhando fixamente para o chão como se tivesse perdido um objeto muito pequeno e soubesse que para encontrá-lo não adiantaria ficar rondando pelo quarto. Seu peito subia e descia conforme o ar entrava e saía de seus pulmões, cada vez num ritmo mais lento, mais calmo. Ele estava pensativo como nunca tinha estado antes.

Levou as mãos ao cabelo bagunçado, deslizando-as por ele despreocupadamente, como se também soubesse que para arrumá-lo não bastaria um simples passar de mãos. Rolou os olhos pelo quarto mal iluminado, vendo suas roupas no chão, misturadas com as roupas da garota deitada na cama.

Seu peito subiu com um pouco mais de rapidez, mas demorou um pouco mais a descer, como se ele estivesse tentando suspirar fortemente sem fazer nenhum barulho. Estava apenas respirando fundo, refletindo profundamente nas escolhas que tinha feito até ali. Teve vontade de fechar as cortinas, para que luz nenhuma atrapalhasse aquele momento e muito menos acordasse a menina, uma vez que queria poder admirá-la um pouco enquanto dormia.

Era uma coisa relaxante, de certa forma. Sentia o peito se esvaziar de um monte de preocupações e mágoas e todas as outras coisas que o deixavam confuso ao olhar para seu rosto calmo. Vez ou outra passava as pontas dos dedos por suas bochechas levemente coradas, colocava seus cabelos desgrenhados atrás de sua orelha, deixava que seus dedos deslizassem por seu pescoço quente e em seguida voltavam ao seu rosto. Gostava de vê-la dormir, de senti-la dormir, de ver o quanto seu corpo descansava calmamente enquanto ele estava ali, observando-a.

Mas ele ainda estava sentado na beirada da cama, lembrando-se de todos aqueles momentos de paz, de sossego, e imaginando quanto tempo ainda teria para aproveitá-los. Respirou fundo mais uma vez, sentindo o peito se esvaziar um pouco, como se fosse uma bexiga de festa com um pequeno furo. Levantou a cabeça, olhando atentamente para a parede creme que estava na sua frente, como se nela também houvesse um pequeno objeto perdido.
              
Levou um susto quando sentiu duas mãos pequenas, macias e quentes envolvendo seus ombros e puxando-o um pouco para trás. Piscou algumas vezes, inclinando a cabeça um pouco para o lado para poder olhar a garota que estava debruçada sobre ele, sorrindo com seus olhos azuis. Era engraçado como ela sorria. Não mostrava os dentes, não movia um músculo, nem mesmo curvava os lábios para cima como algumas pessoas faziam. Ela sorria com os olhos.

- Por que levantou tão cedo? – sua voz macia deslizou calmamente pelo ar, como um pequeno sussurro que procurava um ouvido para se enfiar. Encontrou os do garoto, que apenas fez que não com a cabeça e respirou fundo mais uma vez. Não queria falar, não queria abrir a boca e perceber que todo aquele momento de reflexão foi apenas mais um momento de reflexão. Porque era isso o que acontecia com ele quando ouvia sua própria voz, rouca, estranha, invadindo aquele lugar que lhe era tão relaxante, que parecia tão calmo. Era como se a sua voz tirasse toda a magia das coisas.

Talvez a garota soubesse disso, pois também não falou mais nada. Apenas continuou com os braços magros ao redor dos ombros também magros do garoto, deslizando as mãos quentes por seu peito frio que subia e descia calmamente. Esfregou a ponta do nariz por seu pescoço, depositando pequenos beijos estalados hora ou outra. Sabia que ele gostava disso, sabia que ele gostava daquele contato físico que quase não podia ser chamado de contato físico.

De alguma forma ela sentia que os dois estavam conectados por algo além dos corpos nus jogados sobre a cama desarrumada. Era como se eles estivessem conectados pelo coração, pela alma. Era incrível como eles poderiam ficar um dia inteiro em silêncio, somente sentados daquela forma, somente sentindo um ao outro como se não houvesse mais nada e mais ninguém no mundo.

O garoto abaixou novamente a cabeça, voltando a fixar o olhar no chão, como fazia antes, e a garota apenas levou as mãos até seus cabelos escuros, deslizando-as por eles, bagunçando-os um pouco mais. Sentia os fios macios passando por entre seus dedos e respirava fundo toda vez que percebia o quanto ele se sentia bem ao saber que ela estava ali. Não era como se ele falasse qualquer coisa, porque ele não falava. Na verdade, ela nem se recordava da última vez que ouviu alguma coisa do gênero vinda dele, mas não se importava. Ela simplesmente sabia, sentia, percebia. Mais uma vez, era como se eles estivessem conectados por algo além dos corpos. E era isso o que a fazia passar as mãos por aqueles cabelos escuros, era isso o que a permitia deslizar as mãos por aquela nuca, por aqueles ombros, por aquelas costas, sem se importar se iria ou não ouvir alguma coisa como um “eu te amo” ou apenas um “continue fazendo isso, é bom”. Sabia que amava, sabia que era bom, sabia que devia continuar.

Ele deixou que um pequeno sorriso curvasse levemente seus lábios para cima, como sempre fazia quando sentia que os dois eram mais do que apenas dois amantes deitados sobre uma cama desarrumada. Deixou que aquele sorriso continuasse ali por mais alguns segundos, antes de segurar as pequenas e macias mãos da garota e se virar para poder encará-la. Ela parecia surpresa. Seus olhos azuis estavam com um brilho estranho, como se ela estivesse prestes a chorar, mas não fosse fazer isso de forma alguma. Eles não estavam sorrindo como antes, como sempre, mas ele não se preocupou com isso, porque sabia que em alguns segundos eles estariam sorrindo de novo.

Ficaram assim por um longo tempo, enquanto a luz do sol iluminava cada vez mais o quarto e fazia com que a magia daquele momento se esvaísse junto com a fina neblina da manhã*. Somente eles dois, se olhando, se encarando, se sentindo. Sentindo um ao outro, como sempre fizeram. Os olhos castanhos do garoto estavam tão fixos nos olhos azuis da garota que ele sentia que a qualquer momento poderia invadi-la e descobrir tudo o que estava pensando. Seus medos, seus desejos, suas lembranças, tudo. Parecia que a qualquer momento todos os segredos que ainda existiam entre os dois seriam desvendados.

Ela deixou que sua boca se abrisse um pouco, se preparando para falar. O garoto podia sentir sua garganta arranhando e suas cordas vocais vibrando enquanto ela fazia isso. Ele sabia que a qualquer momento a luz do sol iluminaria completamente o quarto e a voz macia da garota, que sempre parecia sussurrar, invadiria seus ouvidos mais uma vez, então não se preocupou com o fato de que toda a magia do momento, toda a calma, todas as outras coisas iriam acabar. Ele não se preocuparia nem se o mundo estivesse acabando.

- Você vai estar sempre aqui? – foi o que os lábios rosados e rachados perguntaram com um tanto de preocupação e medo que o garoto sempre soube que estiveram ali, mas nunca achou que fossem ser confessados. Mais uma vez deixou que o sorriso curvasse seus lábios um pouco para cima. Não mostrou os dentes, quase nunca fazia isso. Sentiu vontade de congelar aquele momento, aquele cenário, aquela expressão de medo que ainda estava no rosto amassado da garota, aquele cheiro de manhã ensolarada*. Queria que aquilo tudo fosse pra sempre. Aquela conexão, aqueles olhos risonhos, aqueles corpos nus sobre a cama desarrumada. Até sentiu vontade de rir. Só rir. Sem motivo, sem graça. Apenas abrir a boca e soltar uma risada, porque sabia que nenhum momento podia ser congelado, nem ficar preso no tempo como desejava que fosse possível, mas sabia que eles dois eram para sempre. Acontecesse o que acontecesse.

Ainda não queria estragar nada com sua voz rouca, estranha até mesmo para ele, mas, ainda que houvesse aquela conexão que tornava desnecessário o uso das palavras, sabia que tinha que responder a pergunta. Sabia que só veria aqueles olhos azuis sorrindo mais uma vez se respondesse a pergunta que ainda passeava calmamente pelo quarto, batendo nas paredes e nunca saindo pela janela. A luz do sol agora iluminava os cabelos desgrenhados da garota, fazendo com que eles brilhassem muito mais do que brilhavam com a simples luz da lâmpada que estava acesa antes de os dois dormirem. Respirou fundo mais uma vez, ainda olhando fixamente dentro daqueles olhos aflitos que ainda poderiam desvendar todos os segredos que ele não queria descobrir – simplesmente por não sentir necessidade, não por medo. E então abriu a boca, deixando que uma simples palavra saísse por seus lábios feios e ressecados:

- Sempre.  

Os olhos azuis suspiraram aliviados, sorrindo e se aproximando lentamente dos seus olhos castanhos. A garota envolveu seu pescoço com os braços magros, deixando que seu corpo suado e grudento se unisse ao corpo suado e grudento do rapaz que ainda estava sentado na beirada da cama, como se tivesse acabado de acordar e olhasse para o chão fixamente, procurando um pequeno objeto perdido no chão. A luz do sol iluminava todo o quarto, finalmente, mas ele não sentiu a magia do momento indo embora.

Deixou que os seus lábios feios e ressecados se unissem aos lábios rosados e rachados da garota, como se, por mais que estivessem conectados por coração e alma, ainda precisassem estar conectados através dos corpos, como se fossem apenas amantes numa manhã ensolarada em cima de uma cama desarrumada. Como se fossem apenas eles dois para sempre. 

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Outubro de 2010

sábado, 25 de agosto de 2012




Estou sentada na cadeira da ponta. Vejo você entrar pelo reflexo do vidro. Sinto minhas pernas tremerem e ensaio um sorriso torto para as pessoas à minha frente. Você passa por mim, sem me notar. Escolhe a última mesa e se senta de frente para mim. Vejo o olhar de reconhecimento em seus olhos, fixos nos meus. Somos estranhos, nada além disso. Duas pessoas que já compartilharam tanta coisa e hoje nada mais têm a dar uma a outra além de um frio cumprimento com os olhos...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Mariazinha



Mariazinha vivia chorando um amor que perdeu
Até um dia perceber que não era e nunca foi seu
Mariazinha deixou de lado a dor
E saiu dando pra todo mundo

quinta-feira, 19 de julho de 2012



Meus olhos se abrem, os cílios grudados uns nos outros, a visão embaçada, me impedindo de ver o que tenho em minha frente. A luz do sol entra timidamente no quarto, iluminando velhos e novos objetos com seu brilho dourado. A janela está fechada, o vidro azulado dando um reflexo estranho para as coisas. Tudo parece frio, como se estivéssemos congelados no tempo, todos mortos. Aperto os olhos, coçando vagarosamente minhas pálpebras oleosas. Tornando a abri-los posso te distinguir no meio de todas as outras formas.
Você dorme, a expressão tranquila como sempre. Vulnerável, permito-me observar seu peito subindo e descendo, permito-me entrelaçar os dedos em seus pelos... me aproximo. Vejo todos os quilômetros que nos separam tornando-se nada enquanto meus olhos se fixam em você.
Sinto um formigamento estranho em meu peito, quase como um bater de asas, enquanto observo sua face calma. É amor, eu penso. As borboletas em meu peito concordam, batendo lentamente suas asas, fazendo cócegas em meu coração aflito. Cócegas que logo se transformam numa dor fina, persistente. Fecho os olhos e você continua ali, como uma estátua de cera, guardada em minha memória. Eu te tenho... E como dói...


(continua...)

sábado, 7 de julho de 2012







 E que de mim reste o amor que eu dei
O tempo que esperei
Tudo o que planejei e não realizei
E, acima de tudo, a lembrança de que não fiz muito, mas tentei...


(Escultura encontrada no cemitério de Staglieno, na Itália. Foto retirada de um site, onde não se encontrava o nome do autor da mesma)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Velhos caminhos

Eu vejo um homem. Cabelos escuros, barba malfeita. Seu rosto magro não contrasta de forma alguma com o corpo esquelético. Suas roupas são tão largas que parecem emprestadas. Seus olhos, também escuros, estão escondidos em cavidades tão profundas e negras que a impressão que tenho é a de um corpo sem vida apodrecendo diante de meus olhos.

A água da chuva bate contra sua pele, tão fina como uma folha de papel, e se junta em suas saboneteiras, tão fundas quanto seus olhos tristes e suas bochechas;   os ossos tão proeminentes quanto os das maçãs do rosto parecem prestes a rasgar a fina camada que os protege.

Eu o observo de longe, quase escondida. O grande anjo, estátua pálida de face serena, me protege de sua visão com suas grandes asas que um dia foram brancas. Hoje, assim como todas as outras, têm uma tonalidade cinza-chumbo, resultado do tempo e de sua capacidade de destruir coisas belas. Ele já foi belo um dia. Ao contrário de agora, não parecia um fantasma. Tudo mudou, ou começou a mudar, a apodrecer, quando ela se matou.

Foi há dez anos. Ela tinha dezessete. Dezessete anos e, cansada de sofrer por tudo e todos, decidiu, num momento egoísta, acabar com aquilo de uma vez por todas, sem chance de voltar atrás. “Espero que sofram por mim”, foi o que disse no bilhete, escrito em letras trêmulas em um antigo cartão de aniversário. Desejou que sofressem, mas todos sabiam que aquilo era endereçado somente a ele.

“Gostaria que ela tivesse me dado mais uma chance”, foi o que ele disse, há exatos dez anos, quando a viu dentro do caixão, as narinas tampadas, o rosto calmo, quase feliz, o corpo coberto de flores. Ela já o tinha dado muitas chances.

A chuva cai e eu vejo suas saboneteiras se encherem e transbordarem e se encherem de novo enquanto ele, corpo sem alma, apodrecendo diante de meus olhos, segura com suas mãos frias, esqueléticas, trêmulas, três rosas vermelhas. Encharcadas, elas se desfazem aos poucos, afogando-se no rio de lágrimas que caem do céu naquela tarde de quarta-feira, misturadas com as lágrimas quentes que saltam daqueles olhos fundos. Seus dedos finos seguram as flores com tanta força, num gesto quase paranoico, frenético, doentio, que seus espinhos perfuram sua pele de papel e seu sangue suja o mármore claro da lápide daquela que um dia deu seu sangue por ele. 

Solitário, ele curva seu corpo de graveto e deixa que as rosas caiam exatamente onde caíram dez anos atrás. Acho bonito... O gesto. Gosto de pensar que quando for minha vez alguém também vai se importar mesmo depois de tanto tempo, alguém não vai me abandonar como todos os outros o fazem, julgando ser inevitável esquecer.

A chuva lava o sangue de suas mãos e as lágrimas de seu rosto e enche suas saboneteiras, enquanto ele permanece ali, parado, pensando no quanto é injusto que as coisas nem sempre possam ser controladas. Parado ali, pensando no quanto teria agido diferente se soubesse o final da própria história, se soubesse que, por mais que se tente, não se pode trazer alguém de volta, não se pode juntar seus pedaços que ficaram pelo caminho.

As Virgens Suicidas


“Seu cérebro apagando-se para o resto, mas chamejante em exatos pontos de dor, feridas pessoais, sonhos perdidos. Todas as pessoas amadas retrocedem como se afastadas sobre uma grande superfície de gelo, reduzidas a pontos pretos que agitam os braços e já não se ouvem. E então a corda lançada por cima da viga, os soníferos despejados na palma da mão onde a linha da vida é longa de mentirosa, a janela aberta, o forno ligado, qualquer coisa. Elas nos fizeram participar da sua loucura, porque não podíamos deixar de repisar seus passos, repensar seus pensamentos, e ver que nenhum deles conduzia a nós. Não podíamos imaginar o vazio de uma criatura que encosta uma navalha nos pulsos e abre as veias, o vazio e a calma. E tivemos que lambuzar nossos focinhos em suas últimas pegadas, marcas de lama no chão, malas chutadas debaixo dos corpos, tivemos que respirar para sempre o ar dos quartos em que se mataram. No final, não importa quantos anos tinham ou o fato de serem garotas, mas somente que as amamos e que elas não nos ouviram chamar, ainda não nos ouvem, aqui em cima na casa da árvore, com nossos cabelos ralos e nossas barrigas moles, chamando-as para fora daqueles quartos onde foram ficar sozinhas para sempre, sozinhas no suicídio, que é mais fundo que a morte, e onde nunca encontraremos os pedaços para tornar a juntá-las.”

(Trecho do livro As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Soneto à honorável Lady Mary Coke


"A gentil donzela, cuja triste história
Estas páginas melancólicas narram;
Dize, graciosa dama, se conseguiu
Extrair-te da face uma só lágrima?

Não; nunca foi teu peito generoso
Insensível às humanas amarguras;
Terno, porém firme, se tortura
Por fraquezas que nunca conheceu

Oh! protege as surpresas desde canto;
De vil ambição castigada por destino
     Do julgamento impertinente da razão;

Dá-lhes um sorriso, é quanto basta
Para expandir minha vela imaginária;
     No fundo, teu sorriso é o que me vale."
Horace Walpole

(Encontrado na introdução do livro O Castelo de Otranto, de mesmo autor)

sábado, 5 de maio de 2012

Tudo o que eu não fiz

E isso era tudo o que eu queria. Tudo o que eu queria era atender o telefone e te dizer: “Por favor, não vai embora. Não me abandona de novo, não me deixa aqui, sozinha, à mercê do tempo, sem saber se algum dia você vai voltar pros meus braços e me apertar forte como você sempre fez. Sem saber se a gente ainda vai dar certo, se algum dia houve essa possibilidade. Por favor, eu tive tão pouco tempo, tudo o que eu precisava era ter você aqui comigo. Só isso, custa muito? E daí que é a sua vida? Eu desisti da minha só para te ver sorrir. Desistiria de novo... Você sabe que eu desistiria. Porque, droga, cara, você não consegue entender? Eu faria qualquer coisa por você. E além do mais, minha vida nunca teve nada de interessante até você aparecer nela mesmo”... Tudo o que eu queria e não fiz.


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Julho de 2011

domingo, 29 de abril de 2012


Era noite quando a garota se sentou na varanda, com um livro em suas mãos, e se pôs a olhar para o céu. Começou, como numa oração, a movimentar levemente os lábios em silêncio.

Contando estrelas... Contando os dias para te ter em meus braços... E nunca mais te deixar ir...

Contou cara estrela que viu, fez pedidos às mais bonitas e esperou que se realizassem. Guardou as esperanças em uma caixinha de madeira escura numa parte especial de sua memória – e coração – e deixou que um sorriso tímido lhe iluminasse o rosto.

Não eram tantas estrelas, afinal.


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Abril de 2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Era outono e eu contava os dias




Quantos anos já se passaram? Cinco? O tempo passa tão rápido. Num momento você está aqui e no outro eu já não sei nem mais quem sou ou o que estou fazendo.


O que eu estou fazendo aqui?

Eu me lembro bem. Era outono e eu contava os dias, como sempre contei, pra te ver de novo. Era outono e você destruiu tudo como tinha destruído no inverno. E na primavera. E no verão. Você sempre dava um jeito de foder com tudo.

Era outono e eu me perguntava como tinha aguentado tanto tempo. Eu me lembro que doeu. Doeu mesmo. Mais do que qualquer outra coisa que eu já tinha sentido. E você sabe... Eu já tinha sentido demais. Passei tanto tempo com o rosto afundado no travesseiro que cheguei a pensar que nunca mais fosse conseguir tirá-lo.

Eu passava os dias vendo você online. “Fala comigo”, eu pedia mentalmente, mas aí me lembrava que você estava bloqueado e que eu não devia esperar nada. Até que um dia você não ficou online nunca mais. E eu soube que aquilo era, de fato, o fim. “Cansei”, você me disse.

Sem palavras, mas disse.

Cinco anos se passaram. Segui minha vida... Ou pelo menos o que sobrou dela. Não foi muita coisa, admito. Praticamente nada. Gosto de dizer que comecei do zero. Minto pras pessoas dizendo que queimei todas as fotos, deletei tudo meu na internet, passei a frequentar novos ambientes, conheci novas pessoas. Mas como disse, minto.

A verdade é que eu nunca desisti. Nunca consegui fazê-lo. Ou nunca quis. Eu não sei. Tanto faz. Tanto faz é o que eu sempre penso. Minha vida virou um grande tanto faz desde que eu deixei você ir, naquele outono. A verdade, também, é que foi você quem me deixou ir. Mas tanto faz.

Cinco anos se passaram e eu continuo esperando junho chegar, mesmo sabendo que nada demais vai acontecer. Há cinco anos nada demais acontece, seja em junho ou em qualquer um dos outros onze meses do ano. Eu continuo planejando coisas que nunca vão se tornar realidade, porque você não está aqui.

Gosto de pensar que um dia vou te encontrar no trem, com sua calça jeans apertada e sua camiseta de banda. A barba vai estar preenchida como sempre foi e o cabelo, um desastre. Seu cabelo sempre foi um desastre sem mim. E aí você vai olhar pra mim e me reconhecer, e pensar “caramba, como eu deixei essa mulher ir embora da minha vida?”. E eu vou sorrir pra você, porque eu nunca resisto a esse seu olhar tristonho, e vou fingir que eu estou bem... Vou fingir que tenho uma vida, que o vazio que você deixou foi preenchido por alguma outra coisa ou pessoa. Vou levantar. "A próxima é a minha". E vou descer.

E vou ficar parada vendo o trem indo embora, como sempre. Parada, vendo você me escapar pelos dedos como areia. Como sempre.


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Abril de 2012

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Undying love


Ainda era possível ser ouvido o lamento terrível dos cães, transportado pelo vento frio da noite, quando eu, sozinha, atravessei os velhos portões do cemitério da cidade. Protegida somente pela blusa de tecido fino e pelos meus próprios braços sobre os ombros, sentia o vento chicotear impiedosamente meu corpo. Sentia-me apavorada, perguntando a mim mesma se aquilo não tinha sido uma estupidez. Começava a me arrepender de ser tão teimosa, mas, ao mesmo tempo, não pretendia interromper a viagem.

Meu rosto virava-se quase que automaticamente para os lados e sem saber exatamente por que, eu procurava – e temia – por algo – ou alguém – desconhecido. Meus pés estavam cansados e doloridos e eu sentia uma enorme vontade de descansar. Se fosse possível, o faria naquele momento. E, estava decidida a fazê-lo para sempre, logo depois que encontrasse o que procurava.

As lágrimas corriam livremente por meu rosto e, embora eu o soubesse, não as sentia. Parecia quase como um evento externo, como água caindo em mim. Eu não as sentia como minhas, mas como de alguma outra pessoa. Percebi que estava em uma estranha espécie de transe, talvez pelo nervosismo e medo de estar cercada por trevas – e pelo desconhecido. Parei aos poucos de andar e ao avistar, iluminada pela luz pálida da lua, uma grande pedra lisa, decidi me sentar.

“Que grande besteira você fez vindo aqui tão tarde da noite!”, dizia minha consciência. “Não aguentaria esperar até o amanhecer, não é? Pois agora terá de ficar no completo escuro, na companhia dos mortos, até ter condições de achar o caminho de volta”, e eu aquiescia em silêncio, abaixando cada vez mais a cabeça e aceitando minha humilhante condição de pirralha teimosa que merecia um belo castigo.

A verdade é que, exatamente por não me sentir mais como uma menina que precisa obedecer a ordens, é que decidi fazer o que era minha vontade há tempos. Eu não sabia realmente o que faria, mas sabia que precisava fazê-lo. Fui proibida, por meu próprio medo de aceitar a verdade, de visitar seu túmulo, e agora, felizmente ou não, era hora de me livrar dessas velhas correntes. Meu coração pesava no peito como se em seu lugar estivesse um pedregulho quando me levantei, decidida a cumprir minha ideia inicial.

Começara a chover há pouco e meus pés, protegidos apenas por aquelas poucas tiras de tecido vagabundo que eu ousava chamar de sapatos, afundavam na lama, tornando ainda mais difícil a caminhada. Guiada somente pela luz da lua, mal enxergava um palmo a minha frente. A chuva só piorara tudo, fazendo com que eu não fosse capaz de enxergar nem mesmo meu próprio nariz. E foi assim que me senti forçada a parar de andar pela segunda vez na noite. Permaneci daquela forma, parada, quieta como um gato, por um longo tempo, somente sentindo a chuva em minha fronte, os cabelos pingando e o barulho constante da água batendo nas folhas das árvores. Comecei a cogitar a ideia de permanecer afundando na lama até o amanhecer, quando esta estivesse em minhas canelas, mas meus pensamentos foram interrompidos abruptamente pelo barulho de um galho quebrando logo atrás de mim.

Virei o corpo naquela direção no mesmo instante, sentindo o coração bater de forma assustadoramente rápida contra o peito. O barulho se repetiu e eu tive vontade de correr e de gritar, mas como que tomada por uma força sobrenatural, permaneci, como uma estátua, no mesmo lugar.

- Quem está aí? – perguntei, gaguejando, ofegante, após longos segundos de luta interna e silêncio absoluto. Tive medo da resposta. Medo de que ela viesse acompanhada de grandes olhos vermelhos, como nas histórias que ouvia quando criança; e também medo de que ela não viesse.

Por longos minutos a segunda opção pareceu se confirmar como verdadeira, mas, de repente o barulho se repetiu e eu pude distinguir, por entre as sombras, uma silhueta masculina. “Ora pois, que fantasma mais indiscreto”, pensei, permitindo-me um pouco de humor para aquecer de leve meu pobre coração congelado pelo medo.

- Quem está aí? – repeti a pergunta, dessa vez com a voz mais firme, e apertei os olhos para enxergar melhor.

Não teria sido necessário que eu forçasse minha visão, pois no momento em que o fiz, o homem deu um grande passo para frente e a luz do luar iluminou completa e perfeitamente seu rosto pálido. Oh céus! Que sensação horrível tive ao reconhecê-lo! Era ele. Era meu amado! Meu amado, que estava a seis pés abaixo da terra!

Meus joelhos, antes já trêmulos, cederam e eu caí, como uma fruta madura, ao chão, diante de sua imagem fria e firme como um reflexo num espelho. Estava eu prostrada diante daquela aparição como um fiel o faz a um santo. E era o que ele era para mim, meu leitor, um santo: uma imagem intocável, impassível, inexistente.

Fechei os olhos com força, mas ao abri-los novamente lá estava ele, ainda me encarando. Convenci-me da veracidade de sua imagem quando, com um suspiro de grande sofrimento, ele se lançou ao chão junto a mim, pegando minhas mãos e apertando-as contra seu peito de pedra. Seu toque era macio como sempre fora, e ao sentir seu coração batendo contra a palma de minha mão trêmula, deixei que tudo o que eu sentia se transmitisse através de lágrimas e soluços desesperados, que ele tentou a todo custo cessar. Obviamente, não obteve sucesso.

- Meu amor... Minha querida, por favor, não chore. – e, tocando meu rosto com a ponta dos dedos, suspirou. – Eu estou aqui agora, meu amor.

Apertou-me contra seu peito, beijando o topo de minha cabeça como um pai beija o filho para desejar-lhe boa noite. Depois, ergueu gentilmente meu rosto e, olhando para mim com seus profundos olhos castanhos, pediu para que eu me acalmasse e parasse de chorar. Obedeci com dificuldade, demorando a conseguir me controlar. Quando o fiz, agarrei-me à sua cintura para me certificar de que ele não iria embora. Ele me olhou tristonho.

- Não se vá. Não me abandone novamente! Por favor, não me deixe sozinha. – seus olhos estavam agora umedecidos por quentes lágrimas que não tardaram a correr por seu rosto. Fiz questão de beijá-las, uma a uma, até que em meus lábios não houvesse mais nenhuma além das minhas próprias, que me lavavam o rosto.

Ele me apertou novamente contra seu peito e pressionou seus lábios nos meus. Ao abrir os olhos, pude ver os seus, brilhantes, me dizendo adeus. Depois disso de nada me lembro. Nada me lembro a não ser de ter acordado em uma das camas de minha casa, com uma criada ao meu lado, me olhando espantada. Pelo que fui informada depois, dormira durante cinco dias desde que, numa sombria manhã de sábado, fora encontrada desacordada no cemitério da cidade, diante da lápide de meu falecido noivo, abraçando meu próprio corpo.


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Abril de 2012

terça-feira, 24 de abril de 2012

O que é isso?


  
        São minhas palavras afogando-se neste rio de água turva. Tento salvá-las, puxando a rede, mas não recupero nada além de letras soltas, pensamentos embaralhados.

          Nada faz sentido... Nunca fez.


sábado, 14 de abril de 2012

I don't want to go...






Volte a ser o dono do meu coração... Ressuscite dentro de mim, volte a ser o único que pode me salvar. Não permita que eu me perca para sempre, ainda tenho tanto pra te dar...

domingo, 8 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012



You've poisoned my heart with this sick love...




I wish I could find the antidote

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Só a luz do luar lhe agradava. A luz do luar não conhecia cores e só vagamente assinalava os contornos do terreno. Ela percorria o campo cinza-sujo e por uma noite estrangulava a vida. Esse mundo como que fundido em chumbo, no qual nada se mexia exceto o vento, que às vezes caía como uma sombra sobre as matas cinzentas e no qual vivia exceto os odores da noite desnuda, era o único mundo que ele permitia que reinasse, pois parecia com o mundo da sua alma."

(O Perfume - Patrick Süskind)

domingo, 18 de março de 2012

Drowning slowly

 
Olho para a imensidão azul em minha frente, tomada pela sensação de liberdade, sentindo o frio percorrer lentamente minha espinha. Estou sozinha, sentindo o vento bagunçar meus cabelos. A água toca a ponta dos meus dedos, engole meus pés descalços, sobe por minhas canelas trêmulas e faz com que meu corpo balance levemente.

Conto até três mentalmente. Olho para trás uma última vez, vendo a mochila, carregada de bilhetes de despedida e objetos que eu gostaria que estivessem junto comigo neste momento. Sempre fui muito materialista, era o que diziam. Sempre fui muito sensível também... Uma pena que ninguém tivesse notado. Gostaria de ter experimentado algumas últimas sensações. Gostaria de ter abraçado pela última vez a única pessoa que me importava; gostaria de ter chorado de verdade, só para aliviar um pouco o peso dos ombros.

A água está agora em minhas coxas e as pedras em meus bolsos praticamente não pesam mais. Começo a imaginar o que as pessoas vão dizer... Será que alguém vai notar todos os sinais que eu dei? Será que alguém não notou? Gostaria que alguém tivesse me salvado se pudesse. Fechando os olhos novamente, consigo imaginar, como em meus últimos momentos, uma mão me puxando pelo braço e me sacudindo forte. “O que diabos você tinha na cabeça?”, ele diz, enquanto me aperta contra seu peito e beija minha testa molhada. Gostaria de sentir seus lábios uma última vez.

Não posso resistir à correnteza... Sinto a água invadindo rapidamente meus ouvidos e sinto o desespero dar as caras pela primeira vez em muito tempo. Estou reagindo. Inutilmente prendo a respiração, talvez num último movimento involuntário antes de ser tomada completamente pela água. Os olhos fechados. Estou com medo de abri-los. Tenho medo do que posso encontrar. Medo de que seja apenas mais escuridão, mais desespero. Posso me sentir afundando cada vez mais. Drowning slowly.

Tento me mover, mas não consigo. Perdendo os sentidos, peço para o desespero dar lugar para a paz. O silêncio toma conta de tudo. A água invade minhas narinas e minha boca se abre. O desespero já se foi.

Tudo já se foi.

Sem medo, abro os olhos. Acima de mim, a luz trêmula da lua. Abaixo, o vazio, a escuridão, e mais nada...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012







- Por que você voltou? – perguntei, abrindo os olhos para poder encará-lo. Ele deu de ombros.

- Acho que não consigo ficar longe de você por muito tempo. 


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Novembro de 2009

Summer love



- Eu nunca senti antes o que eu sinto por você. E eu sei que é verdadeiro porque a tua ausência me dói toda vez que eu respiro. 


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Março de 2011

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Gelada, em delírio, ela se acha sobre as bordas de um precipício: tudo que a cerca são trevas; nenhuma perspectiva, nenhuma consolação, nenhum pressentimento: ela está abandonada do único ente que a fazia reconhecer a sua existência. Ela não vê o vasto universo que tem diante de seus olhos: ela não vê mil pessoas que a poderiam indenizar do que perdeu. Ela não sente senão a si, a si abandonada de todo o mundo. Perturbada, oprimida pelo estado horrível em que está o seu coração, precipita-se no seio da morte para sufocar os seus tormentos."



Os Sofrimentos do Jovem Werther - Goethe
(Simplesmente fantástico. Tanto sentimento... Ai ai ;-;)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Poe



"Durante quinze anos, vagueamos, de mãos dadas, pelo vale, eu e Eleonora, antes que o Amor penetrasse em nossos corações. Foi tarde, numa tarde, no fim do terceiro lustro de sua vida e no quarto da minha, em que nos achávamos sentados sob as árvores serpentinas, estreitamente abraçados e contemplávamos nossos rostos dentro da água do rio do Silêncio. Nem uma palavra dissemos durante o resto daquele dia suave, e mesmo no dia seguinte nossas palavras eram roucas e trêmulas. Tínhamos arrancado daquelas águas o deus Eros e agora sentíamos que ele inflamara, dentro de nós, as almas ardentes de nossos antepassados. As paixões que durante séculos haviam distinguido nossa raça vieram em turbilhão com as fantasias pelas quais tinham sido igualmente notáveis e juntas sopraram uma delirante felicidade sobre o vale das Relvas Multicores. Todas as coisas se transformaram.  

Flores estranhas e brilhantes, em forma de estrelas, brotaram nas árvores onde antes nunca haviam sido vistas. Os matizes do verde tapete ficaram mais intensos, e, quando uma a uma, as brancas margaridas desapareceram, e floriram dezenas e dezenas de rúbidas abróteas. E a vida despertou nas nossas veredas, porque o alto flamingo, até então invisível, como todos os alegres pássaros resplendentes, ostentou para nós a plumagem escarlate. Peixes de ouro e prata encheram o rio, de cujo seio irrompeu, pouco a pouco, um murmúrio que foi crescendo, afinal, para se tornar uma melodia embaladora mais divina a da harpa de Éolo, mais doce do que tudo, exceto a voz de Eleonora.

E então, uma nuvem imensa, que há muito observávamos nas regiões de Vésper, veio flutuando, toda rebrilhante de carmim e ouro, e pairou tranqüila sobre nós, descendo,dia a dia, cada vez mais baixo, até que suas extremidades descansaram sobre o cume das montanhas, transformando-lhes o negror em magnificência e encerrando-nos, como que para sempre, dentro de uma mágica prisão de grandeza e de glória."




(Trecho do conto Eleonora)