Demorei tanto pra escolher uma roupa que cheguei atrasada. Saí do carro com aquela sensação estranha de não estar vendo nada ao meu redor, andando com pressa na direção da escada rolante. Na cabeça um milhão de coisas, no peito outras mil.
Acho que pensei demais, planejei demais, e subindo a escada rolante e falando com qualquer pessoa no celular só pra parecer despreocupada, eu percebi o quanto eu estava ansiosa. Pra vê-lo. Pra conhecer o cara por trás daquela tela, daquelas palavras, daqueles planos todos. Depois de tanto tempo sozinha - quantos meses, seis, sete? - era até difícil de acreditar que eu finalmente tinha me permitido uma coisa boba dessas. Conhecer um cara. Um cara novo, da internet, que incrivelmente mora a duas ruas da minha casa - "e a gente nunca se viu?!" "pois é, que coisa louca". Ainda mais depois de me fechar tão bem para tudo e todos.
Ali estava eu, andando meio perdida pelo shopping, procurando o cinema, indo encontrar um cara que eu tinha conhecido há dez dias, numa noite tediosa, e tinha depositado todas as minhas fichas e piadinhas pra quebrar o gelo e esperanças e medos e sentimentos guardados há muito no fundo do armário.
A cada passo meu coração batia mais forte, com a ideia de que uma hora teria que parar de andar e encarar um rosto que talvez não fosse o que eu imaginava - fotos sempre enganam, não é? -, mas acima dessa, a ideia de que aquele cara estaria ali, provavelmente tão nervoso quanto eu, depois de termos compartilhado tantas palavras e risadas e planos.
Era uma ideia boba, a de que aquilo era o início de algo, mas era uma ideia tão certa naquele momento, que eu só me preocupava em parecer legal, fazer as piadas certas, não ser tão esquisita, rir dos comentários bobos, segurar o medo e seguir em frente.
De frente pro cinema eu me sentia uma idiota, nervosa por uma coisa tão normal quanto encontrar um cara. É a coisa mais normal do mundo, não tem motivo pra ficar tão ansiosa, para de tremer, merda, meu rosto ta ficando quente, eu devo estar toda vermelha, merda, cadê ele?
Os olhos grudados no celular, na esperança de que não denunciassem meu nervosismo, me impediram de vê-lo chegando. Foi ele que me viu primeiro. Foi ele que avisou que estava logo atrás de mim. Fui eu que tive que me virar pra encontrar ele. Esse não era meu plano. Meu plano era chegar de fininho, ver tudo de longe, e depois me aproximar com um sorrisinho e dizer que ele tinha chegado muito cedo. Mas fui eu que tive que virar, com o coração batendo a mil, pra ver o tal rosto, todo vermelho, me olhando a distância. Era diferente da foto, mas eu gostei. Gostei porque era ele, afinal. Gostei porque já gostava, porque já esperava o "bom dia" todos os dias de manhã, porque já contava com o "Lari, vou dormir" pra poder dormir também.
A verdade, eu acho, é que eu já tinha me entregado muito antes daquilo. Acho que me entreguei quando respondi o elogio sobre o meu cabelo... Ou quando perguntei se ele tinha alergia a gatos.
Ele veio andando devagarinho, com uma carinha estranha, as bochechas muito vermelhas, e eu não tenho ideia da cara que eu estava fazendo, mas acho que estava sorrindo. E nervosa como sempre, dei um oi frouxo, evitando a qualquer custo olhar pra cima, encarar aqueles olhos que me analisavam, porque odeio me sentir observada, odeio primeiros encontros, odeio não superar as expectativas, odeio ficar com manchas vermelhas no colo, odeio não saber o que fazer com as mãos. Ele também não sabia o que fazer com as mãos, nem comigo, nem com ele mesmo.
A gente parecia muito diferente, ele nerdzinho carente e eu toda explosiva, reclamona, mas naquele momento nós dois éramos dois adolescentes envergonhados, que não sabíamos pra onde ir e nem o que falar.
Fico triste sempre que lembro disso. Porque eu lembro que não o recebi com um abraço apertado, que recusei um beijo no cinema, que fiquei tão nervosa que fui fria em alguns momentos, quando na verdade tudo o que eu queria era mergulhar de cabeça em alguém que também quisesse mergulhar de cabeça em mim.
Mas também me pego sorrindo quando lembro dele olhando pro meu pescoço, perguntando se eu estava com alergia e rindo ao me ouvir dizer que eu fico vermelha quando estou nervosa, mas que ele não podia rir de mim porque estava vermelho também.
Sempre me rende um suspiro lembrar da sua voz, naquele tom baixinho, me perguntando porque eu estava nervosa, pedindo desculpas por ter comprado os ingressos pro filme errado - "falei pro meu amigo que ia ver Hitman...", "você ia ver o que?", "Hitman...", "mas não é Hitman! é Missão Impossível, por causa do Simon Pegg!", "ta de sacanagem? meu deus, desculpa... mas você tava comigo, você não viu na tela?", "não, eu tava muito nervosa e não consegui ler o que tava escrito!", "meu deus, e agora? desculpa desculpa desculpa" -, me agradecendo por encostar no seu ombro...
Meu coração sempre pula uma batida quando eu lembro do beijo no canto da boca, ou quando releio a parte em que, depois de me deixar em casa, ele diz que meu cheiro ficou na camisa dele e que ele queria que tivesse ficado mais... mais do cheiro e mais de mim.
Eu também queria que tivesse ficado mais dele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário