terça-feira, 30 de julho de 2013


(Beksinski)

“Ah, mas a pintura na parede! Tão vívidas, as figuras na pintura, criaturas informes que eram na verdade grandes manchas de tinta amarela e vermelha. Tudo que parecia vivo estava vivo – aquela era uma possibilidade diferente. Alguém pinta seres sem braços, nadando em cores cegantes, e eles terão que existir assim para sempre. Será que podiam enxergar com todos aqueles olhos minúsculos, espalhados? Ou enxergavam apenas o céu e o inferno de seu próprio reino brilhante, ancorados aos pregos na parede por um pedaço de arame retorcido?”

(A Rainha dos Condenados, Anne Rice)

domingo, 21 de julho de 2013

Julho IV

Minha inspiração morreu. Deu seu último suspiro quando eu fechei o portão na sua cara e me escondi embaixo dos travesseiros para chorar sozinha. Antes disso, embora cambaleante, ela se erguia quase todas as manhãs junto com essas tuas pálpebras oleosas e cílios compridos. Ficava radiante e borbulhava na minha cabeça quando você sorria sem mostrar os dentes. Era quase como uma adolescente apaixonada, se encantando com qualquer demonstração de afeto, colorindo as folhas em branco da minha mente e decorando-as com palavras bonitas.

Era uma criança mimada, na verdade. Acostumou-se com suas migalhas de atenção, decidiu que seria só tua. “Há males que vêm para o bem”, ela me dizia ao ouvir as suas palavras duras ou verdades dolorosas, e me levantava da cama para me fazer colocar meus sentimentos em parágrafos mal divididos que ninguém lia.

Acostumada a te ter sempre por perto, mesmo que do outro lado do mundo, nunca levou muito a sério as brigas e desencontros, por isso se negava a dizer adeus. “Dessa vez é sério”, eu confessei baixinho entre os travesseiros, enquanto meu queixo tremia e esses teus olhos me encaravam suplicantes, e ela quase não acreditou. Teve que acreditar, no entanto, quando meus olhos encararam a calçada ao invés dos seus, e o que tinha de você dentro de mim foi arrancado pelas minhas mãos frias e unhas malfeitas. Foi aí que ela suspirou uma última vez e decidiu se agarrar naqueles fios de esperança que saíam do meu peito.

Agora estou sozinha, o peito vazio e a escuridão ao lado. Não me sobrou nada de ti (nem dela), nem mesmo as palavras.

sábado, 20 de julho de 2013

Julho III

Essa tua covardia disfarçada de coragem não me engana hoje como já enganou um dia. Já gravei teus movimentos e seus pensamentos não são novidade. Nada de ti me surpreende a não ser o que tem guardado de mim. Não somos mais um só, se é que um dia fomos. Quem sabe essa ferida fecha semana que vem, quem sabe eu ignoro tua voz e vou embora de vez.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Julho II

Às margens do rio das minhas memórias, uma lembrança solitária se sentou e chorou. Trazia consigo, nos braços curtos, um sentimento há muito esquecido. Ele, quase morto, olhava na direção das águas turvas da minha mente, quase que numa prece silenciosa para se afogar em suas cenas podres e desgastadas, arrastadas lentamente pela fraca correnteza.

Eu observava ao longe enquanto a lembrança, melancólica, torcia a barra do vestido branco. Sem rosto, ela ainda chorava. Era uma mistura de tristeza com alívio, revestida por angústia, vestida de branco para simbolizar a paz que nunca significou. Uma lembrança ruim, e nada mais.

A lembrança às margens do rio das minhas memórias era parte de mim que não queria morrer e nem deixar que o sentimento atrelado a ela se fosse: o agarrava com força, cravando as unhas em suas costelas para não o perder de vista, como se pudesse salvar aos dois de uma vez. Ela, sem rosto, sem nome, tão apegada à vida, não sabia a hora de dizer adeus. E chorava, chorava...

Quando despertou minha atenção, pude ouvir sua voz, ou a voz que ela reproduzia, o som que coube a ela guardar com zelo para que não se confundisse com nenhum outro. O som que ela lutou para garantir que fosse ouvido nitidamente quando fosse preciso. Um choro baixo, sem soluços.

Ela me olhou, sem olhos, e eu a desvendei. Ela era a noite fria, sem chuva, no fim de julho, onde eu, deitada na cama, sentia pena e medo de mim mesma. O som, o choro baixo sem soluços, escapava da minha boca entreaberta e ecoava nas paredes sujas do quarto. O sentimento, quase morto em seu colo, enchia meu peito de algo que eu não sei descrever. E por isso, por ser indescritível, ela o segurava com tanta força, para que eu o sentisse mais uma vez, mais uma única vez, antes que ele se fosse para sempre.

Eu sorri para ela, enquanto seus braços curtos erguiam seu protegido e o soltavam, para que ele cumprisse seu propósito. E quando isso aconteceu, eu soube que ela também tinha cumprido o seu. Ela, ali nas margens do rio, ficaria marcada como uma noite fria de julho em que eu me senti completa: finalmente havia encontrado a mim mesma, vagando por ali, nos tais rios e campos desconhecidos da minha mente.

E ali, nas margens daquele rio, a noite fria de julho chorava e deixava a água cobrir seu corpo aos poucos, enquanto me dizia com sua voz triste que também não se esqueceria de mim.

Julho

Deitei no chão e chorei, enquanto a escuridão, deitada na cama, me olhava com olhos brilhantes e me acariciava, seus dedos finos entre meus cabelos. Eu ali, de bruços, peito e cara no piso frio, sentindo a desgraça de amar e não ser amada, de doar e não receber, chorei.

Sem me importar com beleza ou aparência, vomitei a mim mesma naquele chão frio que acolhia minha carcaça, morta, inútil. As lembranças nada eram além de segundos do passado, borrões sem importância. Ali, vomitada no chão, minha alma chorava, sangrava por todos os poros. E eu, que me conhecia tão bem, me perdia nas tentativas de me expressar além das palavras ditas para mim mesma, além dos cortes fundos e dos soluços sem destino ou direção.

Chorava. Chorava perdida e desamparada, vomitada no chão do quarto. Chorava enquanto a escuridão me consolava com seus olhos tristes e dedos finos. “Acalma-te, filha minha, que tu nunca estarás só enquanto tiveres a mim.”

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Preferi me perder por aí a encontrar sempre as mesmas lembranças pela manhã.