sexta-feira, 18 de maio de 2012

Velhos caminhos

Eu vejo um homem. Cabelos escuros, barba malfeita. Seu rosto magro não contrasta de forma alguma com o corpo esquelético. Suas roupas são tão largas que parecem emprestadas. Seus olhos, também escuros, estão escondidos em cavidades tão profundas e negras que a impressão que tenho é a de um corpo sem vida apodrecendo diante de meus olhos.

A água da chuva bate contra sua pele, tão fina como uma folha de papel, e se junta em suas saboneteiras, tão fundas quanto seus olhos tristes e suas bochechas;   os ossos tão proeminentes quanto os das maçãs do rosto parecem prestes a rasgar a fina camada que os protege.

Eu o observo de longe, quase escondida. O grande anjo, estátua pálida de face serena, me protege de sua visão com suas grandes asas que um dia foram brancas. Hoje, assim como todas as outras, têm uma tonalidade cinza-chumbo, resultado do tempo e de sua capacidade de destruir coisas belas. Ele já foi belo um dia. Ao contrário de agora, não parecia um fantasma. Tudo mudou, ou começou a mudar, a apodrecer, quando ela se matou.

Foi há dez anos. Ela tinha dezessete. Dezessete anos e, cansada de sofrer por tudo e todos, decidiu, num momento egoísta, acabar com aquilo de uma vez por todas, sem chance de voltar atrás. “Espero que sofram por mim”, foi o que disse no bilhete, escrito em letras trêmulas em um antigo cartão de aniversário. Desejou que sofressem, mas todos sabiam que aquilo era endereçado somente a ele.

“Gostaria que ela tivesse me dado mais uma chance”, foi o que ele disse, há exatos dez anos, quando a viu dentro do caixão, as narinas tampadas, o rosto calmo, quase feliz, o corpo coberto de flores. Ela já o tinha dado muitas chances.

A chuva cai e eu vejo suas saboneteiras se encherem e transbordarem e se encherem de novo enquanto ele, corpo sem alma, apodrecendo diante de meus olhos, segura com suas mãos frias, esqueléticas, trêmulas, três rosas vermelhas. Encharcadas, elas se desfazem aos poucos, afogando-se no rio de lágrimas que caem do céu naquela tarde de quarta-feira, misturadas com as lágrimas quentes que saltam daqueles olhos fundos. Seus dedos finos seguram as flores com tanta força, num gesto quase paranoico, frenético, doentio, que seus espinhos perfuram sua pele de papel e seu sangue suja o mármore claro da lápide daquela que um dia deu seu sangue por ele. 

Solitário, ele curva seu corpo de graveto e deixa que as rosas caiam exatamente onde caíram dez anos atrás. Acho bonito... O gesto. Gosto de pensar que quando for minha vez alguém também vai se importar mesmo depois de tanto tempo, alguém não vai me abandonar como todos os outros o fazem, julgando ser inevitável esquecer.

A chuva lava o sangue de suas mãos e as lágrimas de seu rosto e enche suas saboneteiras, enquanto ele permanece ali, parado, pensando no quanto é injusto que as coisas nem sempre possam ser controladas. Parado ali, pensando no quanto teria agido diferente se soubesse o final da própria história, se soubesse que, por mais que se tente, não se pode trazer alguém de volta, não se pode juntar seus pedaços que ficaram pelo caminho.

As Virgens Suicidas


“Seu cérebro apagando-se para o resto, mas chamejante em exatos pontos de dor, feridas pessoais, sonhos perdidos. Todas as pessoas amadas retrocedem como se afastadas sobre uma grande superfície de gelo, reduzidas a pontos pretos que agitam os braços e já não se ouvem. E então a corda lançada por cima da viga, os soníferos despejados na palma da mão onde a linha da vida é longa de mentirosa, a janela aberta, o forno ligado, qualquer coisa. Elas nos fizeram participar da sua loucura, porque não podíamos deixar de repisar seus passos, repensar seus pensamentos, e ver que nenhum deles conduzia a nós. Não podíamos imaginar o vazio de uma criatura que encosta uma navalha nos pulsos e abre as veias, o vazio e a calma. E tivemos que lambuzar nossos focinhos em suas últimas pegadas, marcas de lama no chão, malas chutadas debaixo dos corpos, tivemos que respirar para sempre o ar dos quartos em que se mataram. No final, não importa quantos anos tinham ou o fato de serem garotas, mas somente que as amamos e que elas não nos ouviram chamar, ainda não nos ouvem, aqui em cima na casa da árvore, com nossos cabelos ralos e nossas barrigas moles, chamando-as para fora daqueles quartos onde foram ficar sozinhas para sempre, sozinhas no suicídio, que é mais fundo que a morte, e onde nunca encontraremos os pedaços para tornar a juntá-las.”

(Trecho do livro As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Soneto à honorável Lady Mary Coke


"A gentil donzela, cuja triste história
Estas páginas melancólicas narram;
Dize, graciosa dama, se conseguiu
Extrair-te da face uma só lágrima?

Não; nunca foi teu peito generoso
Insensível às humanas amarguras;
Terno, porém firme, se tortura
Por fraquezas que nunca conheceu

Oh! protege as surpresas desde canto;
De vil ambição castigada por destino
     Do julgamento impertinente da razão;

Dá-lhes um sorriso, é quanto basta
Para expandir minha vela imaginária;
     No fundo, teu sorriso é o que me vale."
Horace Walpole

(Encontrado na introdução do livro O Castelo de Otranto, de mesmo autor)

sábado, 5 de maio de 2012

Tudo o que eu não fiz

E isso era tudo o que eu queria. Tudo o que eu queria era atender o telefone e te dizer: “Por favor, não vai embora. Não me abandona de novo, não me deixa aqui, sozinha, à mercê do tempo, sem saber se algum dia você vai voltar pros meus braços e me apertar forte como você sempre fez. Sem saber se a gente ainda vai dar certo, se algum dia houve essa possibilidade. Por favor, eu tive tão pouco tempo, tudo o que eu precisava era ter você aqui comigo. Só isso, custa muito? E daí que é a sua vida? Eu desisti da minha só para te ver sorrir. Desistiria de novo... Você sabe que eu desistiria. Porque, droga, cara, você não consegue entender? Eu faria qualquer coisa por você. E além do mais, minha vida nunca teve nada de interessante até você aparecer nela mesmo”... Tudo o que eu queria e não fiz.


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Julho de 2011